Um aviãozinho militar atirou uma bomba ao ar, a que terra foi parar?
Quando ainda era rival de Donald Trump, na corrida às presidenciais de 2016, o senador Ted Cruz fez um aviso sombrio: “É provável que acordemos uma manhã e Donald, se for presidente, tenha lançado uma bomba nuclear sobre a Dinamarca.” Uma década depois, os media estão a recuperar as declarações daquele que é hoje mais um dos incontáveis republicanos rendidos à doutrina Trump, o homem que está apostado em “fazer a América grande outra vez” por meio de conquistas territoriais sem olhar a meios nem fins.
Se em tempos se julgava que muitas das ameaças de Trump eram só retórica ou uma forma de pressão, o arranque de 2026 provou que tudo pode acontecer às mãos do atual presidente dos Estados Unidos. Depois de bombardear a Venezuela à terceira madrugada do novo ano, sequestrando o presidente Nicolás Maduro e a mulher, Trump lançou-se numa série de avisos e ameaças a outros países, da América Latina ao Médio Oriente – contando-se entre os alvos a Gronelândia, a região autónoma do aliado dinamarquês da NATO, que, continua a prometer o presidente, os EUA irão anexar “de uma forma ou de outra”, por “questões de segurança nacional”.
Os países europeus estão a prestar atenção. Depois de um encontro na Casa Branca entre oficiais da administração Trump e governantes da Gronelândia e da Dinamarca ter resultado em pouco – a criação de um grupo de trabalho para debater “opções” que apaziguem Trump – várias nações europeias anunciaram o envio de tropas para a maior ilha do mundo, em plena região disputada do Ártico.
“Os aliados europeus mostraram claramente que farão o que puderem para proteger a Dinamarca – até porque, se não o fizerem, quem será o próximo?”, questiona o especialista em geopolítica Klaus Dodds, numa entrevista à CNN Portugal. Mas a questão, adianta o coautor de um livro sobre “a luta pelo futuro do Ártico”, é que “é difícil imaginar Trump a recuar nesta fase”. E tudo pode acontecer.
No rescaldo da intervenção na Venezuela, um pequeno grupo de republicanos dissidentes aliou-se aos democratas para fazer aprovar uma resolução para limitar os poderes do presidente naquele e noutros países. Mas esta semana, em mais um sinal de que nada nem ninguém vai parar Trump, JD Vance, seu vice-presidente, usou o seu voto de desempate para enterrar esse projeto-lei no Senado.
Sem travões, a administração Trump já firmou o seu primeiro contrato para a exploração de petróleo na Venezuela – segundo o Financial Times, com um dos maiores dadores de campanha do presidente – e, de olho na cadeira do poder, a opositora de Maduro, María Corina Machado, foi a Washington oferecer a sua medalha do Nobel a Trump. Pouco importam os avisos dos especialistas sobre as enormes dificuldades de exploração do crude venezuelano, da mesma forma que de nada parece importar o facto de os recursos naturais críticos que Trump tem debaixo de olho na Gronelândia serem de exploração difícil e dispendiosa.
Este é o mundo do poder à força, liderado por Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping – os demais só vivem nele. Talvez por isso, e na tentativa de se precaver de uma potencial invasão chinesa, Taiwan acedeu esta semana a assinar um acordo de comércio com a administração norte-americana com a indústria dos semicondutores ao centro.
As ações de Trump na Venezuela, como as que podem estar por vir na Gronelândia, abrem um precedente perigoso – e o Ártico pode ser o próximo palco deste perigoso jogo expansionista (onde, apesar de tudo, Von der Leyen quer manter a cooperação com os EUA). "Se Trump ficar com a Gronelândia", avisa Klaus Dodds, "há o risco de Putin avançar sobre Svalbard" assim que consiga fechar um acordo para ficar com o leste da Ucrânia para si.
Travão made in Golfo
O Ártico está longe de ser a única região onde Trump quer exercer maior influência. Mas no Médio Oriente as coisas jogam-se de maneira diferente do que na Europa ou na América Latina. Com o número de manifestantes iranianos mortos às mãos do regime de Teerão a ascender aos milhares, o presidente norte-americano continua a namorar a hipótese de intervenção sob o argumento de salvar civis. Mas segundo fontes citadas pela AFP, esta semana deixou-se convencer pelos aliados do Golfo a ficar quieto.
Num aparente sinal do abrandamento das tensões, Trump disse na quarta-feira que os EUA vão agora adotar uma postura de “esperar para ver”, após a alegada intervenção da Arábia Saudita, do Catar e de Omã no sentido de dar uma oportunidade aos aiatolas. “Eles disseram que as mortes cessaram e que não vai haver execuções [de manifestantes detidos]”, disse aos jornalistas na Sala Oval – questionado sobre se possíveis ações militares dos EUA estão agora fora de questão, respondeu: “Vamos esperar para ver como será o processo.”
“Embora vários países árabes do Golfo não nutram grande simpatia pelo Irão”, escreve o New York Times, “temem que as consequências do aumento das tensões possam voltar-se contra eles”. A água na fervura de um Irão repressor castigado por anos de sanções económicas surgiu a par do anúncio de que já arrancou a segunda fase do acordo que a administração Trump negociou para acabar com a guerra na Faixa de Gaza.
Desde 10 de outubro, quando o cessar-fogo entrou oficialmente em vigor, Israel terá violado a trégua mais de 1.250 vezes com uma média de cinco palestinianos mortos por dia, num total de mais de 450 – incluindo mais de 100 crianças, de acordo com a UNICEF. Isso não impediu o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, de declarar o arranque da segunda fase prevista no acordo de 20 pontos de Trump, que vai concentrar-se na “desmilitarização, governança tecnocrática e reconstrução” do enclave.
Tal como o acordo-base tem vários detalhes por esclarecer, também há questões importantes sem resposta quanto à implementação desta segunda fase, nomeadamente, como aponta a CNN, “como lidar com algumas das questões mais difíceis estipuladas” no acordo. “Os EUA esperam que o Hamas cumpra integralmente as suas obrigações, incluindo a devolução imediata do último refém falecido”, escreveu Witkoff no X. “O não cumprimento terá consequências graves”, adiantou.
Um diplomata árabe adiantou ao Times of Israel que o chamado Comité Nacional para a Administração da Faixa de Gaza (NCAG), composto por 15 tecnocratas palestinianos e liderado pelo ex-vice-ministro da Autoridade Palestiniana, Ali Shaath, tiveram a sua primeira reunião na quinta-feira, no Cairo – fazendo uma ligação por Facetime com os conselheiros Witkoff e Jared Kushner. Também presente esteve Nikolay Mladenov, responsável por supervisionar o trabalho do comité em nome do Conselho de Paz liderado por Trump.
A alegada reunião não foi confirmada publicamente pela administração norte-americana. “O comité tecnocrático é apenas um grupo de 15 pessoas; eles precisam de funcionários públicos, mas, neste momento, Israel está a bloquear tanto aqueles que estão na folha de pagamentos do Hamas quanto aqueles que estão na folha de pagamento da Autoridade Palestina”, disse o diplomata árabe. “O mesmo se aplica à polícia. Se Israel não quer aqueles que estão ligados à Autoridade Palestiniana, o que resta são aqueles que são pagos pelo Hamas” – o grupo armado que israelitas e norte-americanos querem ver dissolvido.
Ao que os Estados Unidos chegaram
A deriva expansionista de Trump tem dominado as manchetes além-fronteiras, mas dentro de portas o foco é outro. Uma semana depois de uma cidadã ter sido assassinada por um agente do ICE em Minneapolis, um dos maiores campos de batalha da agência federal de controlo da imigração – e após a administração Trump ter defendido o abate da “terrorista doméstica” –, a retórica de guerra subiu de tom.
A meio da semana, perante protestos em massa contra as ações dos quase 3 mil agentes do ICE destacados para o Minnesota que patrulham as ruas armados e de caras tapadas, o presidente sugeriu que pode vir a destacar o exército para o estado de tendência democrata.
“Se os políticos corruptos do Minnesota não obedecerem à lei e não impedirem os agitadores profissionais e insurretos de atacarem os patriotas do ICE, que estão apenas a tentar fazer o seu trabalho, irei instituir a LEI DA INSURREIÇÃO”, escreveu Trump nas redes sociais. A ameaça tem-lhe valido comparações com autocratas e ditadores, como Vladimir Putin.
“Na Rússia, há toda uma série de forças, incluindo a OMON, a Guarda Nacional e o serviço de proteção do presidente”, destaca Fiona Hill, que integrou o Conselho de Segurança Nacional de Trump no seu primeiro mandato. “Trump está claramente à procura de forças que possa mobilizar a nível federal e que não tenham os mesmos freios e contrapesos que a Guarda Nacional e as forças armadas.”
Há quem considere que o que está a acontecer no Minnesota é a prova de que os EUA já resvalaram para o fascismo – caso de Jason Stanley, professor universitário estudioso de regimes fascistas que se mudou para o Canadá após as presidenciais de 2024. “Trump criou a sua própria força policial. Parece estar a organizar uma milícia subordinada apenas a ele, com um orçamento enorme, que lembra a ‘sturmabteilung’ da Alemanha dos anos 1930. Eles parecem não ter qualquer tipo de responsabilidade legal.”
Esse é o mesmo ponto que Erwin Chemerinsky e Burt Neuborne, dois especialistas em Direito, destacaram esta semana num artigo de opinião no New York Times no qual pedem alterações à leis para proteção dos cidadãos. “Se Renee Good tivesse sido morta por um agente da polícia estatal ou local, em vez de um agente do ICE, a sua família poderia processar o atirador por uso excessivo de força e violação dos seus direitos. Mas não existe nenhuma lei que permita que agentes federais sejam processados por violações constitucionais. O Congresso deveria aprovar legislação há muito esperada para corrigir essa anomalia.”
O uso excessivo de força pelo ICE não se limita às ruas do Minnesota – como apontava o Washington Post numa investigação exclusiva esta semana, de que “o médico legista acredita que a morte de um homem sob custódia do ICE foi homicídio”, em referência ao caso de Geraldo Lunas Campos, sufocado até à morte por guardas de um centro de detenção da agência federal de imigração no Texas. E este pode não ser caso único.
O amontoar de denúncias e acusações à administração Trump encontra eco até entre ex-apoiantes do presidente, como Joe Rogan, que no seu podcast acusou o governo federal de ter no ICE a sua própria Gestapo. “Não devemos ter grupos militarizados de pessoas a vaguear pelas ruas, a aparecer com máscaras e a prender pessoas”, referiu Rogan na terça-feira, destacando que muitas das pessoas detidas pelo ICE parecem ser cidadãos americanos e não imigrantes clandestinos. “Será que vamos mesmo ser a Gestapo? É a isso que chegámos?”
Este é agora o país onde há cidadãos a alistarem-se no exército para protegerem os seus pais indocumentados (como noticia o New York Times), onde a porta-voz do presidente acusa jornalistas de serem “ativistas de esquerda” por colocarem questões incómodas (como aconteceu na Casa Branca esta semana) e onde o FBI faz rusgas às casas de repórteres que criticam Trump (como aconteceu com uma jornalista do Washington Post de Jeff Bezos).
No meio de tudo isto, e depois de brincar com a hipótese de um terceiro mandato presidencial proibido pela Constituição, Trump sugeriu esta semana que o melhor seria cancelar as eleições intercalares de novembro. Sim, Joe Rogan – foi a isto que os EUA chegaram.
Quem está a ganhar a guerra?
"As autoridades e os serviços estão a fazer o que podem, e as pessoas compreendem isso. Ninguém aqui os está a culpar. Todos os dias sentimos mais ódio e raiva contra a Rússia. Isso não fará com que ninguém se renda", desabafa aos jornalistas Andriy Tartyshnikov, um cinematógrafo ucraniano, de 33 anos, que vive numa das áreas mais nobres de Kiev, que não escapou aos apagões generalizados que os bombardeamentos russos causaram no país.
A situação é crítica. Na maior parte da cidade, não há luz, nem há aquecimento. E com as temperaturas a oscilar entre os -2.º e os -10.º, as temperaturas atingem facilmente os três graus Celsius no interior da maior parte das casas. Só em Kiev, mais de seis mil prédios estão sem aquecimento. Ao longo destes quase quatro anos de guerra, nunca a população ucraniana atravessou um inverno assim.
As autoridades descrevem a estratégia russa como a "transformação do inverno numa arma" contra a população ucraniana. Com mais de 70% da capital às escuras, o presidente ucraniano viu-se obrigado a declarar o estado de emergência e a criar uma task force para responder diretamente à crise energética, causada por um novo tipo de drone a jato, que atinge velocidades de 500 km/h.
Tudo isto acontece numa semana que testemunhou mudanças profundas no governo ucraniano, ainda muito abalado pelo escândalo de corrupção que afastou os ministros da Justiça e da Energia. O presidente Volodymyr Zelensky decidiu passar o ministro da Defesa Denys Shmyhal para a cada vez mais importante pasta da Energia e passar o jovem ministro da Transformação Digital, Mykhailo Fedorov, para a pasta da Defesa, com o objetivo de conduzir uma profunda reestruturação e modernização das Forças Armadas.
Esta tarefa seria sempre complexa e cheia de problemas, mas o estado de guerra total torna-a ainda mais complicada. No seu primeiro discurso enquanto ministro da Defesa, Fedorov garantiu que se vai focar no principal problema do exército ucraniano, a falta de militares, sublinhando que é impossível combater com novas tecnologias, "mantendo velhas estruturas organizacionais".
“O nosso objetivo é mudar o sistema, levar a cabo reformas no exército, melhorar as infraestruturas na frente, erradicar as mentiras e a corrupção, incutir liderança e uma nova cultura de confiança", afirmou, revelando que existem 200 mil desertores e dois milhões de ucranianos que fugiram à mobilização.
Esta mensagem parece estar em sintonia com o general chefe das Forças Armadas ucranianas, Oleksandr Syrskyi, que garantiu num discurso que os violentos confrontos de 2025 não travaram a reforma das forças armadas. O líder militar revelou que as capacidades dos drones foram amplamente expandidas, mas que a prioridade continua a ser a reestruturação do exército no sistema de Corpos e a criação de um ramo ciber e um de forças de assalto.
A sintonia entre a estratégia militar e a perceção pública ucraniana parece manter-se sólida. Dados recolhidos pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KIIS) em meados de janeiro mostram que a maioria dos ucranianos (77%) avalia a situação na frente de combate com um otimismo cauteloso e veem os avanços russos como lentos e custosos, confiando na capacidade da Ucrânia para continuar a lutar.
No entanto, quando o tema muda da "guerra" para a "paz", a confiança desmorona. Segundo o KIIS, 69% dos inquiridos não acreditam que as negociações em curso tragam uma paz definitiva e mais de metade (57%) teme um novo ataque russo mesmo num cenário de conflito congelado. Estes números ajudam a explicar por que razão, apesar do frio e da crise energética, a população continua a alinhar mais com a retórica de resistência do governo do que com promessas de tréguas incertas. — João Guerreiro Rodrigues