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V de Vitória? Trump e Putin querem mostrar poder, mas as suas fragilidades estão cada vez mais expostas

Sáb, 09 mai 2026
trump exército dança

Na sua mais recente análise à guerra no Irão na CNN Internacional, Stephen Collinson arranca com uma ideia potente: se os conflitos fossem ganhos com retórica, a guerra iniciada por Donald Trump já teria acabado há muito. Só que não são.

Ao final de 70 dias de guerra, a última semana voltou a ser marcada por aparentes avanços e recuos indecifráveis acompanhados de declarações otimistas da parte do presidente norte-americano que em nada refletem ou se aproximam da realidade no terreno. E passaram poucas horas desde a publicação desse artigo para mais um revés inesperado, na forma de novos ataques de parte a parte no Estreito de Ormuz, seguidos da garantia do presidente norte-americano de que o cessar-fogo continua em vigor, até porque tudo não passou de "pancadinhas de amor".

Como escreve Collinson, “Trump está encurralado” - foi "ele próprio" que se colocou neste beco - e isso “ajuda a explicar as suas alegações incessantemente otimistas de progresso nas negociações de paz e a sua tendência para anunciar ou alterar estratégias militares sem aviso prévio”. Os acontecimentos das últimas 48 horas são só mais uma prova disso - e há vários exemplos a precedê-los e a seguir a eles, incluindo um relatório dos serviços de informações dos EUA a dar conta de que o Irão pode resistir ao bloqueio imposto por Trump em Ormuz durante meses.

A semana começou com Marco Rubio, o secretário de Estado de Trump, a mencionar, quase en passant, que a “Operação Fúria Épica”, como a guerra foi batizada pelos EUA, havia terminado. Uma hora depois, a administração anunciou o “Projeto Liberdade” para reabrir o Estreito de Ormuz - para, poucas horas depois, também esse projeto ser dado como concluído, após ter servido para escoltar um punhado de navios do Estreito de Ormuz para um local seguro.

Entre o efémero Projeto Liberdade e os novos ataques e contra-ataques do final da semana, Trump alardeou um memorando de uma página, a ser analisado por Teerão e mediado pelo Paquistão, que acabaria com a guerra e implementaria um prazo de 30 dias para se concluírem as negociações dos pontos de maior atrito entre as partes.

Até ver, mantêm-se as dúvidas quanto ao resultado deste memorando - e quanto ao fim de um conflito que está a saldar-se num preço cada vez mais alto para o governo dos EUA. E com Trump a garantir por várias vezes ao longo da semana que um acordo está para breve, até o seu grande aliado regional, Israel, foi apanhado de surpresa pelo memorando, quando, segundo oficiais, estava preparado para retomar os bombardeamentos ao Irão, enquanto continua com as suas operações no Líbano e em Gaza.

“Flexibilidade e improvisação podem ser pontos fortes num presidente, mas as declarações de Trump, a roçar a negação e a obscuridade, não soam como as de um líder que sabe como sair desta guerra”, escreveu Collinson - uma guerra que, “mesmo antes de terminar, está destinada a ser mais uma lição sobre como países menores e com armamento inferior podem desafiar suportências numa guerra assimétrica”.

Na próxima semana, a guerra que está a testar os limites do poderio norte-americano será o pano de fundo inescapável da viagem oficial de Trump à China, a sua primeira desde 2017 e uma que tinha sido adiada precisamente por causa da guerra iniciada pelos EUA e Israel contra o Irão. E é precisamente por causa dessa guerra que, por mais otimismo que tente transmitir, Trump vai ser recebido pelo grande arquirrival dos EUA sem conseguir projetar a imagem de poder que gostaria.

Fraqueza no lugar de triunfalismo

Rússia comemora Dia da Vitória

“O Dia da Vitória tem servido há muito como um dos pilares simbólicos centrais do Kremlin - uma demonstração de força militar, continuidade histórica e legitimidade do regime”. Mas este 9 de maio vai ser diferente para Moscovo. Com o arrastar da guerra na Ucrânia, que em fevereiro entrou no seu quinto ano, o governo russo reduziu ao máximo as celebrações do feriado mais importante do país, que marca a derrota da Alemanha Nazi pelo exército soviético. E “qualquer redução visível na escala, aumento da postura defensiva ou perturbação normal envia uma mensagem indesejada de que a Rússia é fraca o suficiente para temer a Ucrânia”.

Quem o diz é Elena Davlikanova, uma dos especialistas em assuntos domésticos da Rússia entrevistados pela CNN Portugal na véspera do Dia da Vitória. As conversas tiveram lugar dias antes de um ex-membro sénior do governo russo ter assinado um artigo anónimo na revista Economist a revelar as “fragilidades” que Davlikanova e Oleg Ignatov, do International Crisis Group, destacam à CNN Portugal - sobretudo postas a descoberto pelas crescentes capacidades de longo alcance de Kiev - e que Vladimir Putin está a ter cada vez mais dificuldades em esconder, agora que as elites pró-regime começam a sentir o impacto do conflito.

“A ironia é que Putin iniciou a guerra para preservar o poder e o sistema que criou, [mas] agora, pela primeira vez desde o início do conflito, os russos começam a imaginar um futuro sem ele”, refere o ex-oficial russo no artigo, invocando uma “confluência de quatro fatores” - o crescente custo do conflito, “uma crescente demanda por regras entre as elites que foram forçadas a retornar à Rússia” pelas sanções internacionais, as mudanças no clima geopolítico “que o próprio Putin ajudou a provocar” e um “crescente controlo ideológico sem qualquer dividendo de compensação”.

Perante os receios de Moscovo face ao que classifica de “ameaça terrorista” da Ucrânia, o Kremlin decidiu celebrar o mais importante feriado do calendário russo, este sábado, de forma comedida e sem mobilizar armamento pesado para a sua costumeira parada militar - mobilizando, em vez disso, segundo denunciou Zelensky, os seus sistemas de defesa aérea até agora destacados para o campo de batalha. 

“Há uma real preocupação de Moscovo com o risco de ataques ucranianos, quer durante eventos festivos, quer contra edifícios governamentais no centro da cidade e contra responsáveis políticos”, sublinha Ignatov à CNN - também porque “os dirigentes russos subestimaram a rapidez com que a Ucrânia, com a ajuda europeia, conseguiu aumentar a produção de drones de longo alcance”, acrescenta o especialista. “As capacidades de longo alcance da Rússia ainda superam as da Ucrânia e infligem maiores danos à Ucrânia, mas o facto é que a Rússia começou a sentir as consequências da guerra de forma mais aguda.” 

A Rússia até pode tentar continuar a alimentar uma imagem de poderio e força, mas essa é uma tarefa cada vez mais difícil. E o assumir de um Dia da Vitória em modo comedido, um ano depois de um enorme aparato militar na capital, “reflete um reconhecimento crescente de que as capacidades de ataque de longo alcance da Ucrânia, em expansão, introduziram novas camadas de vulnerabilidade mesmo no coração da Rússia”, ressalta Elena Davlikanova.

“Isso é especialmente importante dado que a narrativa de que Moscovo está a ganhar militarmente continua viva e de boa saúde”, acrescenta a investigadora do CEPA. E é por isso que “o Dia da Vitória de 2026 vai destacar não o triunfalismo russo, mas a fraqueza determinada pelas mudanças bélicas da nova era, enraizada em assimetrias de alta precisão e baixo custo”.

Sondagens para que te quero

A caminho da Casa Branca

Com as atenções focadas no estrangeiro, o processo eleitoral que se antevê nos EUA continua em modo sísmico. Pela terceira vez nos últimos meses, o Supremo Tribunal norte-americano tomou uma decisão que promete impactar a forma como os votos são distribuídos em eleições no país, tornando mais difícil contestar os mapas eleitorais dos estados com base em questões raciais - por exemplo, sob o argumento de que as linhas que dividem os distritos diluem de forma injusta os votos de afroamericanos.

Em poucos dias, uma decisão que a revista Economist classifica como “nefasta para a democracia” - e que, segundo uma análise do Guardian, foi parcialmente baseada em dados errados do Departamento de Justiça de Trump - esteve na base de uma nova distribuição de distritos eleitorais em Memphis, a segunda maior cidade do Tennessee, um estado do sul onde, historicamente, os negros têm tido menos garantias de acesso aos processos democráticos. 

“Isto é uma afronta tanto moral quanto política”, acusou Rachel Campbell, líder do Partido Democrata do Tennessee - “Martin Luther King morreu aqui a lutar pelos direitos civis.” Dois dias depois, na sexta-feira, outra decisão impactante, com o supremo da Virginia a anular os resultados de um referendo levado a cabo no estado há um mês sobre o redistritamento eleitoral, em mais um golpe para os democratas que esperavam obter um mapa mais favorável e assim aumentar o número de assentos na Câmara dos Representantes dos EUA.

No país que viu nascer e morrer MLK, o histórico ativista da luta pelos direitos civis (que, diz o presidente Trump, não conseguiu atrair tanta gente quanto ele à zona do Capitólio no dia do seu mais famoso discurso em 1963), há uma revolução silenciosa em curso. E é uma que ameaça desfavorecer não apenas o atual partido da oposição como a própria democracia, como já escrevia a Economist, num momento em que as tendências do próprio eleitorado estão a mudar.

As mais recentes sondagens sobre a popularidade de Trump mostram que o presidente continua a atingir mínimos históricos de aprovação, sobretudo graças ao impacto da guerra do Irão nos bolsos dos norte-americanos comuns. Mas isso não quer forçosamente dizer que o partido no poder vá sofrer uma derrota nas intercalares de novembro. Os motivos que o explicam são vários, a começar pelo facto de que não será o nome de Trump a constar dos boletins de voto.

Mesmo com o fosso no entusiasmo em relação às próximas eleições que existe neste momento entre eleitores registados como democratas e como republicanos, há um outro fator que ameaça conduzir o partido anti-Trump a resultados menos bons dentro de meio ano. “A questão mais importante daqui até novembro não é se a aprovação de Trump vai cair [ainda mais] ou se os preços da gasolina vão baixar”, considera David Schultz, professor catedrático de ciência política e estudos legais da Universidade de Hamline, no Minnesota. 

Num estudo desenvolvido por Schultz recentemente, sobre o qual a CNN Portugal vai publicar um artigo em breve, o especialista aponta quatro cenários possíveis para as eleições intercalares com base em diversas sondagens e tendências de voto, que neste momento apontam para a possibilidade de os democratas reconquistarem a Câmara dos Representantes mas possivelmente não o Senado.

“Ao contrário das previsões padrão que tratam os democratas como beneficiários passivos do sentimento anti-Trump, o meu modelo incorpora o problema de imagem do Partido Democrata como uma variável quantificável”, diz Schultz à CNN Portugal, sublinhando que “o ‘não a Trump’ tem um limite’. E se esse problema não for resolvido a tempo, será tarde demais para a oposição.