O segredo mal guardado de Putin que o leva a sentar-se à mesa com Trump
Parece mesmo que vai acontecer: Donald Trump e Vladimir Putin vão reunir-se nos próximos dias para discutir a guerra na Ucrânia, na esperança de chegarem a um acordo para que o conflito chegue ao fim. Os detalhes ainda estão a ser definidos, mas o presidente americano já terá falado com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, acerca da possibilidade de o encontro ter lugar em Roma, já na próxima semana. Ausente do encontro deverá estar o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. Fontes oficiais americanas indicam que Trump inicialmente propôs uma reunião trilateral, mas o Kremlin descartou a participação de Zelensky, alegando que as condições para tal encontro não estão reunidas.
A reunião parece estar prestes a ser o palco de um confronto peculiar. Donald Trump parece confiante de que o peso da sua personalidade e força dos Estados Unidos da América serão suficientes para chegar a acordo com o presidente russo, apesar de Moscovo estar a avançar no terreno e a reiterar as suas exigências maximalistas. Do outro lado, Vladimir Putin parece ter voltado a dar ao mundo uma lição geopolítica acerca de como ganhar tempo em negociações, tal como o Kremlin tem conseguido durante todas as discussões de paz que tiveram lugar desde que a nova administração americana subiu ao poder. Ainda assim, há cinco cenários em cima da mesa.
Para os especialistas, o encontro poderá mostrar um experiente Vladimir Putin a levar a melhor perante um Donald Trump demasiado impaciente e sem vontade de aumentar a pressão sob o Kremlin. "O que Putin quer é que Trump pressione Zelensky a assinar alguma versão do que os russos ofereceram em Istambul, que seria uma... digamos, 'paz sem honra'", explica Sergey Radchenko, professor do Henry Kissinger Center for Global Affairs, na rede social X. Se Donald Trump cair na armadilha, "Putin terá alcançado os seus objetivos".
E os sinais parecem apontar para isso. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, afirmou na sexta-feira que existiam "certos sinais" de que o conflito poderá estar prestes a ficar "congelado". Uma notícia da Bloomberg que cita oficiais americanos garante que os dois lados estão a tentar chegar a um acordo antes do encontro que permita à Rússia manter todo o território ocupado durante a invasão. No entanto, como o secretário de Estado americano referiu: a Ucrânia terá sempre uma palavra a dizer sobre o assunto.
A súbita mudança de posição russa em aceitar o encontro surge apenas dois dias antes do fim do prazo estabelecido por Trump para que Putin coloque um fim à guerra ou enfrente ainda mais pressão económica. Não seria inédito que o presidente americano voltasse a adiar o prazo para o cessar-fogo, inicialmente previsto para duas semanas. Quando esse limite foi ultrapassado, Trump voltou a dar duas semanas, que se transformaram em 50 dias, acabando por ser encurtados para dez depois de bombardeamentos russos que mataram dezenas de civis ucranianos.
Mas, mais uma vez, o prazo foi atingido e o Kremlin conseguiu esquivar-se de qualquer repercussão das ameaças de Trump. Pelo contrário, o presidente norte-americano deu a entender que os dois lados iriam ter de ceder territórios, com a imprensa norte-americana a avançar pouco depois que Vladimir Putin exige que a Ucrânia retire as suas tropas da região de Donetsk para aceitar um cessar-fogo. Só que mais do que um acordo, a Rússia pretende evitar mais choques financeiros, como aquele que a Casa Branca gerou ao anunciar a aplicação de uma tarifa adicional de 25% à Índia, que entrará em vigor no final deste mês como punição pela importação de petróleo russo.
Quem está a ganhar a guerra?
E a Ucrânia está a pressionar ainda mais a economia com ataques cirúrgicos às refinarias russas. Os drones de longo alcance das forças armadas ucranianas têm feito danos significativos nas últimas duas semanas, atingindo algumas das maiores instalações industriais do país, travando durante vários meses a produção de combustível no país, levando a um aumento do preço da gasolina. Estima-se que os ataques ucranianos reduziram a capacidade de produção de produtos petrolíferos em 40 mil toneladas por dia.
A situação intensificou-se de tal forma que no dia 1 de agosto a Rússia travou a exportação de gasolina para países que não pertencem à Comunidade de Estados Independentes, uma organização que junta várias das antigas repúblicas soviéticas. Vários políticos russos estão a acusar publicamente várias gasolineiras de estarem a aumentar o preço da gasolina para colher lucros, acusando-as de serem responsáveis por aumentar a inflação no país que reduz o poder de compra dos cidadãos russos.
Segundo o jornal Kommersant, o Ministério da Agricultura e da Indústria e o Ministério do Comércio estão a criar legislação para regular o preço dos vegetais, laticínios e os preços de aves. A publicação diz que a legislação, que está a ser discutida com os produtores de alimentos, vai entrar em efeito no dia 1 de março de 2026. A proposta fará com que os produtos alimentares sejam vendidos em contratos de longo prazo com preços fixos, estabelecidos pelo governo.
Com várias empresas e indústrias russas com problemas financeiros, esmagadas pelos 18% de taxa de juro definidos pelo Banco Central russo, a introdução de medidas para regular o preço dos alimentos no país é um sinal de que a economia russa não está nos seus melhores dias, apesar das tentativas do Kremlin de projetar uma imagem de que todas as sanções e medidas retaliatórias não estão a surtir qualquer efeito. A realidade parece ser bem diferente e pode justificar as intenções do Kremlin que levaram Putin a aceitar encontrar-se pessoalmente com Trump, na esperança de travar as sanções.
Mas a Ucrânia continua a sentir dificuldades na linha da frente. A ofensiva russa de verão está a exercer pressão em todos os pontos da frente em simultâneo, dificultando a vida aos defensores, que não podem retirar unidades de um ponto da frente para reforçar as áreas mais sensíveis. A Rússia continua a tentar cercar a cidade de Pokrovsk a todo o custo e o abastecimento da cidade já se tornou quase impossível, com os drones russos a atingir tudo o que mexe. Mais a norte, continuam os esforços russos para conquistar a cidade de Kostiantynivka, uma das últimas cidades de grandes dimensões no caminho das tropas russas, na região de Donetsk.
Mas longe da frente, a mais de três mil quilómetros de distância, a CNN Portugal descobriu um grupo de ucranianos que encontrou uma forma de fazer a diferença. Num edifício discreto nos arredores da capital, um grupo de voluntários ucranianos e portugueses reúne-se para uma missão especial. Numa sala convertida em oficina, sob regras rígidas de segurança e um véu de secretismo, vão construir drones FPV destinados à linha da frente na Ucrânia, para as unidades que mais precisam. Mas, apesar da distância da frente, o perigo está à espreita porque os russos já tentaram sabotar o projeto.
"Vai depender de Israel"
É um dos maiores aliados de Israel na Europa e acaba de suspender a exportação de material militar que possa ser usado pelas forças israelitas na ofensiva contra a Faixa de Gaza. A decisão foi anunciada sexta-feira pelo chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, nem um dia depois de o Governo Netanyahu ter confirmado que vai avançar com a ocupação total da Faixa de Gaza.
A reocupação do território palestiniano passará por uma operação terrestre para tomar a Cidade de Gaza e retirar os civis para “campos” noutras zonas da faixa e foi decidida dias depois de um exclusivo do Financial Times ter revelado mais detalhes sobre como funcionários do Boston Consulting Group (BCG) “modelaram a deslocação dos palestinianos para a Somália e a Somalilândia”.
O objetivo último de expulsar toda a população do enclave não é uma novidade: há um mês soube-se dos milhões que o BCG tem estado a receber para delinear cenários de deslocação de toda a população do enclave para outros países, como pretendido pelo executivo Netanyahu. Já esta semana, o Canal 13 israelita revelou transcrições de um conselho de ministros que mostram como matar os palestinianos à fome foi uma decisão deliberada – uma crise humanitária criada artificialmente para “derrotar o Hamas” com impacto óbvio também nos reféns que o Hamas mantém presos em túneis, como comprovado por vídeos divulgados há alguns dias.
“Até agora, tenho tentado desviar-me e defender-me quando me desafiam a chamar genocídio a isto”, escreve Jeremy Ben-Ami, líder da J. Street, uma organização sionista liberal dos EUA. “No entanto, os argumentos jurídicos e académicos persuadiram-me racionalmente de que os tribunais internacionais irão considerar um dia que Israel violou a convenção internacional sobre genocídio.”
Sob crescente pressão, incluindo de 58 ex-enviados da UE que há dias pediram à Comissão Europeia que avance com sanções a Israel, o governo Netanyahu tem permitido a entrada “controlada” de mercadorias em Gaza – mas apenas de menos de metade dos camiões necessários por dia para assegurar as necessidades básicas urgentes da população local. A que entra, segundo um relatório dos Médicos Sem Fronteiras esta semana, (não) é distribuída pela GHF em zonas de distribuição de ajuda que o grupo apoiado pelos EUA e Israel transformou em “locais de matança orquestrada e de desumanização”.
E se dúvidas houvesse sobre a falácia da “única democracia do Médio Oriente”, esta foi também a semana em que, pela primeira vez na história de Israel, um governo decidiu despedir uma procuradora-geral – no caso Gali Baharav-Miara, responsável máxima pelo processo judicial que Netanyahu enfrenta desde 2020 por suspeitas de corrupção.
Com a prisão no horizonte, o primeiro-ministro israelita continua disposto a tudo para se manter imune e escapar às suas responsabilidades, e isso é verdade dentro e fora do país, como o prova um artigo de fundo publicado pelo Le Monde três dias antes de ter conseguido que o seu gabinete votasse de forma unânime pelo despedimento de Baharav-Miara.
O jornal francês revela as “interferências, ameaças e sanções” concertadas entre Israel e os seus aliados, com os EUA à cabeça, desde a primavera de 2024, para tentar “encerrar as investigações sobre os crimes cometidos em territórios palestinianos” – à luz dos quais o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu, no ano passado, mandados de captura contra Netanyahu e Yoav Gallant, à data seu ministro da Defesa (a par de mandados semelhantes contra líderes do Hamas pelos ataques de 7 de outubro).
Contudo, e apesar da condenação mais ou menos consensual à expansão das operações militares em Gaza, a administração Trump está focada noutras coisas. No início da semana chegou a anunciar que ia retirar fundos de resposta a catástrofes naturais aos estados norte-americanos que apoiem boicotes a Israel – mas acabou por rapidamente voltar atrás. Dias depois, um jornalista perguntou ao presidente se “apoiaria a reocupação de toda a Faixa de Gaza por Israel, como foi sugerido por alguns funcionários israelitas”. Na resposta, Trump disse que a sua preocupação imediata é alimentar a população de Gaza. “Quanto ao resto”, acrescentou, “não posso dizer – isso vai depender muito de Israel”.
A banalização do fascismo e a extrema-direita como sintoma e não causa
Populismo, autoritarismo, fascismo são conceitos que orientam a grande entrevista desta semana conduzida pelo jornalista Enrique Pinto-Coelho com o historiador e politólogo Steven Forti. Sobre o último deles, por exemplo, o investigador italiano destaca como “foi banalizado nos últimos 80 anos”, servindo para “definir tudo o que era visto como de direita, conservador ou autoritário”, e o resultado está à vista –“se tudo é fascismo, no fim nada é fascismo”.
Num momento em que o mundo ocidental se depara com um novo tipo de autocracias – “autocracias eleitorais, regimes autoritários distintos dos que houve no passado, que tentam manter uma aparência de democraticidade” –, Forti alinha com as críticas à social-democracia pela sua “ultradireitização” e aparente aproximação à extrema-direita nalgumas ideias – incluindo em Portugal, onde Luís Montenegro, após definir “linhas vermelhas”, “adotou logo nas primeiras semanas de governo uma série de decisões que seguem a agenda do Chega”
“O Reino Unido, a Dinamarca, a Alemanha seguem uma lógica que não faz qualquer sentido e que todos os estudos mostram que é errada: fazer coisas de extrema-direita para evitar que a extrema-direita suba ainda mais” – e, no final, acabam por conseguir “o oposto: alcatroar uma autoestrada para a extrema-direita”.
Em primeiro lugar, destaca o historiador, é importante lembrar que a extrema-direita não é a causa da atual crise da democracia, mas um sintoma. “É um ator que quer dar a machadada definitiva às democracias liberais e está em vias de conseguir isso mesmo. Vemos isso na Hungria, onde Orbán governa há 15 anos, estamos a ver isso nos EUA e, num contexto de genocídio, em Israel, onde também há um enfraquecimento da separação de poderes e do Estado de Direito.”