Hoje és "maravilhosa", amanhã és despedida e entretanto dizem-te que vais pagar 200 dólares pelo petróleo
É seguro dizer que a guerra contra o Irão não está a correr de feição aos Estados Unidos. Os serviços secretos concluíram que o Irão mantém capacidades significativas ao nível do lançamento dos mísseis, surgiram informações de que Washington DC está a esconder o real número de vítimas entre as suas tropas e, como se não bastasse, os iranianos abateram esta sexta-feira, pela primeira vez desde o início do conflito, uma aeronave tripulada dos Estados Unidos.
Em virtude disso, Trump enfrenta forte pressão interna. Cada vez menos americanos confiam na sua administração e a maioria dos eleitores que participaram numa sondagem da CNN Internacional não concordam com a guerra desencadeada contra o Irão. Grande parte quer um fim rápido das hostilidades. O presidente dos EUA parece sensível a esta vontade e afirma que o conflito vai terminar dentro de “duas a três semanas” e que os objetivos estratégicos da guerra já estão “perto de completos”, garantindo mesmo que houve uma mudança de regime.
Contudo, o grande discurso que proferiu quarta-feira foi tudo menos tranquilizador. Apesar de prometer o fim da guerra em menos de um mês, Trump ameaçou com uma forte escalada do conflito. Prometeu levar o Irão “de volta para a Idade da Pedra” e atacar as suas centrais elétricas “muito duramente”, caso Teerão não aceite os seus termos para a paz. Trump, porém, não mencionou como pretende terminar a guerra e há um assunto que evita desenvolver: o Estreito de Ormuz.
Para o presidente americano, o encerramento desta importante passagem não é problema dele nem dos Estados Unidos, mas sim dos aliados, que o devem resolver com o Irão. “Desenvolvam alguma coragem (…) Deviam ter feito isto antes, deviam ter feito connosco, como pedimos. Vão ao estreito e tomem-no, protejam-no”, disse Trump durante o discurso. Na sua rede social, foi um pouco mais direto e nomeou o Reino Unido, que “recusou participar na decapitação do Irão”.
De facto, com o tempo, cada vez mais aliados vão dizendo ‘não’ aos Estados Unidos. Itália recusou dar autorização a certas aeronaves para aterrarem na base de Sigonella, na Sicília, antes de seguirem para o Médio Oriente. Trump queixou-se do mesmo em relação a França, embora a situação seja pouco clara. A Áustria não deu permissão a aviões envolvidos na intervenção contra o Irão de voarem no seu espaço aéreo. Mas esse está longe de ser o seu maior problema.
Com o Estreito de Ormuz ainda fechado e sem previsão para abrir, a economia dos Estados Unidos começa a dar sinais de fraqueza. O preço da gasolina supera já a barreira psicológica dos quatro dólares por galão (um galão corresponde a 3,78 litros) e promete não ficar por aqui. À CNBC, Aldo Spanjer, analista do BNP Paribas, antevê que o preço do barril de petróleo possa superar os 200 dólares caso tudo continue como está e o Irão continue a atacar infraestruturas petrolíferas dos aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. Os aumentos não vão sentir-se apenas na bomba, como também nas idas ao supermercado e viagens de avião. O pessimismo dos americanos, plasmado nas sondagens, pode agudizar-se e dar uma valente dor de cabeça a Trump, sobretudo num ano crucial com as midterms de novembro.
Atualmente, os republicanos controlam o Senado e a Câmara dos Representantes, mas ambos por margens escassas. Muitos lugares estão em risco de virar para os democratas, que estão a liderar grande parte das sondagens. Um Congresso “azul” e capaz de travar as iniciativas legislativas da sua administração será um enorme obstáculo para os dois últimos anos do mandato.
Entretanto, em Teerão, os sorrisos podem não abundar, mas há algumas razões para as lideranças iranianas não estarem totalmente desapontadas. O regime mantém-se, ainda há capacidade militar e a sua maior arma económica está a causar estragos no inimigo. O especialista em Relações Internacionais Manuel Serrano resumiu bem a questão à CNN Portugal: “Chegámos a esta lógica em que, mesmo que haja um acordo de paz, um cessar-fogo, o que seja, o Irão vai continuar a ter mais impacto e mais controlo sobre a inflação nos Estados Unidos do que o próprio Donald Trump. Acho que esta ideia é essencial”. - Pedro Falardo
As derrotas de Trump dentro de portas
Longe vai o tempo em que autoridades e internautas de todo o mundo estavam atentos aos ficheiros de Jeffrey Epstein divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano, revelando as profundezas da rede de tráfico sexual de crianças e mulheres e a rede de tráfico de influências montadas pelo milionário pedófilo que Trump, em tempos, chegou a classificar como um “tipo incrível”.
Assim que a guerra no Irão começou, os media revelaram uma quebra de 95% no número de pesquisas pelo nome “Jeffrey Epstein” na internet. E desde então, mais de um mês depois dos primeiros ataques ao Irão, a 28 de fevereiro, o assunto continua publicamente defunto – ainda que não para Trump: depois de o New York Times ter noticiado que o presidente estava a tentar despedir Pam Bondi, procuradora-geral dos EUA, pela alegada “má gestão” do acervo Epstein, isso aconteceu mesmo. Trump teve uma conversa "dura" com "a maravilhosa" Pam Bondi e depois demitiu-a. Ainda assim, foi dito a Bondi que vai ter um novo cargo - juíza, por exemplo.
Da mesma forma, houve na última semana episódios e derrotas domésticas para o presidente a escapar à atenção da maioria dos media, muito graças à guerra no Irão. Vale a pena começar pelo dia anterior ao início dessa guerra, pela Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), um encontro anual muito importante entre a ala da direita norte-americana, que decorreu em Grapevine, no Texas, e onde a dada altura Matt Schlapp, um aliado do presidente Trump, lançou uma pergunta à plateia: “Quantos de vocês gostariam de ver [Trump ser alvo de] um processo de destituição?”. Num momento digno de nota – e de embaraço para Schlapp – a plateia explodiu em aplausos de anuência. “Não, essa foi a resposta errada”, reagiu o presidente da CPAC.
Pode até ter-se dado o caso de as pessoas que assistiam ao evento não terem ouvido bem a pergunta. Mas o facto é que, perante aparentes divisões crescentes no Partido Republicano, há agora apoiantes – ou ex-apoiantes – de Trump a defender publicamente a remoção do presidente, caso do advogado Ty Cobb, que foi conselheiro da Casa Branca no seu primeiro mandato.
“Considerando que a administração não invocará a 25.ª Emenda para um homem que é claramente insano — esta guerra [no Irão] evidencia isso mesmo, assim como esses discursos inflamados que são publicados todas as noites, às 02:00 ou às 04:00 — isto destaca o nível de sua insanidade e depravação", disse Cobb num programa televisivo a meio da semana. É o mesmo que mais de 200 mil norte-americanos estão a defender numa petição pública a pedir o impeachment de Trump.
As sondagens mais recentes mostram que a atual administração atingiu um novo mínimo histórico, pelo menos no que toca às políticas económicas do presidente, novamente muito por causa do impacto da guerra nas carteiras dos norte-americanos comuns. No mesmo dia em que Cobb defendeu na televisão que Trump deve ser destituído, a CNN divulgou um inquérito de opinião em que apenas 31% dos inquiridos dizem aprovar a gestão que o presidente tem feito da economia – mais uma má notícia para os republicanos a sete meses das eleições intercalares.
As derrotas políticas do presidente não se ficam pela esfera pública. Na terça-feira, um juiz federal invocou a 1.ª Emenda para bloquear permanentemente a implementação de uma ordem executiva assinada por Trump para cortar o financiamento federal da National Public Radio (NPR) e da Public Broadcasting Service (PBS) – dois órgãos de informação que a Casa Branca considera serem “contrários” às prioridades dos EUA.
A semana terminou sem uma decisão final do Supremo Tribunal dos EUA sobre uma das pedras basilares do programa político de Trump, um caso que o próprio presidente quis ouvir ao vivo e a cores. Foi o primeiro chefe de Estado em funções na história do país a estar presente numa audiência do Supremo Tribunal – mas abandonou a sala mais cedo quando percebeu que os juízes, os liberais tanto quanto os conservadores, não estão inclinados a apoiar o fim do direito à cidadania para quem nasce em território norte-americano. — Joana Azevedo Viana
Crime de guerra em potência
Logo no início da guerra de Israel contra a Faixa de Gaza, na sequência dos ataques do Hamas a 7 de outubro de 2023, o hospital árabe al-Ahli foi bombardeado e o mundo ficou chocado. Os israelitas negaram ter sido os responsáveis pelos ataques, dizendo que nunca cometeriam crimes dessa natureza – que são crimes de guerra, sob o direito internacional.
Depois disso, e depois de comprovado que tinham mesmo sido as forças de Israel a atacar al-Ahli, Israel bombardeou cada um dos hospitais e centros médicos do enclave palestiniano ao longo dos dois anos seguintes, até ao cessar-fogo teórico implementado desde 10 de outubro sob pressão norte-americana.
Agora, os israelitas têm estado a repetir a estratégia no Irão e no Líbano. Desde o início dos ataques conjuntos ao Irão, a 28 de fevereiro, EUA e Israel já atingiram 25 hospitais e centros médicos no território iraniano. E no sul do Líbano – enquanto se ultima os preparativos para uma ofensiva militar terrestre no país vizinho que, segundo oficiais da UE, pode ser pior que a de 1982 – Israel já bombardeou pelo menos 128 instalações médicas e ambulâncias.
Num ataque aéreo ao sul do Líbano há uma semana, as forças de Israel também visaram jornalistas que cobriam o desenrolar da guerra entre Telavive e o Hezbollah no terreno, matando três repórteres. A emissora al-Manar, ligada ao Hezbollah, disse que uma das vítimas foi o seu correspondente de longa data, Ali Shoeib – um jornalista que Israel disse ter visado no ataque por ser um agente de informações do grupo xiita libanês, segundo a Associated Press “sem apresentar provas”.
Sob condenação de associações internacionais de defesa da liberdade de imprensa, o exército israelita divulgou uma imagem de Shoeib a usar um uniforme militar para comprovar a sua teoria. Mas quando questionado pela Fox News sobre a fonte da imagem, o exército assumiu que foi manipulada: “Infelizmente, não existe realmente uma fotografia, esta foi criada em Photoshop”.
O ataque do passado sábado que vitimou Shoeib, a jornalista Fatima Ftouni, do canal televisivo Al-Mayadeen, e o seu irmão, o fotojornalista freelancer Mohammad Ftouni, está a ser investigado pela Comissão para a Proteção de Jornalistas (CPJ), uma de várias associações que acusam Israel de assassinar seletivamente jornalistas na Faixa de Gaza e no Líbano.
Segundo dados da CPJ, dos 129 jornalistas assassinados em 2025, dois terços foram-no às mãos de militares de Israel – o mesmo país que, esta semana, aprovou a pena de morte por enforcamento para pessoas acusadas de terrorismo mas para ser aplicada exclusivamente aos palestinianos sob ocupação e não aos cidadãos israelitas.
A lei aprovada pelo Knesset, o parlamento israelita, está a gerar condenação mundial, de rivais e aliados de Israel, por ser discriminatória e, segundo o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, constituir um crime de guerra, em particular à luz da 4.ª Convenção de Genebra.
“É patentemente incompatível com as obrigações de Israel perante o direito internacional, inclusive em relação ao direito à vida”, diz Volker Türk. “Levanta sérias preocupações quanto a violações do devido processo legal, é profundamente discriminatória e deve ser revogada imediatamente. A sua aplicação de forma discriminatória constituiria uma violação adicional e particularmente grave do direito internacional e a sua aplicação aos residentes dos territórios palestinianos ocupados constituiria um crime de guerra.”
Um total de 62 dos 120 deputados do Knesset votou a favor do projeto de lei na segunda-feira, enquanto 48 votaram contra. Os restantes abstiveram-se ou não estiveram presentes na votação. Em teoria, a nova lei ainda pode ser revista ou até mesmo anulada pelo Supremo Tribunal de Israel. Desde que o Estado de Israel foi criado em 1948, apenas duas pessoas foram condenadas à morte – a primeira foi um soldado israelita, Meir Tobianski, falsamente acusado de espionagem e executado por traição nesse ano e postumamente inocentado; a segunda condenação à morte ocorreu em 1962, quando Israel executou Adolf Eichmann, alta figura do partido nazi alemão, após um longo julgamento em Jerusalém.
Entre os críticos ao projeto de lei em Israel e nos territórios ocupados contam-se deputados da oposição israelita, elementos das forças de segurança, rabinos, médicos e grupos de direitos humanos israelitas e palestinianos. Ao Deutsche Welle, a advogada palestiniana Sahar Francis fala numa lei “muito perigosa” que “reflete o Estado fascista em que Israel se está a transformar”. Uma investigação do Guardian revelou entretanto que não houve uma única pessoa condenada judicialmente por assassinar palestinianos na Cisjordânia ocupada desde 2020. — Joana Azevedo Viana