Trump, o encantador de mercados, ligou para o Kremlin - Costa não gostou. Entretanto: a Turquia entra em ação
Há precisamente uma semana, cerca de 48 horas depois do ataque dos EUA e de Israel ao Irão, traçámos o pior dos cenários para Portugal e, sobretudo, para o bolso dos consumidores nacionais: primeiro os combustíveis, depois a inflação e, por fim, a prestação da casa. O preço dos combustíveis escalou em apenas uma semana para valores máximos desde que Vladimir Putin deu luz verde à "operação especial militar" na Ucrânia - o gasóleo aumentou mais de 20 cêntimos de uma só vez. E as corretoras já começam a antecipar os inevitáveis aumentos das taxas de juro do Banco Central Europeia (leia AQUI). Até ver, este pior dos cenários vai atingir-nos mais cedo ou mais tarde e parece que, neste momento, a única dúvida é qual vai ser a dimensão do tsunami económico.
Ainda assim, num golpe de mágica, Trump parece ter-se transformado numa espécie de encantador de mercados: tocou a flauta e, depois de uma semana de sucessivos aumentos, o preço do barril de Brent caiu (pode ler AQUI). Num ato que dificilmente pode ser entendido como inocente ou desprovido de pensamento prévio, o presidente dos EUA disse à CBS News que "acha que guerra está praticamente terminada". Nos momentos prévios às declarações não houve nenhuma alteração de maior no terreno - pelo menos que tenha sido tornada pública -, mas Trump garante que o conflito estará prestes a cessar, justificando que o Irão "não tem Marinha, não têm comunicações, não tem força aérea; os mísseis estão dispersos; os drones estão a ser destruídos por todo o lado": "Se repararem, não têm mais nada", comentou o presidente dos EUA (veja AQUI).
"Não sobrou nada", repetiu Trump e, volvida mais uma madrugada, os mercados abriram com o preço do barril de Brent em queda. Uma inesperada surpresa porque, na segunda-feira, o petróleo ultrapassou os 100 dólares por barril, o valor mais alto desde 2022, mas, esta terça, pelas 7:15, o barril de Brent recuou 6,3%, para 92,68 dólares, isto apesar de o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz continuar condicionado, de o Irão não ter levantado a bandeira branca e de EUA e Israel manterem os ataques diários. Trump que, garantiu não ter "nenhuma mensagem" para o novo líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, parece ter transmitido uma mensagem muito clara aos mercados na única língua que sabem ouvir: o risco e a incerteza. Isto porque, da mesma maneira que o preço do crude subiu destemidamente após o primeiro ataque ao Irão, assim que o Estreito de Ormuz voltar a reabrir a 100% a tendência deverá ser a mesma mas no sentido inverso - e quem tiver comprado petróleo nesses últimos instantes antes do volte-face vai perder dinheiro.
Esta terça-feira, o Pentágono atualizou o número de baixas norte-americanas no Irão. Desde o início dos ataques, há mais de uma semana, as forças dos EUA viram sete dos seus militares morrer em combate. Há ainda registo de 140 feridos de nacionalidade norte-americana, oito deles em estado considerado grave (pode ler AQUI). O Pentágono aproveita para esclarecer que "a vasta maioria tem sofrido ferimentos menores" e que, deste 140 soldados, 108 já regressaram ao terreno.
Enquanto observador externo a tudo isto, António Costa alertou para um novo facto que parece ser difícil de contrariar: "Só há um vencedor nesta guerra no Irão, a Rússia" (veja o vídeo AQUI). O presidente do Conselho Europeu agoura que, enquanto o Irão é bombardeado e Israel pondera uma invasão com boots on the ground e os EUA mantêm a pressão nos céus iranianos, o preço da energia vai aumentando e a atenção dada á guerra na Ucrânia vai-se desvanecendo.
Pode argumentar-se que Pequim também está entre os vencedores do novo normal no Irão, mas Costa tem um fator que lhe dá especial razão: desde janeiro, a Rússia tinha passado a produzir menos 600 mil barris de petróleo por dia porque estava a ficar sem espaço de armazenamento e tinha 150 milhões barris encalhados em alto mar depois do corte nas importações indianas (pode ler AQUI). Na semana passada, face à subida do preço do petróleo, Washington deu autorização à Índia para comprar este mesmo petróleo que estava à deriva. E, na noite de segunda-feira, após uma conversa telefónica com Putin, Trump anunciou que vai "levantar algumas sanções relacionadas com o petróleo para baixar os preços" e assim será "até que a situação melhore". "Depois disso, quem sabe? Talvez não precisemos de repor as sanções. Haverá muita paz", disse Trump, dando sustentação clara à teoria de António Costa.
No meio de todos estes acontecimentos político-económicos, esta terça-feira houve uma movimentação militar que pode ter passado despercebida a quem não acompanhe o ao minuto da CNN Portugal a tempo inteiro por ter de trabalhar, comer, dormir ou algo assim: depois de a NATO ter intercetado mísseis disparados pelo Irão, a Turquia instalou sistemas Patriots (defesa antiaérea) no centro do país. O Estado com o maior exército, em número de homens, da Europa aproveitou esta manobra (leia AQUI) para alertar para o que parece ser uma verdade mais universal a cada dia que passa: "A diplomacia" deixou "de ser suficiente".
Antes das despedidas, relembrar que lançámos um podcast sobre o ataque ao Irão, é diário, curto, prático, explica e contextualiza, antecipa e analisa - procure por Fúria Épica na sua plataforma de podcasts preferida (em Spotify está AQUI, por exemplo, e no site da CNN AQUI - mas está disponível em Apple Podcasts e etc.). Bom dia e boa sorte.
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