opinião
Membro do Conselho de Especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: Como desligar a nossa cabeça, especialmente à noite?

22 jun 2025, 10:00
Dormir

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

É comum ouvirmos: “Deito-me a horas, mas a minha cabeça não pára.” Mesmo depois de um dia cansativo, ao deitar, muitas pessoas sentem a mente a acelerar — os pensamentos tornam-se mais intensos, as preocupações invadem, e o sono simplesmente não acontece. O corpo está exausto, mas a mente inquieta. 

O sono é uma parte fundamental da vida do ser humano. Uma boa higiene do sono é essencial na adoção de um estilo de vida saudável, é um pilar da saúde e da qualidade de vida. 

Todos temos noites de sono menos boas, mas quando não dormimos o suficiente ou bem, de forma regular, isso pode afetar a forma como nos sentimos e aquilo que somos capazes de fazer durante o dia. 

Esta dificuldade em “desligar” o cérebro antes de dormir é mais frequente do que se imagina e pode ser um importante indicador de desequilíbrio psicológico. A boa notícia? Existem estratégias eficazes — sustentadas pela evidência científica — que nos ajudam a recuperar a tranquilidade e a restaurar o sono. 

O sono é um pilar da saúde. Dormir bem é tão essencial como alimentar-se de forma equilibrada ou praticar exercício físico. O sono repara o corpo, regula o humor, fortalece o sistema imunitário, organiza a memória, e é determinante para a nossa saúde mental e desempenho diário. 

Estudos demonstram que a privação de sono ou a sua má qualidade estão associados a: 

- Maior vulnerabilidade à ansiedade, depressão e irritabilidade;  

- Aumento do risco de doenças cardiovasculares, metabólicas e imunológicas;  

- Comprometimento da concentração, criatividade e tomada de decisões;  

- Redução da capacidade de lidar com o stress e gerir emoções; 

Além disso, dormir menos de 5 horas por noite de forma repetitiva está fortemente associado a um maior risco de burnout, acidentes e até dependência de substâncias como o álcool e o tabaco. 

Somos todos diferentes, por isso todos temos necessidades de sono diferentes. O número de horas de sono recomendado para pessoas adultas e saudáveis pode variar entre as 7 a 9 horas de sono por dia. Já os bebés, crianças e adolescentes precisam de mais horas de sono, e as pessoas com mais de 65 anos de idade não necessitam, geralmente, de dormir mais de 7 a 8 horas. Tudo depende das necessidades e características da pessoa – a idade, a atividade profissional ou o estado de saúde, física e psicológica. 

Exceções devem ser exceções. Assim, por forma a conseguir uma boa higiene de sono, a agenda de sono deve incluir:  

a) um período para relaxar (momento de preparação para o sono; pode envolver atividades como ler ou meditar);  

b) um horário para dormir (um horário consistente para apagar as luzes e tentar adormecer); 

c) um horário para acordar (definido, por exemplo, por um alarme).  

Adote uma rotina de sono. Antes do período de sono, realize uma ou mais atividades (por exemplo, tomar um banho quente, ler um livro, ouvir música ou outras atividades) que o ajudem a “desligar” de forma tranquila e relaxada. 

O que nos impede de "desligar"?

A dificuldade em adormecer ou manter o sono (insónia) pode ter causas variadas. Do ponto de vista psicológico, destacam-se: 

1. Hiperativação mental: O cérebro continua em “modo resolução de problemas”, mesmo quando o dia termina. Esta hiperatividade cognitiva é frequente em pessoas com perfis exigentes, ansiosos ou com dificuldades em aceitar a incerteza. 

2. Falta de tempo para processar o dia: Quando vivemos em modo acelerado, sem pausas para refletir ou digerir emocionalmente o que nos acontece, o cérebro procura esse espaço à noite. 

3. Associação negativa à cama. Se a cama se transforma num local de frustração, esforço ou ansiedade, o cérebro deixa de a reconhecer como um espaço de descanso — e entra em alerta assim que nos deitamos. 

4. Estímulos externos e hábitos prejudiciais: Exposição a luz intensa, uso de ecrãs, alimentação inadequada, falta de rotina, consumo de estimulantes ou uso excessivo de redes sociais são exemplos de comportamentos que dificultam o relaxamento cerebral. 

5. Stress acumulado e saúde mental: O stress crónico, os sintomas depressivos ou de ansiedade generalizada são condições clínicas frequentemente associadas a perturbações do sono. Nestes casos, o sono é sintoma e agravante. 

O sono como ato de autocuidado e equilíbrio emocional

Não devemos ver o sono como “tempo perdido”. Dormir é um dos gestos mais profundos de autocuidado que podemos praticar. É durante o sono que o cérebro organiza memórias, regula hormonas, se desintoxica e fortalece os sistemas internos. 

Não se trata apenas de dormir mais. Trata-se de aprender a descansar a mente. E com alguma prática, isso também se aprende. Exige consciência, consistência e, por vezes, apoio especializado. 

Se os sintomas persistirem por mais de 3 semanas, afetarem o funcionamento diário ou estiverem associados a sofrimento psicológico significativo, é fundamental procurar apoio especializado. Dormir bem é viver melhor. E há sempre um caminho para recuperar o seu descanso — e com ele, o seu equilíbrio. 

Como desligar a mente e preparar o corpo para dormir?

A regulação do sono começa muito antes de nos deitarmos. Aqui ficam estratégias com base na ciência psicológica e neurobiológica: 

 1. Crie e respeite uma rotina regular de sono: Ir para a cama e acordar à mesma hora todos os dias ajuda o cérebro a antecipar e preparar-se para descansar. A regularidade fortalece o ritmo circadiano, facilitando o adormecer e melhorando a qualidade do sono. 

2. Reduza estímulos e transite conscientemente para o modo “descanso”: Uma hora antes de dormir, evite ecrãs, notícias intensas ou tarefas cognitivamente exigentes. Prefira atividades que induzam tranquilidade — como um banho quente, leitura leve, música suave ou técnicas de respiração. 

3. Reserve tempo para pensar durante o dia, não na cama: Adiar a gestão de preocupações para o momento de deitar sobrecarrega o cérebro. Pratique o hábito de refletir ou planear em horário diurno — e, se necessário, mantenha um “diário de preocupações” para esvaziar a mente. 

4. Cuide do espaço onde dorme: A cama deve ser associada apenas ao sono e ao descanso. Evite trabalhar, ver televisão ou usar o telemóvel na cama. O quarto deve ser silencioso, ventilado e confortável. 

5. Pratique técnicas de regulação emocional: Estratégias como atenção plena (mindfulness), visualizações guiadas ou técnicas de respiração ajudam a reduzir a ativação fisiológica e acalmar o sistema nervoso, criando condições para adormecer. 

6. Evite estratégias compensatórias contraproducentes: Evitar dormir de dia, salvo pequenas sestas (até 30 minutos); Não ficar na cama acordado por longos períodos (levante-se, leia algo calmo e volte quando sentir sono); Evitar álcool, cafeína e refeições pesadas ao final do dia; Evitar a automedicação com ansiolíticos ou sedativos sem acompanhamento médico. 

VEJA TAMBÉM:

Saúde Mental

Mais Saúde Mental