Os olhos da guerra no Irão começam a virar-se para "a ilha proibida"
Jornalista japonês na Casa Branca: “Porque é que não informaram os aliados dos EUA na Europa e na Ásia, como o Japão, sobre a guerra antes de atacar o Irão?”
Donald Trump (ao lado da primeira-ministra do Japão): “Uma coisa que não se quer deixar muito claro, sabe, quando entramos… nós entrámos com tudo e não contámos a ninguém porque queríamos surpresa. Quem sabe mais de surpresas do que o Japão? Porque é que não nos disseram de Pearl Harbor?”
Quem está a ganhar a guerra no Irão? As respostas variam consoante o interlocutor, mas há um dado mais ou menos adquirido: para clamar vitória, o regime do Irão só tem de manter o estreito de Ormuz fechado e conseguir sobreviver até ao cair da última bomba. Já do lado dos Estados Unidos e de Israel, a vitória precisa de outras roupagens – e não é líquido que vá chegar, pelo menos não no imediato. Como apontava a revista Economist no final da semana, “há muito espaço para a guerra com o Irão se intensificar – mas não há uma maneira óbvia de lhe pôr fim”.
Ao final da terceira semana de guerra, ainda sem se perceber se os objetivos dos EUA e de Israel estão alinhados, enquanto os preços do petróleo e do gás continuam a subir, as atenções viraram-se para uma minúscula ilha do Golfo Pérsico a 25 quilómetros da costa do Irão e 483 quilómetros do Estreito de Ormuz – o estreito por onde passa 20% do petróleo mundial e cujo encerramento impacta 60% da economia mundial.
Conhecida entre os iranianos como a “Ilha Proibida” devido ao forte controlo militar a que está sujeita, Kharg sustenta 90% das exportações de petróleo do Irão e é vital não só para sustentar a economia de Teerão como os preços mundiais do crude, cuja subida já levou o preço do litro de gasóleo a subir 40 cêntimos em menos de um mês, o equivalente a mais 20 euros para atestar um depósito de 50 litros
Kharg esteve sob ataque dos EUA e Israel na última semana, levando o Irão a avisar que, se as infraestruturas petrolíferas da ilha forem atingidas, iria responder com ataques retaliatórios a instalações petrolíferas de aliados dos EUA na região. O aviso coincidiu com um ataque de Israel ao campo de gás de South Pars, que o Irão partilha com o Catar, marcando uma nova e importante escalada no conflito – e o primeiro ataque israelo-americano direcionado à produção iraniana de combustíveis fósseis desde o início desta guerra.
Num sinal de divergências entre Washington e Telavive, Trump demarcou-se dos israelitas, sublinhando na Truth Social que “os EUA não sabiam nada sobre este ataque específico” e que “o Catar não esteve, de forma alguma, envolvido nele, nem tinha ideia de que iria acontecer”. O presidente norte-americano também garantiu que “ISRAEL NÃO VOLTARÁ A ATACAR” o maior campo de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, com reservas de gás para alimentar o mundo inteiro durante 13 anos, a menos que o Irão ataque infraestruturas energéticas cataris – aí, prometeu, “os EUA, com ou sem a ajuda ou consentimento de Israel, irão fazer explodir a totalidade de South Pars com uma força e potência nunca antes vistas ou testemunhadas pelo Irão”.
Nem um dia depois, em mais um sinal de divergências, Tulsi Gabbard, chefe das secretas norte-americanas, declarou no Congresso que “os objetivos definidos pelo presidente [Trump] são diferentes dos objetivos definidos pelo governo israelita” – uns, os EUA, querem destruir as capacidades militares, balísticas e nucleares do Irão; os outros, os israelitas, continuam empenhados em forçar uma mudança de regime, enquanto bombardeiam o Líbano, avançam com a ocupação ilegal da Cisjordânia e mantêm a Faixa de Gaza estrangulada (e, no processo, perdem o apoio da Alemanha no Tribunal Internacional de Justiça).
Numa semana marcada por negas dos aliados da NATO, cada vez mais avessos a apoiar esta guerra, que terminou com a Suíça a suspender todas as exportações de armas para os EUA, a retórica volátil do líder norte-americano ficou à vista de todos, em todo o seu esplendor. No espaço de dias, Trump alegou que os EUA já ganharam a guerra, que estão atualmente a ganhar a guerra, que precisam de ajuda para ganhar a guerra e que não precisam de ajuda nenhuma para ganhar a guerra – sem avançar pormenores sobre o programa nuclear que quer destruir, mas que já tinha “obliterado” em junho.
A partir de Israel, e perante rumores de que teria sido morto num ataque iraniano, Benjamin Netanyahu surgiu ao lado do embaixador norte-americano com uma lista de alvos iranianos a abater, muitos dos quais foram entretanto assassinados, incluindo Ali Larijani, tido como o mais provável interlocutor de negociações de paz vindouras com os EUA.
Havia quem acreditasse que esta Operação Fúria Épica seria rápida. Mas as movimentações mais recentes sugerem que a guerra pode estar só no início – e que esta fúria, mais do que épica, é cega, deixando aliados às escuras, sem objetivos definidos, sem olhar aos impactos regionais e mundiais, sem uma estratégia delineada. Como referiram vários media nas últimas semanas, Trump está a descobrir porque é que nenhum presidente antes dele atacou o Irão – e isso pode torná-lo ainda mais perigoso.
Com os ataques de parte a parte a infraestruturas energéticas, inaugura-se uma nova fase do conflito, que em última instância poderá passar pelos EUA colocarem tropas no terreno – ou pior. Citando quatro fontes com conhecimento da matéria, a Reuters noticiou na quinta-feira que “a administração americana está a considerar o envio de milhares de soldados para reforçar as suas operações no Médio Oriente” e que há vários planos em cima da mesa.
Um passa por garantir a passagem segura de petroleiros pelo Estreito de Ormuz – uma missão que seria sustentada por forças aéreas e navais mas que, segundo as fontes, pode obrigar ao envio de tropas americanas para o litoral iraniano; a outra passa por enviar forças terrestres para a ilha de Kharg – uma operação que, segundo um dos funcionários citados, seria muito arriscada, já que o Irão tem capacidades para atingir a ilha com mísseis e drones.
Seja qual for o plano, é improvável que Trump atire a toalha ao chão e decida retirar-se do conflito, mesmo que os prognósticos não sejam os melhores e mesmo que, como aponta o MNE de Omã num artigo de opinião, tenha "perdido o controlo da sua política externa". Esta semana, num sinal de que a guerra está longe de terminar e após os EUA terem torrado cerca de 11 mil milhões de dólares só nos primeiros sete dias do conflito, o secretário de Defesa pediu ao Congresso que desbloqueie mais 200 mil milhões de dólares.
Entretanto, António Guterres, secretário-geral da ONU, alertou que os dois lados podem estar a cometer crimes de guerra com os ataques à cadeia energética, e a Organização Mundial de Saúde (OMS) disse estar “vigilante” face à possibilidade de um incidente nuclear, com a diretora regional para o Mediterrâneo a invocar a possibilidade como “o pior cenário possível” – “é isso que mais nos preocupa, [porque] por mais que nos preparemos, nada pode impedir os danos que virão para a região e globalmente; se isso de facto acontecer, as consequências durarão décadas”.
Mesmo que se evite o pior cenário, a maioria antevê que esta guerra terá impacto no Médio Oriente e no resto do mundo por anos vindouros. Ao 60 Minutos, Bob McNally, ex-conselheiro de Energia da Casa Branca, antevê que as coisas vão ficar piores antes de melhorar, no contexto daquilo que, “factualmente, é a maior disrupção energética da História”. E questionado sobre uma potencial recessão mundial, McNally responde: “A economia mundial simplesmente não pode crescer sem 20% da sua cadeia de abastecimento energético, ponto final. Só podemos esperar e rezar para que isto não se prolongue por demasiado tempo.”
Uma clássica guerra diversionista - e outra no horizonte
"Quanto mais tempo durar a guerra com o Irão, pior isso poderá ser para Trump – basta olhar para a História.” Assim declarava um artigo da NPR publicado na quinta-feira, dia em que os ataques e contra-ataques a infraestruturas energéticas se intensificaram no Médio Oriente (e em que um poderoso investidor norte-americano levantou a hipótese de esta guerra marcar o fim do imperialismo dos EUA tal como a crise do canal do Suez em 1956 marcou a derradeira humilhação do império britânico).
No artigo, a rádio pública norte-americana invoca inquéritos de opinião sobre anteriores administrações norte-americanas em tempos de guerra, mostrando como “ações militares mal sucedidas muitas vezes colocaram presidentes em risco e, politicamente, tiveram efeitos negativos irreversíveis sobre eles”. Se isto é verdade em qualquer ano, mais é em ano de eleições intercalares.
Não sendo certo quais foram as motivações de Trump para dar início a esta guerra com o Irão, é certo que o eleitorado norte-americano está entregue às suas próprias congeminações – e que muitas das coisas que mais assombravam o presidente norte-americano antes do início da operação militar foram relegadas para segunda ou terceiro plano desde o início do mês.
Uma sondagem recente para a Reuters mostra que cerca de 65% dos americanos acredita que Trump vai pôr tropas no terreno no Irão e que apenas 7% da população apoia essa ideia. Outra, do Institute for Middle East Understanding, mostra que 56% dos eleitores acredita que esta guerra beneficia mais Israel do que os Estados Unidos. Uma terceira, conduzida apenas entre eleitores republicanos, deixa a descoberto uma enorme divisão: aqueles que se identificam como MAGA, o movimento nacionalista de extrema-direita na base do apoio a Trump, apoiam muito mais a guerra do que os republicanos não-MAGA.
A união MAGA em torno do seu líder pode estar a aguentar-se, mas o mesmo inquérito de opinião mostra que pode ser sol de pouca dura, sobretudo à medida que a guerra se intensifica e que mais soldados norte-americanos morrem ou ficam feridos. E as cisões internas entre os republicanos, e entre MAGA e não MAGA, continuam a vir à tona em tempo real, incluindo na órbita do presidente – veja-se a demissão abrupta de Joe Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo (agora sob investigação do FBI), que renunciou ao cargo em oposição ao que diz ser uma “guerra fabricada por Israel” que vai contra tudo o que Trump prometeu na campanha.
Kent é o mais alto funcionário da administração a atirar a toalha ao chão por causa do conflito com o Irão, mas está longe de ser o único MAGA (ex-MAGA?) a fazê-lo, com outras vozes importantes a intensificaram as críticas ao presidente – desde o apresentador Tucker Carlson à ex-deputada Marjorie Taylor Greene, passando pelo podcaster Joe Rogan. Estes são os mesmos ex-aliados de Trump que passaram os últimos meses a tecer críticas ao governo pela sua gestão do caso Jeffrey Epstein, à luz do qual os democratas já intimaram a sua procuradora-geral a prestar depoimento no Congresso.
Com muitos, dentro e fora do Partido Republicano, a olharem para o conflito com o Irão como uma tentativa de Trump sequestrar a narrativa para abafar escândalos internos, não é demais ressaltar que as buscas cibernéticas por “Jeffrey Epstein” caíram 95% desde o início da guerra – nem demais será especular que a crescente retórica de Trump sobre tomar Cuba pode indiciar a sua próxima deriva diversionista.
Antes de ordenar os primeiros ataques a Teerão, a administração norte-americana estava sob crescente pressão pelos seus ataques aos direitos civis de cidadãos em Minneapolis, pelo renovado escrutínio dos ficheiros Epstein e pela sentença do Supremo, poucos dias antes, de que a sua guerra tarifária mundial é ilegal. Quando a situação no Irão ficar indefensável e for praticamente impossível clamar vitória, a estrangulada Havana será o próximo alvo?
O último travão da Hungria?
O segredo mais mal escondido de Trump é que, após ter feito campanha sob o slogan “América Primeiro”, as suas grandes aspirações políticas são mais globais do que nacionais – daí as guerras e “operações militares” que já lançou, da Venezuela ao Irão, daí também as suas aspirações expansionistas com ameaças (postas de lado, pelo menos por agora) de tomar o Canadá e a Gronelândia.
Não é por isso de estranhar que, enquanto serve de mediador entre a Ucrânia e a Rússia no contexto de uma guerra que acaba de entrar no seu quinto ano consecutivo, Trump tenha decidido amainar as sanções ao petróleo russo para tentar colmatar o impacto económico da sua guerra em curso no Médio Oriente.
De visita ao Reino Unido esta semana, Volodymyr Zelensky não deixou escapar a oportunidade de criticar isso mesmo, num discurso sobre como a tecnologia tornou a guerra mais barata, acabando com o poderio bélico exclusivo de líderes ricos como Vladimir Putin. “E mesmo ele continua a receber dinheiro agora que as sanções ao seu petróleo foram suspensas”, disse o presidente ucraniano diante de uma plateia que incluía Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico. “Agradeço ao Reino Unido por não estar a fazer isso – muito obrigado.”
A laracha não mereceu reação de um Trump ocupado com outras coisas, mas vale a pena sublinhar como, não há muito tempo, o presidente norte-americano continuava a atacar Zelensky enquanto estendia a mão a Putin no contexto das “negociações de paz” que os EUA estão a mediar. Trump tem, por exemplo, mentido repetidamente sobre os custos de apoiar Kiev diante da agressão russa – segundo o presidente norte-americano, já ascenderam a 300 mil milhões de dólares, quando o número real é de cerca de 50 mil milhões em três anos, ou seja, cerca de metade do que os EUA gastaram em apenas uma semana de guerra contra o Irão.
Com a guerra na Ucrânia ainda em curso e sem fim à vista, o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, tem estado a negociar acordos comerciais entre os EUA e a Rússia, mesmo sem ter fechado qualquer acordo de trégua ou cessar-fogo. Como o primeiro-ministro da Polónia já tinha sumarizado em novembro, sobre o plano de 28 pontos da administração Trump para acabar com a guerra na Ucrânia: “Sabemos que isto não tem a ver com a paz. Tem a ver com negócios.”
Enquanto um lado negoceia de olho posto nos lucros, o outro continua desesperadamente a tentar assegurar a sua proteção para lá dessas transações. No início da semana, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, assumiu que a UE tem de se preparar para potenciais negociações diretas com Putin no futuro dado que Trump pode, a qualquer momento, abandonar a mesa. Dias depois, a UE a 27 voltou a falhar um acordo para desbloquear mais fundos para Kiev, perante o que o chanceler alemão classificou como “um flagrante ato de deslealdade” da parte da Hungria.
Em dezembro, o primeiro-ministro Viktor Orbán tinha aceitado votar a favor do empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, mas chegada a hora de votar bloqueou-o. A questão, no imediato, é se os destinos da UE – e, por conseguinte, de Kiev – estarão prestes a mudar com a mudança de governo na Hungria, que vai ter legislativas dentro de um mês. Enquanto isso não acontece, a presidente da Comissão Europeia tenta manter o otimismo vivo. “Deixem-me reiterar aquilo que já tinha dito em Kiev”, declarou Ursula Von der Leyen aos jornalistas após a votação. “Vamos consegui-lo de uma forma ou de outra.”