Você tem um sósia e provavelmente partilha o ADN com ele

CNN , Jen Christensen
4 set, 23:00
Sósias (CNN)

Às vezes, quando o Charlie Chasen ou o Michael Malone saíam sozinhos em Atlanta, as pessoas confundiam-nos um com o outro.

Os amigos de longa data, que vivem em Atlanta, não são parentes. Os seus antepassados nem sequer vêm da mesma parte do mundo. 

A família de Malone veio das Bahamas e da República Dominicana, e a família de Chasen veio da Escócia e da Lituânia. Eles também não são o resultado de um segredo de família profundo e sombrio. No entanto, são muito parecidos. Não é apenas o cabelo castanho, a barba e os óculos, é também a estrutura do nariz, as maçãs do rosto e o formato dos lábios.

Pierre Rondou e Camille Dubé
Karen Chu e Ashlee Wong

"O Michael e eu conhecemo-nos há muito tempo e tem sido tudo uma fonte de muita diversão para nós, porque ao longo dos anos temos sido confundidos um com o outro por todo o lado em Atlanta", disse Chasen a Don Lemon da CNN. "Surgiram situações muito interessantes apenas porque as pessoas pensavam que éramos a outra pessoa."

Os dois são tão parecidos, que até o software de reconhecimento facial teve dificuldade em distingui-los de gémeos idênticos. Mas agora os cientistas pensam que podem explicar o que os faz parecer tão semelhantes e podem explicar porque é que cada um de nós poderá ter um sósia.

As pessoas que são parecidas umas com as outras e não pertencem à mesma família, ainda assim têm semelhanças genéticas, de acordo com um novo estudo.

Entre aqueles que tinham estas semelhanças genéticas, muitos também tinham o peso semelhante, fatores de estilo de vida semelhantes e traços comportamentais semelhantes como o tabagismo e o nível de educação. Isso pode significar que a variação genética está relacionada com a aparência física e também poderá influenciar alguns hábitos e comportamentos.

Há muito tempo que os cientistas se perguntam o que é que cria o sósia de uma pessoa. É a natureza ou a educação? Uma equipa de investigadores em Espanha tentou descobrir. Os seus resultados foram publicados no periódico “Cell Reports”.

O Dr. Manel Esteller, investigador do Instituto de Investigação da Leucemia José Carreras, em Barcelona, Espanha, disse que trabalhou em pesquisas no passado que envolviam gémeos, mas para este projeto, estava interessado em pessoas que são parecidas, mas que não têm qualquer ligação familiar há quase cem anos.

Geneviève Kirouac e Dominique Sévigny
Michael Malone e Charles Hall Chasen

A arte leva à ciência

Ele recorreu à arte para responder a uma pergunta sobre ciência. Ele e os seus coautores recrutaram 32 pessoas com sósias que faziam parte de um projeto fotográfico "Não Sou um Sósia!", feito por um artista canadiano, François Brunelle.

Os investigadores pediram aos pares para fazerem um teste de ADN. Os pares preencheram questionários sobre as suas vidas. Os cientistas colocaram as suas imagens em três programas de reconhecimento facial. Das pessoas que recrutaram, 16 pares tiveram resultados semelhantes a gémeos idênticos, obtidos através do uso do mesmo software.

Os outros 16 pares poderão ter parecido iguais ao olho humano, mas o algoritmo não refletiu isso num dos programas de reconhecimento facial.

Os investigadores analisaram então mais atentamente o ADN dos participantes. Os pares que o software de reconhecimento facial definiu como semelhantes tinham muitos mais genes em comum do que os outros 16 pares.

"Pudemos constatar que estes seres humanos parecidos partilham, na verdade, diversas variantes genéticas. E estas são muito comuns entre eles", disse Esteller. "Por isso partilham estas variantes genéticas que estão relacionadas com o formato do nariz, dos olhos, da boca, dos lábios e até da estrutura óssea. E esta foi a principal conclusão a que se chegou: que a genética é que os une."

São códigos semelhantes, disse ele, mas é meramente por acaso.

"Neste momento, há tantas pessoas no mundo que o sistema está eventualmente a produzir humanos com sequências de ADN semelhantes", disse Esteller. Isto provavelmente sempre foi verdade, mas agora com a Internet, é muito mais fácil encontrá-los.

Beatriz Nogueira e Bruna Soares Da Costa
Joshua Corrigan e Francisco Costela

Outros fatores em jogo

Quando analisaram mais atentamente os pares, determinaram que outros fatores eram diferentes, disse ele.

"Há uma razão pela qual não são completamente idênticos", disse Esteller.

Quando os cientistas analisaram mais em detalhe aquilo a que chamam os epigenomas dos sósias, que eram mais parecidos, havia diferenças maiores.

A epigenética é o estudo de como o ambiente e o comportamento podem causar alterações no funcionamento dos genes de uma pessoa. Quando os cientistas examinaram o microbioma dos pares que eram mais parecidos, também era diferente. O microbioma são os microrganismos - os vírus, bactérias e fungos demasiado pequenos para serem detetados ao olho humano - que vivem no corpo humano.

"Estes resultados não só fornecem informações sobre a genética que determina o nosso rosto, como também podem ter implicações na criação de outras propriedades antropométricas humanas e até características de personalidade", refere o estudo.

O estudo tem limitações. O tamanho da amostra é pequeno, portanto, é difícil dizer que estes resultados se aplicariam a um grupo maior de sósias. Apesar de os investigadores acreditarem que as suas descobertas mudariam num grupo maior. 

O estudo também se focou em pares que eram em grande parte de origem europeia, portanto, não é claro se os resultados seriam iguais para pessoas que vêm de outras partes do planeta.

Karen Gripp, pediatra e geneticista da Nemours Children's Health, cuja pesquisa é referenciada neste trabalho, disse que o estudo é realmente interessante e valida a pesquisa feita antes deste.

Ignacio Contreras e Antonio Carranza
Elisabeth de Freitas e Meira France Desranleau

Aplicação da ciência no mundo real

Gripp usa um software de análise facial no seu trabalho com os pacientes que possam ter condições genéticas, para avaliar as características faciais que poderão ser sugestivas quanto a certos problemas genéticos

"É um pouco diferente do estudo, mas realmente aponta que as mudanças no material genético de uma pessoa afetam as estruturas faciais, e essa é realmente a mesma suposição subjacente que foi usada neste estudo, e que foi, de facto, confirmada, em contraste com outras coisas, como o microbioma, que não pareciam ser tão relevantes," disse Gripp.

No que diz respeito à questão da natureza versus educação que o estudo levanta, Gripp acha que ambos são importantes.

"Como geneticista, acredito firmemente na natureza e que o material genético é muito importante para quase tudo, mas a educação é igualmente importante", disse Gripp. "Para que cada pessoa seja bem-sucedida no mundo, há muitos fatores que contribuem para isso e o ambiente é tão importante que não creio que se possa escolher entre eles.”

Melissa Thorkilsen e Andrea Chalon
André Ravary e Jean Aumais

Um potencial problema

O estudo também salienta que a precisão do software de reconhecimento facial ainda tem limitações. Apesar de várias cidades, preocupadas com as questões de privacidade e de problemas de identificação errada, terem criado leis que proíbem ou restringem a polícia local de usar software de reconhecimento facial, o governo federal e algumas autoridades locais têm vindo a usá-lo com mais frequência.

Uma investigação federal de 2021 descobriu que pelo menos 16 agências federais o usam para acesso digital ou cibersegurança, 6 usam-no para gerar pistas em investigações criminais e outras 10 disseram que planeiam expandir o seu uso.

Também é usado mais habitualmente nos aeroportos. Algumas empresas usam-no para ajudar a tomar decisões de contratação, alguns senhorios instalaram-no para que os inquilinos possam entrar em edifícios e algumas escolas usam-no para fazer a chamada e para monitorizar as movimentações em espaços públicos nos campus universitários.

"Se transferirmos este estudo para o mundo real, isso mostra-nos uma potencial armadilha: que as ferramentas digitais de análise facial podem identificar mal uma pessoa", disse Gripp.

Embora a tecnologia tenha vindo a melhorar, já demonstrou em estudos anteriores ser muito menos precisa na identificação de pessoas de cor, e vários homens negros foram injustamente presos devido ao reconhecimento facial.

"Se pensarmos no software de reconhecimento facial que muitas vezes abre ecrãs de computador e coisas assim, a identificação errada é possível. Por isso, acho que isto também nos ensinou algo muito importante sobre as ferramentas de análise facial", disse Gripp.

Mas o estudo parece sugerir uma conclusão: que pelo menos em termos físicos, podemos não ser assim tão únicos.

"Acho que todos nós neste momento temos alguém que é muito parecido connosco, um sósia", disse Esteller.

Enquanto alguns preferem ser singulares no seu olhar, Malone, que por acaso é amigo do seu sósia, está animado com o facto de não ter uma aparência única. A sua semelhança com o amigo tornou-os mais próximos, e ele acha que se mais pessoas soubessem o quão parecidas são com outras, talvez também pudessem encontrar semelhanças, especialmente neste mundo polarizado.

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