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O que "Adolescência" nos diz sobre o papel da Escola: "Trouxe à luz problemas com que nos deparamos todos os dias"

19 abr 2025, 18:00
Adolescência, série da televisão da Netflix (no original, Adolescence), com Owen Cooper como Jamie Miller,  Stephen Graham como Eddie Miller e Christine Tremarco como Manda Miller e Erin Doherty como Briony Ariston. Fotos Netflix via CNN Newsource
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Tentando não fazer grande spoiler para quem ainda não viu a série, no segundo episódio da série ‘Adolescência”, dois agentes da polícia visitam a escola frequentada pelo suspeito e ficam surpreendidos com o que viram. E levanta-se a questão: afinal, qual é o papel da escola na educação dos adolescentes?

Gustavo Bastos tem 48 anos dá aulas de Biologia na Escola Secundária Sebastião da Gama, em Setúbal. Tem dois filhos, ainda longe da adolescência, mas trabalha com adolescentes todos os dias. Garante que, salvaguardadas as diferenças culturais, já que a série é britânica, “‘Adolescência’ trouxe à luz problemas com que nos deparamos todos os dias” nas escolas.

“Acho engraçado este fenómeno, parece que toda a gente acordou para os problemas da adolescência. Mas temo que seja daqueles fogachos. E que este mês só se fale da série e dos problemas da adolescência e depois, para o mês que vem, surja outro assunto e os problemas da adolescência voltem a ser esquecidos”, alerta o professor.

Também João Francisco Silva, professor de Português na Escola Secundária Braamcamp Freire, na Pontinha, Lisboa, garante que a série não anda muito longe da realidade: “Nós, professores, estamos mais próximos e vemos isto diariamente”. “Escandalizou-me mais os pais estarem escandalizados com a série do que a própria série. É assustador o desconhecimento desta realidade”, diz.

Gustavo Bastos ainda se lembra do tempo em que era adolescente e vê traços comuns. “A falta de autoestima é um deles. Mas lidávamos interiormente com as nossas fragilidades, ou com um amigo, ou outro. Hoje, os miúdos têm respostas no mundo digital. Respostas falaciosas muitas vezes. E não tenhamos ilusões: nem pais, nem professores, ninguém controla o mundo online. Esqueçam! Os miúdos hoje passam muito tempo online e encontram lá respostas simples para os problemas que estão a sentir. Daí ao discurso do ódio é um passinho”, alerta o professor e Biologia.

Falta de formação dos professores

No segundo episódio da série, a polícia visita a escola onde Jamie, o protagonista, estuda. Os dois agentes, um deles com um filho naquele estabelecimento, ficam chocados com a falta de autoridade dos professores na sala de aula.

E se isso acontecesse em Portugal, haveria razões para o mesmo espanto? “Cá em Portugal também, porque começa a haver lacunas por falta da formação pedagógica dos nossos professores. Infelizmente”, garante João Francisco Silva.

“Muitas vezes é preciso criarmos empatia e conquistarmos os alunos e conquistarmo-los através do respeito. Para que eles nos vejam como pessoas com quem possam desabafar. Na série, vê-se que a profilaxia não existe e só há reações aos acontecimentos”, sublinha o professor de Português.

Também Gustavo Bastos considera que na série da Netflix se “vê a escola e o desrespeito por quem lá trabalha”. “Por cá, não assume as proporções retratadas na série, mas começa a subir. Infelizmente, há professores que não estão a dar aulas, mas a entreter os alunos”, explica.

A relação escola-família

Filinto Lima, diretor escolar e presidente da ANDAEP (Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas) concorda que um professor não pode ser um entertainer e que tudo o que é feito em sala de aula deve ter um propósito e ser debatido com os alunos. E, já agora, devia haver um reforço da autoridade do professor na sala de aula.

“Penso que poderia haver e deveria haver um maior reforço da autoridade dos professores. E, de facto, isso parece-me que está a desvanecer”, reconhece Filinto Lima.

O diretor fala de “uma minoria” de famílias para quem a escola serve de “depósito” para deixar os filhos e que pouco ou nada se importam com o que se passa dos portões para dentro. “Há famílias que muitas vezes culpam as escolas por tudo e por nada e não monitorizam a vida dos filhos. Felizmente, penso que é mesmo uma minoria. Mas eu lembro-me que, antigamente, se chegássemos a casa e fizéssemos queixa do nosso professor, éramos alvo de pelo menos uma repreensão. Hoje, quando um aluno chega a casa e faz queixa do professor, o que é que acontece? O pai está lá no dia seguinte, na escola, a tirar satisfações. Portanto, passámos de um extremo para o outro”, exemplifica.

“Não há muitos anos, a escola era uma instituição muito importante, não era? Era mesmo importante. E os professores e os funcionários eram muito importantes. Hoje também são, mas para alguns pais. Para uma minoria não são, porque não ligam muito à educação dos filhos, não ligam muito à escola. Servem-se da escola como o depósito dos seus filhos. Independente de eles estarem bem, estarem mal, terem aprendizagens ou não, serem bem ou malcomportados”, acrescenta.

Filinto Lima reforça que a relação de compromisso entre escola e família tem de existir: “E essa parceria, essa simbiose entre escola e família, tem de ser reforçada, agora mais do que nunca. É preciso um contacto permanente, ou pelo menos um contacto o mais assíduo possível, entre estas duas instituições, família e escola. E às vezes isto não existe”.

As horas passadas online

Filinto Lima considera que a escola tem um papel fundamental na literacia online, mas sublinha que “os pais também devem monitorizar aquilo que os filhos fazem na sua vida virtual”. “Por exemplo, muitos filhos vão para a cama a horas decentes. Só que estão até a horas indecentes no telemóvel. Alguns pais sabem disto, outros não sabem, outros são enganados. É preciso monitorizar a utilização, no caso concreto, do aparelho que eles tanto amam, que é o telemóvel, também em contexto de casa. E esse compromisso tem de haver, quer da parte dos pais, quer da parte da escola”, exemplifica.

Gustavo Bastos recorda uma situação concreta que se passou recentemente com uma das suas turmas do 11.º ano. Quando lhes falou de um sistema de controlo parental que usava nos aparelhos eletrónicos dos filhos, muitos ficaram “espantados”. “Por curiosidade, fomos ver quantas horas passavam online. Havia alunos que às 08:00 já tinham duas horas de Tik Tok. Ou deitaram-se às 02:00 ou acordaram às 06:00 para estarem no telemóvel. Duvido que os pais saibam disto. Os adolescentes passam muito tempo num mundo virtual, na bolha. Nem nós pais, nem professores temos controlo disso e temos de ter a noção de que não controlamos isso”, alerta.

Gustavo Bastos não quer dar “lições de moral” a ninguém e sublinha que, nestas coisas da parentalidade, “não há culpados”. Mas atreve-se a dar “um conselho antigo e uma receita que costuma funcionar”: “Cultivar a proximidade”.

“É preciso não se esquecer de perguntar como foi o teu dia, como estás… Tendo a noção de que eles nunca nos vão contar tudo. Não esquecer o mundo virtual. Acho que ninguém acredita que a tecnologia nos ia trazer só coisas boas. Parece que temos menos tempo para um contacto direto, olhos nos olhos, mas pelos nossos filhos, temos de conseguir”, deixa o apelo.

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