O que (não) podemos esperar de Trump, Putin e Xi
Havia a expectativa de que Donald Trump abordasse a compra de petróleo russo pela China no seu encontro desta semana com Xi Jinping. Mas finda a reunião entre os presidentes dos Estados Unidos e da China, o mundo ficou a saber que essa forma de pressão sobre Moscovo para acabar com a guerra na Ucrânia e as ameaças à Europa nem sequer foi abordada.
"Essa reunião confirmou algo importante para nós, europeus", considera Markus Iven, analista to Hague Centre for Strategic Studies, em entrevista à CNN Portugal -- "o que vemos agora é que, quando os interesses americanos estão em jogo, os interesses europeus nem sequer são discutidos. E isso é algo que nos deve preocupar."
Que os EUA de Trump já não estão focados nos aliados da NATO não é uma novidade. Mas as mais recentes movimentações de um lado e de outro do Atlântico sinalizam, ressalta Iven, algo ainda mais importante - e mais duradouro.
"Muito provavelmente, o governo dos Estados Unidos no futuro, independentemente de vir a ser democrata ou republicano, não mudará a sua política básica em relação à China. Portanto, para todos aqueles que pensam que isto vai mudar e que o próximo governo norte-americano irá essencialmente dar prioridade à NATO novamente, eu diria que isso é muito improvável."
No contexto da China enquanto único país capaz de alterar a ordem global frente aos EUA, também é importante prestar atenção à estratégia da Rússia, que continua a lançar ataques híbridos contra a Europa na esperança de que isso desvie as atenções da Ucrânia.
Como explica Iven na mesma entrevista, "os ataques híbridos são geralmente a estratégia do lado mais fraco, faz parte numa guerra convencional, [em que] o lado mais fraco usa isso para pressionar o lado mais forte".
A verdadeira razão pela qual a Rússia está cada vez mais envolvida na escalada de ataques híbridos, e vemos isso sobretudo com as incursões de drones na Polónia, é que os russos querem desviar a nossa atenção da guerra na Ucrânia - e isso é muito lógico".
Com essa lógica em vista, a grande questão em aberto no curto prazo é se Trump vai mesmo avançar com sanções às duas maiores petrolíferas russas. Dado que a Europa tem conseguido desvincular-se energeticamente de Moscovo desde 2022, as prometidas sanções à Rosneft e à Lukoil, que juntas representam mais de 5% do fornecimento mundial de petróleo, "são agora uma das melhores medidas que vimos em muito tempo" para pressionar o Kremlin, defende Iven.
A questão é que, até ver, não há indicações concretas de que os dois grandes consumidores desse petróleo - China e Índia - vão procurar crude noutros lugares. E dado que a prometida cimeira entre Trump e Putin em Budapeste terá sido retirada do cardápio, como noticiado na sexta-feira pelo Financial Times, há razões para duvidar do real empenho de Trump em ser o "presidente da paz" também para a Ucrânia.
O cessar-fogo que não foi
A cimeira da paz de 13 de outubro em Sharm al-Sheikh, no Egito — onde Trump reuniu mais de 30 líderes mundiais, incluindo o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, e (por alguma razão) até o internacional de futebol Gianni Infantino — alcançou, durante cerca de duas horas, um aparente acordo geral sobre um plano de paz de 20 pontos para a Faixa de Gaza.
Quase de imediato, Israel pausou a maioria dos seus ataques ao enclave palestiniano para permitir a troca dos derradeiros prisioneiros mantidos pelo Hamas, vivos e mortos, por prisioneiros palestinianos. As tropas israelitas retiraram-se para a chamada linha amarela, que agora divide a faixa em dois, entre o território ocupado por Israel e aquele onde a população poderia começar a procurar mortos e retirar escombros após mais de dois anos de guerra.
Naquele 13 de outubro, foram inúmeros os analistas a falar com otimismo sobre o futuro de Gaza e do Médio Oriente. Mas quase três semanas depois, "é agora hora de defender o contrário", escrevia esta semana Graeme Wood, na revista The Atlantic. Para Wood, "muitas partes comprometeram-se a apoiar o plano, mas ninguém sabe como implementá-lo". Para outros analistas, o cessar-fogo que alegadamente continua em vigor já não existe.
Após a BBC revelar que Israel não estava a respeitar a linha amarela definida no acordo, e após renovados ataques israelitas ao longo das semanas a seguir à cimeira a zonas da Faixa de Gaza declaradas locais seguros, a meio desta semana Benjamin Netanyahu ordenou "poderosos ataques" ao enclave pelo que considerou serem violações cometidas pelo Hamas.
A ordem chegou à hora em que o primeiro-ministro israelita era esperado num tribunal de Jerusalém para mais uma audiência judicial relacionada com os casos de corrupção que enfrenta. Logo a seguir, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, veio a público garantir que o cessar-fogo se mantém, "ainda que possa haver escaramuças aqui e ali".
Pelo meio, o Washington Post noticiou em exclusivo a existência de um relatório confidencial dos EUA que "revela centenas de possíveis violações de direitos humanos por parte de Israel" em Gaza. Com uma ressalva: "o supervisor do Departamento de Estado afirma que levará anos para analisar a credibilidade das alegações sobre unidades militares israelitas em Gaza, o que levanta dúvidas sobre a futura responsabilização".
(Em Israel, veio também a público um vídeo em que se veem soldados israelitas a violar um prisioneiro palestiniano, o que já motivou a abertura de um inquérito interno do exército hebraico não aos suspeitos da violação mas aos que publicaram o vídeo, num país onde se amontoam acusações de violações de direitos humanos de palestinianos de Gaza e da Cisjordânia ocupada mantidos em prisões israelitas.)
"Quando é que um cessar-fogo deixa de ser um cessar-fogo?", questionava no final da semana a BBC, no rescaldo dos ataques ordenados por Netanyahu, que provocaram mais de 100 mortos. A resposta, pelo menos no que toca à Faixa de Gaza, é óbvia: depende de quem pergunta - e de quem responde.
A horas da guerra?
À hora de fecho desta newsletter, a Newsweek noticiava, com base em imagens de satélite, que após vários ataques a embarcações no Mar do Caribe, com um saldo superior a 40 mortos, os EUA podem estar a horas de distância de dar início a uma antecipada guerra contra a Venezuela.
Com as imagens a confirmarem a mobilização dos navios USS Iwo Jima e USS Gravely, "agora posicionados a uma distância que lhes permite atacar a Venezuela", o sinal está enviado: a mando de Trump, Washington está disposto a "intensificar as operações contra o que classifica de 'redes de narcotráfico apoiadas pelo Estado'" liderado por Nicolás Maduro. A grande questão é se, e quando, vai fazê-lo.
Para Elliott Abrams, uma das principais figuras da primeira administração Trump na ofensiva para tirar Maduro do poder, que foi nomeado como enviado especial à Venezuela dias depois de Trump ter reconhecido o então líder da oposição, Juan Gaidó, como presidente interino do país, o líder norte-americano não tem realmente intenções de atacar o território venezuelano.
"É tudo uma espécie de operação psicológica cujo propósito é dizer às pessoas ao redor de Maduro, aos militares e aos civis do regime: 'Ele tem que ir, mas vocês não precisam ir; façam algo, salvem-se'", diz Abrams numa entrevista à BBC Mundo. "A frota no Caribe não é grande o suficiente para invadir a Venezuela, e não acredito que Trump tenha qualquer intenção de fazer isso, mas é muito maior do que o necessário para disparar contra pequenas lanchas rápidas fora da água. Vejo isto como uma espécie de pressão sobre o regime, e acredito que o próximo passo provavelmente será algum tipo de ataque dentro da Venezuela."
A entrevista aconteceu dias antes do posicionamento dos dois navios de guerra americanos perto da costa venezuelana. E para já ninguém arrisca antecipar o que poderá acontecer, embora o que quer que seja possa estar para acontecer em breve. Há poucos dias, questionado sobre os ataques a embarcações ligadas à Venezuela, Trump disse aos jornalistas: "Acho que vamos só matar pessoas que estão a trazer drogas para o nosso país, ok? Sabem, eles vão estar, tipo, mortos."
Sem apresentar provas de que os barcos atingidos estavam, de facto, a transportar droga, ou que essa droga se destine ao mercado negro dos EUA, a administração Trump tem, por vezes, feito referência aos tripulantes dessas embarcações como "narcoterroristas", novamente sem contextualizar porque é que são classificados como tal.
Face à notícia recente avançada pelo New York Times de que a administração Trump autorizou a CIA a executar "ataques letais" dentro da Venezuela, o grosso dos analistas tem questionado não apenas a legalidade, mas também a estratégia por trás destas ações, referindo, por exemplo, que se a questão é o combate ao narcotráfico que atinge diretamente os EUA, a Colômbia seria o óbvio alvo.
E, portanto, o que reina por agora são mais perguntas do que respostas. Como ressalta Jeffrey Fields, professor de Práticas em Relações Internacionais na University of Southern California: "Se Trump e os seus conselheiros, como Rubio e o secretário da Defesa Pete Hegseth, forem levados à letra nas suas declarações dispersas sobre as atividades em torno da Venezuela, muitas questões permanecem, como por que razão os barcos estão a ser destruídos e os seus ocupantes mortos, em vez de serem intercetados."