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Um atentado falhado, uma visita real, uma humilhação - e uma guerra a arrastar-se

Sáb, 02 mai 2026
Esboço judicial de Cole Tomas Allen em tribunal a 27 de abril de 2026 (Dana Verkouteren para a CNN)

Donald Trump podia ter sido um astronauta. É o que o presidente dos EUA acha, como  o próprio declarou na quarta-feira ao receber na Casa Branca os quatro astronautas da NASA que acabaram de regressar à Terra de uma histórica viagem à Lua. “Para entrar lá [no Espaço], é preciso ser muito inteligente e ter um bom desempenho físico, por isso não teria tido qualquer dificuldade em consegui-lo, fisicamente sou muito, muito bom.”

As declarações surgiram já depois da antecipada visita do rei Carlos III de Inglaterra aos EUA, onde se tornou o primeiro monarca britânico a discursar no Capitólio em 35 anos, um discurso que os media leram como uma "refutação subtil" a Trump. "Por detrás das piadas e do decoro do rei Carlos, algumas respostas subtis a Trump", titulou o Washington Post; "Rei Carlos apela a controlos sobre o poder executivo", foi a opção do New York Times.

Após receber os astronautas, em mais um frenesim nas redes sociais madrugada adentro, Trump fez uma publicação bizarra com uma imagem de si próprio gerada por Inteligência Artificial acompanhada de uma mensagem sinistra: “A tempestade aproxima-se. Nada pode impedir o que está para vir.” Na semana em que os preços dos combustíveis nos EUA atingiram o preço mais alto dos últimos quatro anos graças à guerra de Trump no Irão, um internauta respondeu em tom jocoso: “O que está para vir é gasolina a 6 dólares e mais inflação.”

É incerto que tempestade se aproxima na visão de Trump. Falava da retaliação ao Irão por não ceder às exigências de “rendição total e incondicional”? Ou falava do futuro que aguarda Cole Thomas Allen, o homem de 31 anos que, no início da semana, viajou da Califórnia até Washington DC para tentar matar o presidente? Talvez nunca venhamos a saber. 

O que sabemos é que Allen se instalou num hotel da capital um dia antes do jantar de correspondentes da Casa Branca e que, na noite de 25 de abril, tirou uma selfie carregado de armas antes de se dirigir ao local do evento, o Washington Hilton; aí, disparou a sua arma na direção do salão de baile, falhou o alvo e acabou detido após agentes dos serviços secretos abrirem fogo (um dos quais disparou cinco tiros e falhou todos). 

Os procuradores dizem que Allen programou o envio automático de um email a explicar as suas intenções para chegar às caixas de correio eletrónico de familiares, amigos e de um antigo empregador às 20:30 do próprio dia, quando supostamente já teria conseguido alvejar o presidente.

Já o presidente – que, até este ano, nunca tinha participado no jantar da associação de correspondentes enquanto chefe de Estado – aproveitou a ocorrência para defender o seu almejado salão de baile na Casa Branca, o mesmo cuja construção tinha acabado de ser suspensa por um tribunal.

O presidente dos EUA, Donald Trump, dá as boas-vindas ao rei Carlos III do Reino Unido durante uma cerimónia de chegada de Estado no Relvado Sul da Casa Branca, em Washington, DC, EUA, a 28 de abril de 2026. O casal real britânico encontra-se numa visita de Estado de quatro dias aos EUA para assinalar o 250.º aniversário da Declaração de Independência. EPA/YURI GRIPAS / POOL

“Precisamos do salão de baile, é por isso que os Serviços Secretos, é por isso que os militares o exigem”, disse Trump pouco depois do atentado falhado. “Há 150 anos que querem o salão de baile por muitas razões diferentes, mas hoje é um pouco diferente, porque hoje precisamos de níveis de segurança que provavelmente nunca ninguém viu antes.” E esse salão de baile, exigem agora muitos republicanos, deve ser pago pelos contribuintes.

O pedido não deverá cair bem junto de uma larga faixa do eleitorado que tem sido castigada pelos aumentos dos preços por causa da guerra de Trump no Irão. Uma nova sondagem da Reuters, divulgada depois do tiroteio no Hilton, mostra que a popularidade do presidente continua em queda livre, inclusive entre os grupos de eleitores que tendencialmente o apoiam em maior número, como os homens brancos.

Esse inquérito de opinião, resume a Newsweek, “revela um enfraquecimento raro e significativo no seio da coligação que, historicamente, tem apoiado Trump nas crises políticas” – ainda que, em tendência oposta, outra sondagem aponte um aumento da popularidade de Trump entre eleitores suburbanos, sendo que é nos subúrbios que  vão ter lugar algumas das corridas mais concorridas à Câmara dos Representantes.

Mesmo assim, o grosso das sondagens continuam a antever enormes perdas para os republicanos nas eleições de novembro, pelo menos para já. “A pouco mais de seis meses das intercalares, os republicanos, cada vez mais ansiosos, enfrentam um clima político ameaçador que os líderes do partido temem que possa resultar numa derrota esmagadora no outono caso a situação não melhore”, escrevia o New York Times no final da semana.

“Em privado, os estrategas políticos republicanos trocam sinónimos com ar sombrio para descrever o ambiente cada vez mais negro: amargo, feio, mau, desolador”, adianta o jornal. Mas “observam que muita coisa pode mudar até novembro” e mantêm “a esperança de que os dias da gasolina a 4 dólares e da guerra no Irão tenham passado antes das eleições”. Mas será que terão passado até lá?

Entretanto, a prioridade de Trump parece ser outra: pôr a sua cara numa edição comemorativa dos passaportes norte-americanos pelo 250.º aniversário da fundação do país. Segundo o especialista Patrick Bixby, o passo "não tem nenhum precedente, nem mesmo em regimes autoritários - como a Rússia estalinista ou a China maoísta", mas é só mais um num rol de estampas da casa e nome do chefe de Estado numa panóplia de objetos e edifícios, desde moedas ao Centro Kennedy.

Um "cardápio de desculpas" a esgotar-se

O presidente dos EUA, Donald Trump, acompanhado pelo diretor da CIA, John Ratcliffe (centro-esquerda), pelo secretário da Defesa, Pete Hegseth (segundo a contar da direita), e pelo chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine (à direita), discursa durante uma conferência de imprensa na Casa Branca (Andrew Harnik/Getty Images)

Os EUA tornaram-se os maus da fita? É possível que esta pergunta esteja a pulular muitas cabeças, mas recentemente foi Thomas G. Moukawsher, um juiz norte-americano reformado, que a colocou sem papas na língua, num artigo de opinião dedicado às ações “selváticas” desta segunda administração Trump. “Enquanto agimos de forma desenfreada e sem lei por todo o mundo, devemos parar para refletir: será que nos tornámos os vilões? Está a parecer que sim. Basta pensar no tipo de coisas que o presidente Donald Trump tem dito em relação à sua guerra no Irão.”

Mas voltemos mais atrás. Com a decisão de invadir a Venezuela e capturar o seu líder, Nicolás Maduro, no terceiro dia deste ano, Trump declarou: “Não preciso do direito internacional”. Desde então, passou os quatro meses seguintes a provar que, precisando ou não do direito internacional, o homem que mais almeja ser laureado com o Nobel da Paz está-se a borrifar para ele (e para a paz). A guerra no Irão é só mais um exemplo – um exemplo de excelência – disso mesmo.

Como destaca Moukawsher, “o ataque ao Irão não teve qualquer fundamento jurídico ou moral”, tendo por base “mentiras sobre o perigo representado pelo Irão”. E desde que essa guerra foi iniciada por Trump e Israel há dois meses, “as mentiras continuam a surgir numa espécie de ‘cardápio de dim sum’ de desculpas para esta incursão inexplicável”. Entretanto, “Trump ameaçou fazer o Irão regressar à Idade da Pedra e destruir permanentemente a sua civilização e as infraestruturas civis de que as mulheres e as crianças do país precisam para sobreviver”.

Retórica à parte, a guerra já matou mais de 3.800 pessoas, incluindo centenas de crianças. Mas para a administração Trump, que (até) a Alemanha de Merz já acusou de “não ter uma estratégia” para acabar com o conflito e de estar a ser “humilhada” pelo regime iraniano, é só mais um sucesso na cartilha da lei do mais forte. Pete Hegseth, o autoproclamado secretário “da Guerra”, disse-o melhor do que ninguém: os EUA estão a vencer “de forma decisiva, arrasadora e sem piedade”.

Donald Trump Pete Hegseth

Só que não. Não estão. Ao final de dois meses, por mais que a guerra possa ter causado profundos danos à economia e ao aparato militar do Irão, o fim parece mais longínquo do que nunca – e os EUA não estão imunes aos resultados desastrosos do conflito, que vão para lá do aumento dos preços dos combustíveis. 

Esta semana, em mais um sinal de fissuras dentro da administração, a revista The Atlantic citou duas fontes da administração sobre como o vice-presidente, JD Vance, “tem questionado repetidamente, em reuniões à porta fechada, a descrição que o Departamento da Defesa faz da guerra no Irão”, questionando “se o Pentágono terá subestimado o que parece ser uma redução drástica dos arsenais de mísseis dos EUA”.

Dias depois, na quarta-feira, Hegseth teve a sua primeira audiência no Congresso para prestar esclarecimentos sobre a guerra – um evento “controverso”, nas palavras do NYT, em que o chefe do departamento de Defesa criticou legisladores dos dois partidos por questionarem as decisões da administração quanto a um conflito que, segundo cálculos do Pentágono, já custou 25 mil milhões de dólares e as vidas de 14 soldados norte-americanos. Estimativas apontam que a guerra poderá vir a custar mais do dobro.

Hegseth pode clamar uma vitória “decisiva, arrasadora e sem piedade” e Trump pode dizer nas redes sociais que o Irão “assumiu que está em colapso” – mas já poucos acreditam nisso. Com a postura de vai-ou-racha, o presidente colocou-se a si próprio entre a espada e a parede, num cenário em que só tem a perder, e em que continua a parecer improvável que Teerão ceda à exigência de “rendição incondicional”. E isto são más notícias também, ou sobretudo, para uma Europa em hemorragia financeira que, em apenas 60 dias, gastou 27 mil milhões de euros adicionais em combustível – e cuja enorme enxaqueca à custa desta guerra pode vir a descambar num aneurisma.

Esta sexta-feira marcava o prazo definido na Resolução de Poderes de Guerra para a administração Trump pôr fim ao conflito no Irão ou solicitar a aprovação do Congresso para lhe dar continuidade. Mas segundo a Casa Branca, o cessar-fogo já "pôs fim" à guerra. Entretanto, em modo retaliatório, o presidente norte-americano planeia retirar tropas de Alemanha, Itália e Espanha e renovou ataques aos media por questionarem se a guerra chegou mesmo ao fim - a CNN é "estúpida", o NYT está a fazer uma cobertura "sediciosa" e a guerra para onde vai?