Um plano "tipo máfia" para repartir territórios entre potências e um aviso drástico para os membros da NATO
A nova política externa americana resume-se basicamente a isto: esferas de influência. Não tem a ver com democracias estáveis, mas com esferas de influência. A Rússia pode ter a sua esfera de influência, que inclui o domínio da Ucrânia. A China pode ter a sua esfera de influência, que pode vir a incluir Taiwan. E os Estados Unidos ficam com a América do Sul, a começar com a Venezuela. É como ter famílias da máfia a repartir territórios entre si.
Este é um resumo de uma piada feita por John Stewart no seu Daily Show depois de a administração Trump ter divulgado a sua Estratégia de Segurança Nacional, que ao final de uma semana continua a fazer correr tinta cibernética. Nela, a equipa do presidente poupa críticas à Rússia e é branda com a China, reservando os seus ataques ao continente europeu, que tem líderes “fracos” e está em “declínio civilizacional” porque cada nação perdeu a sua “identidade”.
Na quinta-feira, um desses líderes foi confrontado com as declarações. “Quando se trata de eleições, não cabe a nós decidir quem será o líder do país, mas sim ao povo deste país”, respondeu Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, no encontro organizado pelo Politico. “Essa é a soberania dos eleitores, e ela deve ser protegida. Ninguém mais deve interferir, sem dúvida alguma.” Em tom diplomático, a “transatlântica convicta” voltou a repetir que a UE e os EUA mantêm uma “relação de trabalho muito boa”, garantindo que esse “continua a ser o caso” ainda hoje.
No mesmo dia, Trump adotou um tom bem diferente em referência às contínuas conversações com a Rússia e a Ucrânia para pôr fim à guerra. “Eles [europeus] gostariam que fôssemos a uma reunião no fim de semana na Europa, e tomaremos uma decisão dependendo do que eles nos apresentarem. Não queremos perder tempo. Às vezes temos de deixar as pessoas resolver as suas diferenças por conta própria, outras vezes não.”
Para Trump, deixar russos e ucranianos/europeus resolverem as suas diferenças é garantir que os territórios do leste da Ucrânia ocupados pela Federação Russa passam a fazer parte do território do agressor. Segundo Volodymyr Zelensky após as mais recentes reuniões da sua equipa com os norte-americanos, Trump quer que Kiev retire as suas forças de Donetsk a fim de estabelecer uma “zona económica livre” nas áreas que Moscovo deseja manter sob o seu domínio.
O presidente ucraniano confirmou já ter apresentado aos EUA uma contraproposta de 20 pontos, que passará por levar a referendo qualquer cedência de território à Rússia. Esse será o guião dos encontros que vão ter lugar este fim de semana entre a equipa norte-americana e os europeus, representados pelo presidente francês, Emmanuel Macron, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e o chanceler alemão, Friedrich Merz.
Citado pelo Le Monde, Mykhailo Podolyak, conselheiro de Zelensky, disse que a Ucrânia está disposta a aceitar a criação de uma zona desmilitarizada no Donbass para acabar com a guerra, da qual todas as tropas ucranianas e também russas teriam de se retirar. Esta será, segundo Podolyak e também segundo Merz, o grande tópico a debater na reunião deste fim de semana com os americanos.
Em antecipação de uma reunião que pode ser decisiva, e para evitar que os EUA tentem obter o controlo dos ativos russos congelados no sistema bancário europeu em futuras negociações com Putin, a UE decidiu esta semana imobilizar por tempo indefinido os 210 mil milhões de euros que se pretende que venham a servir para pagar reparações à Ucrânia.
Isto foi feito ao abrigo do artigo 122 dos tratados, uma cláusula de emergência que só requer uma maioria qualificada de votos favoráveis dos Estados-membros e não precisa do aval do Parlamento Europeu. Até agora, e desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, o dinheiro – 185 mil milhões retidos no Euroclear, um depositário central de valores mobiliários em Bruxelas, e 25 mil milhões em bancos privados – estava congelado ao abrigo das sanções a Moscovo, uma medida que precisa de unanimidade da UE a 27, logo vulnerável a vetos de países individuais.
Também em antecipação da reunião – que, como Trump avisou, servirá para os EUA “tomarem uma decisão” e deixarem de “perder tempo” – o secretário-geral da NATO enviou uma nota drástica aos aliados a pedir-lhes que apostem em força nas suas capacidades de defesa. “Nós vamos ser o próximo alvo da Rússia”, avisou Mark Rutte – e a guerra que está por vir “será da mesma escala das guerras que os nossos avós e bisavós suportaram”.
A guerra do presidente da paz
Sob quase todos os padrões, são relatos chocantes aqueles que fontes do Exército norte-americano fizeram esta semana ao New York Times sobre a forma “aleatória e por vezes tensa” como a administração Trump tem gerido os controversos ataques a embarcações nas Caraíbas, alegadamente para combater o narcotráfico, numa operação iniciada há mais de dois meses e ainda sem fim à vista (nem provas que a sustentem).
Esses relatos surgem depois de uma reportagem explosiva do Washington Post a dar conta de que Pete Hegseth, chefe do autoproclamado Departamento da Guerra, deu ordens às forças armadas para "matarem toda a gente" numa embarcação atacada pelos EUA nas Caraíbas a 2 de setembro. Os relatos são quase tão chocantes quanto as imagens que mostram como as forças norte-americanas lançaram mísseis contra os destroços do barco atingido para matar os dois tripulantes que haviam sobrevivido ao primeiro ataque.
As ordens de Hegseth estão já a ser investigadas por dois comités bipartidários do Congresso, ambos liderados por republicanos, para "obter um relato completo da operação em questão". Desde essa operação, indicam oficiais do Pentágono sob anonimato ao NYT, a única diretiva clara em toda esta operação é a de que quem sobrevive deve ser mantido fora dos EUA a todo o custo.
Com a campanha ainda em andamento, contabilizando já 22 ataques e pelo menos 87 mortos, “a mensagem é a de que qualquer sobrevivente resgatado deve ser enviado para o seu país-natal ou para um país terceiro”, adiantam três fontes, com o “objetivo discreto”, mas claro de “garantir que os sobreviventes não acabam no sistema judicial dos EUA, onde os processos poderiam forçar o governo a apresentar provas que justifiquem a campanha militar do presidente Trump na região”.
A administração continua a alegar oficialmente que a operação serve para impedir a entrada de droga nos EUA. Mas se assim é, apontava o Washington Post há alguns dias, porque é que Trump continua a perdoar grandes traficantes? Desde que voltou à Casa Branca em janeiro, mostra uma análise do jornal, o presidente concedeu indultos ou clemência a pelo menos 10 pessoas por crimes relacionados com drogas – entre elas o líder de um gangue de Chicago, o antigo presidente das Honduras Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por ajudar a traficar pelo menos 400 toneladas de cocaína para os EUA, e Ross Ulbricht, fundador da Silk Road, condenado em 2013 por criar aquele que, à data, era o maior mercado negro online de drogas ilegais e outros produtos ilícitos.
“Ao mesmo tempo, ameaçou com ações militares contra a Venezuela sob a acusação de que o governo do país apoia o tráfico de drogas e pressionou o Pentágono a realizar ataques a barcos suspeitos de contrabando de drogas no Caribe”, adianta o jornal. “As ações contrastantes têm sido alvo de críticas de democratas e outros opositores, que afirmam que o amplo uso da clemência por Trump contradiz as promessas de endurecer as leis antidrogas.”
O objetivo final, de acordo com vários artigos citando inúmeras fontes nas últimas semanas, será a deposição de Nicolás Maduro, o presidente venezuelano. No que foi visto como mais um passo nessa direção, os EUA arrestaram um petroleiro venezuelano na quarta-feira - "o maior de sempre", segundo Trump - no que Caracas denunciou como "um ato de pirataria" dos norte-americanos, garantindo que o país nunca será "uma colónia petrolífera".
A administração Trump parece querer tomar a Venezuela de uma forma ou de outra, mas sem repetir “um novo Iraque”, como referia por estes dias a CNN. Para isso, indicam três fontes ao canal, incluindo dois altos cargos da administração, a equipa de Trump tem já um plano A, um plano B e um plano C, contemplando todo o tipo de possibilidades, incluindo a saída de Maduro a bem ou à força.
Os planos preveem que a Venezuela passa a ser governada pelo líder da oposição Edmundo González, declarado vencedor das últimas eleições presidenciais, e María Corina Machado, laureada com o Nobel da Paz deste ano, que já prometeu abrir as reservas de petróleo e gás natural do seu país aos EUA caso Trump consiga retirar Maduro do poder.
Semanas depois de ter dedicado o seu prémio ao presidente americano, Corina Machado não conseguiu chegar a Oslo a tempo de receber o Nobel esta semana. Está longe de ser inédito que os laureados se vejam impedidos de ir até à capital norueguesa para as celebrações. Praticamente inédito, contudo, foi o ambiente vivido na cidade na quarta-feira, com manifestantes concentrados frente à sede do Instituto Nobel sob o slogan ‘Nenhum prémio da Paz para belicistas’.
Numa decisão “difícil, mas necessária”, o Conselho Norueguês da Paz, que normalmente organiza uma procissão com tochas em homenagem ao laureado, cancelou a deste ano, sublinhando que as suas 17 organizações-membros consideram que a premiada não está alinhada com os seus valores.
“Machado não merece o Nobel da Paz”, defendeu Kari Anne Naess, presidente da Associação Norueguesa para a Paz, a mais antiga do país nórdico, fundada em 1885. “O prémio deveria ir para alguém que seja a favor do diálogo pacífico e que una as pessoas.”
Israel dentro, Blair fora
Ao final de dois meses de um cessar-fogo violado dezenas de vezes, Israel anunciou que a Faixa de Gaza tem uma nova fronteira. “A ‘linha amarela’ é uma nova linha de fronteira, que serve como linha defensiva avançada para as nossas comunidades e como linha de atividade operacional”, disse o chefe do Estado Maior das Forças Armadas israelitas, Eyal Zamir, em visita às ruínas das cidades palestinianas de Beit Hanoun e de Jabaliya, no norte do enclave palestiniano.
Ao final de mais de dois anos de guerra, e com a população sobrevivente concentrada numa zona costeira pouco maior do que a área metropolitana de Lisboa, Zamir congratulou-se por Israel ter agora “controlo operacional sobre extensas áreas de Gaza” e por permanecer “nessas linhas de defesa”, de acordo com uma transcrição em inglês fornecida por um porta-voz do exército.
As declarações mereceram a condenação imediata das Nações Unidas, cujo Conselho de Segurança aprovou em novembro a proposta de Donald Trump para acabar com a guerra em Gaza. “A resolução do Conselho de Segurança é muito clara ao não chamar nada de fronteira ou qualquer outra coisa; trata-se de um território que precisa de ser respeitado na sua totalidade”, disse Volker Türk, alto comissário da ONU para os Direitos Humanos. “Apelamos a todas as partes para que respeitem o cessar-fogo e garantam que possamos, de facto, avançar para a próxima fase [do plano de paz]. Gaza continua a ser um lugar de sofrimento, perdas e medo inimagináveis; embora o derramamento de sangue tenha diminuído, não cessou.”
Não só os ataques israelitas a Gaza não cessaram como continuam a alastrar-se à Cisjordânia ocupada, onde esta semana as forças israelitas atacaram uma universidade e também a sede da UNRWA, em Jerusalém Oriental, hasteando a bandeira de Israel no lugar da bandeira da organização – ações que, condenou a agência da ONU para os Refugiados Palestinianos num rotundo comunicado, “criam um precedente perigoso”.
“Desrespeitar deliberada e flagrantemente as obrigações da Carta da ONU e da Convenção sobre Privilégios e Imunidades da ONU mina o direito internacional. Isto deveria servir de alerta”, sublinhou. “O que acontece hoje à UNRWA pode acontecer amanhã a qualquer outra organização internacional ou missão diplomática, em qualquer parte do mundo. O direito internacional tem sido alvo de ataques crescentes há demasiado tempo. Isto tem de acabar.”
A juntar a estes ataques, e segundo um exclusivo do Guardian, Israel tem estado a realizar “ampla vigilância” das forças norte-americanas e seus aliados estacionados na nova base gerida pelos norte-americanos no sul do território israelita ao abrigo do mesmo plano de paz de Trump para Gaza.
“A dimensão da recolha de informações no Centro de Coordenação Civil-Militar (CMCC) levou o comandante americano da base, o tenente-general Patrick Frank, a convocar um homólogo israelita para uma reunião a fim de lhe dizer que ‘as gravações têm que parar aqui’”, noticiou o jornal britânico com base em informações de várias fontes. “Funcionários e visitantes de outros países também manifestaram preocupação com as gravações feitas por Israel dentro do CMCC. Alguns foram aconselhados a evitar compartilhar informações sensíveis devido ao risco de que possam ser recolhidas e exploradas.”
Não sendo certo que tipo de informações foram recolhidas ou como é que Israel pretende explorá-las (alegações que Telavive rejeita categoricamente), certo é que as negociações dos EUA com os países árabes e muçulmanos continuam sem registar grandes avanços. No Fórum de Doha que teve lugar no último fim de semana, Catar e Turquia encabeçaram os pedidos para que os palestinianos não sejam expulsos de Gaza, mas pouco ou nada surgiu desses encontros no que toca ao plano de paz de Trump.
Como aprovado pelo Conselho de Segurança a 17 de novembro, esse plano passa pela criação de um governo transitório na Faixa de Gaza – o chamado “conselho da paz” – que será presidido pelo líder norte-americano e que, como Trump anunciou há alguns meses, ia integrar o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair. Segundo o Financial Times, e após “objeções dos Estados árabes e muçulmanos” sentados à mesa das negociações, esse é, contudo, outro plano que já caiu por terra.