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Esta é a guerra de Trump – e estamos todos a pagar por ela

Sáb, 14 mar 2026
O Presidente Donald Trump passa por repórteres enquanto caminha para o Marine One na Casa Branca, a 11 de março de 2026.
Brian Snyder/Reuters

Sumário das frases mais marcantes de Donald Trump desde o início da guerra no Irão há duas semanas:

“Quando vamos para a guerra, algumas pessoas morrem”

“Como já disse, algumas pessoas vão morrer”

“Se [os preços do petróleo] subirem, subiram”

“Os EUA são, de longe, o maior produtor de petróleo do mundo, portanto quando os preços do petróleo sobem, nós fazemos muito dinheiro”

“Esqueçam o que vem a seguir [para o Irão depois da guerra]”

“O que estão a achar da performance? Quer dizer, a Venezuela é óbvia. Esta pode ser ainda melhor. O que estão a achar?”

“Não vai ser difícil”

“Não quero que demore muito”

“Esta não é uma guerra de mudança de regime”

“Queremos entrar e limpar aquilo tudo”

“Calculamos que levará cerca de quatro semanas. Sempre foi um processo de quatro semanas, então por mais forte que seja, é um país grande, levará quatro semanas — ou menos.”

“Nunca é bom dizer que se venceu cedo demais. Nós vencemos. Na primeira hora, estava ganho. [Mas] não queremos sair cedo demais. Temos de terminar o trabalho”

“Eles [líder do Irão] têm estado a matar pessoas inocentes por todo o mundo há 47 anos e agora, enquanto 47.º presidente dos Estados Unidos da América, estou a matá-los. Que grande honra é fazê-lo.”

Israel ataca a capital do Líbano, Beirute (Getty)

Passaram duas semanas desde que EUA e Israel decidiram avançar com bombardeamentos ao Irão. Duas semanas depois, os objetivos da guerra continuam por esclarecer – e por esclarecer continua como e quando é que a guerra, uma que ja extravasou as fronteiras do Médio Oriente, vai acabar. O sumário de frases acima prova isto mesmo.

Em duas semanas, mais de 1.300 pessoas foram mortas no Irão, na sua maioria civis, com a Organização Mundial de Saúde a denunciar 43 ataques a hospitais e centros médicos, a par de ataques a pelo menos quatro escolas. Trump até pode recusar-se a assumir que foram os EUA a atacar a escola primária de meninas em Minab em que mais de 170 pessoas morreram, sobretudo crianças, mas as provas são o que são – e só comprovam os riscos de recorrer cegamente à Inteligência Artificial em cenários de guerra. 

Segundo cálculos da ONU, que continua em falência financeira como resultado direto das decisões de Trump, a guerra já terá provocado até 3,2 milhões de deslocados internos no Irão. As duas iranianas com quem a CNN conseguiu falar de forma intermitente ao longo da primeira semana do conflito deixaram entretanto de conseguir aceder à internet; nos últimos cinco dias, só silêncio e nenhum login na rede de mensagens encriptadas que ainda as ligava ao mundo. E com o Líbano novamente sob ofensiva terrestre e aérea de Israel, há denúncias do recurso a bombas de fósforo branco, um crime de guerra e contra a humanidade – num país onde a guerra renovada já deslocou internamente 700 mil pessoas, cerca de 12% da população total do país.

Do lado americano, de acordo com uma investigação da Reuters, pelo menos 150 soldados já ficaram feridos, bem acima dos oito soldados feridos assumidos pela administração Trump – sem esta investigação, os norte-americanos e o resto do mundo poderiam nunca conhecer o real peso humano da guerra para os EUA. O governo foi forçado a assumir que sete soldados morreram em ataques retaliatórios do Irão, aos quais se juntaram na sexta-feira mais seis soldados que seguiam a bordo de um avião que caiu no Iraque.

Por entre as dúvidas que persistem e as perguntas que não têm resposta, há certezas ao final de meio mês de guerra, a começar pelo impacto financeiro da guerra. Sabe quem está a lucrar com ela? A Rússia, que por dia tem encaixado 150 milhões de dólares extra em venda de petróleo face ao aumento dos preços do crude. 

Estreito de Ormuz (Getty)

Sabe quem também está a lucrar com ela? Anónimos que apostaram grandes somas de dinheiro um dia antes de caírem as primeiras bombas em Teerão, de acordo com uma análise do New York Times com base em dados da Polymarket, que “revelou que é relativamente incomum alguém postar uma quantia significativa de dinheiro na ocorrência de um ataque americano no dia seguinte” e que, na sexta-feira antes dos primeiros ataques, “mais de 150 contas fizeram centenas de apostas de pelo menos 1.000 dólares prevendo corretamente um ataque americano ao Irão até sábado”. (Neste ponto, vale a pena ler este artigo da revista The Atlantic intitulado “O uso de informações privilegiadas vai matar pessoas”.)

Trump até pode regozijar-se que os EUA estão a ganhar com o aumento do preço do petróleo, mas os únicos a ganhar com isso são as petrolíferas, não os americanos comuns que, tal como os europeus, têm assistido à subida galopante do preço dos combustíveis. (Falando nisso, aproveite este fim de semana para atestar o carro, porque na segunda-feira gasolina e gasóleo vão voltar a subir em Portugal.)

Na verdade, os EUA de Trump estão em hemorragia financeira. Nos últimos cinco meses, segundo o gabinete orçamental do Congresso, o país tem estado a pedir emprestados 50 mil milhões de dólares por semana – e parte desse dinheiro está a ser queimado nesta guerra. Segundo estimativas do próprio Pentágono, os primeiros ataques custaram aos EUA 5,6 mil milhões de dólares só em munições e, segundo uma fonte ouvida pelos legisladores, a despesa militar ascendeu a mais de 11 mil milhões de dólares só nos primeiros seis dias da guerra. Como escreve a analista Kate Brannen no New York Times, “ninguém sabe quais serão os custos humanos e estratégicos da guerra do presidente Trump no Irão, mas os custos financeiros estão a aumentar a cada dia”.

No meio de tudo isto, a administração Trump conseguiu encaixar cerca de 650 milhões de dólares com a venda de mais de 20 mil bombas a Israel sem pedir autorização ao Congresso, tal como contornou o Congresso quando decidiu lançar esta guerra em conjunto com o seu grande aliado no Médio Oriente. Esta não foi a primeira vez na História dos EUA que um presidente não pediu o aval dos legisladores para intervir militarmente no estrangeiro, como manda a lei – mas é a primeira vez que tanta gente dentro dos EUA se opõem à partida a uma guerra iniciada pelo país. 

Em duas semanas, cinco de sete reconhecidos institutos de sondagens mostram que os americanos estão contra esta guerra por uma margem de dois dígitos, incluindo um inquérito de opinião para a CNN divulgado na semana passada. Mas isso, para já, não parece fazer mossa em Trump, nem orientá-lo num sentido ou noutro. Em poucos dias, o presidente norte-americano disse que o Irão está “prestes a render-se” e, pelo contrário, que a guerra ainda vai durar semanas.  

Com alguns aliados dos EUA, incluindo a Itália de Giorgia Meloni, a darem um passo atrás no apoio à guerra do Irão, sob acusações de violações do direito internacional, as dúvidas sobre para onde vamos a partir daqui permanecem. E é por continuarmos em dúvida que os europeus estão a tentar salvaguardar os seus interesses da melhor maneira que conseguem.

Ao fecho desta edição, com o Irão já sob uma nova mas conhecida liderança, França e Itália deram início a negociações diretas com Teerão para assegurar a passagem dos seus navios pelo Estreito de Ormuz. E Trump continuava entregue ao "óbvio": há motivos pelos quais outros presidentes dos EUA evitaram entrar em guerra com o Irão e, "ao alardear objetivos inantingíveis, como a rendição incondicional e a mudança de regime, Trump deu aos seus inimigos a oportunidade de reivindicar a sobrevivência como vitória" e deu por si sem "um ponto final evidente para o que recentemente chamou de 'excursão de curto prazo'."

O nuclear filosofal

Uma semana separa o anúncio de Emmanuel Macron sobre uma nova doutrina nuclear de "dissuasão avançada" na Eiuropa e a cimeira de energia nuclear que, na terça-feira, reuniu em Paris os líderes de inúmeros países do continente e do resto do mundo.

Como referia à CNN o analista francês Julien Hoez, no rescaldo do encontro desta semana: "Quando as pessoas pensam em energia nuclear, associam a energia ao armamento e é um facto que ambas estão inerentemente ligadas. E para França, esta também é uma maneira importante de garantir que podemos atender não só às nossas necessidades energéticas, mas também às dos nossos vizinhos e aliados, o que efetivamente constitui um forte tipo de influência geopolítica."

Mas como viemos parar a uma nova era dourada do nuclear, no armamento como na energia? Sobre a primeira, o presidente francês invoca a necessidade de garantias num mundo cada vez mais volátil e em que parece imperar a lei do mais forte. "Para sermos livres, temos de ser temidos e, para sermos temidos, temos de ser poderosos", disse Macron ao anunciar que França vai produzir mais ogivas nucleares e deixar de informar o resto do mundo sobre o seu paradeiro.

Sobre a primeira, o líder francês invoca questões de soberania energética, em mais uma semana de dificuldades face ao fecho do Estreito de Ormuz, e de crescentes necessidades de alimentar os mega centros de dados de Inteligência Artificial – ao lado de uma Ursula Von der Leyen que, anos depois de ter integrado o governo que decidiu encerrar todos os reatores nucleares da Alemanha, assumiu enquanto presidente da Comissão Europeia que a desnuclearização foi um "erro estratégico".

"É engraçado termos Emmanuel Macron e Ursula Von der Leyen à frente desta cimeira", ressalta o físico nuclear Luís Guimarãis, numa longa entrevista sobre o retorno a esta fonte de produção de energia. E é uma boa notícia que "finalmente a Europa ponha em cima da mesa uma alternativa de baixo carbono, eletricidade fiável 24 horas por dia, 7 dias por semana, e que precisa de combustível que até temos bastante capacidade de produzir", adianta. Pode ler a entrevista na íntegra aqui.

Um golpe de Estado à espera de acontecer

Pode até nem ter sido esse o motivo, mas para 52% de norte-americanos foi: Trump decidiu começar uma guerra no Irão para forçar o público a esquecer-se das suas ligações a Jeffrey Epstein, o milionário pedófilo que morreu na prisão em 2019 mas cujo acervo de milhões de documentos e imagens, publicado a conta-gotas pela administração dos EUA, tanta tinta fez correr – e tão poderosos derrubou deste lado do Atlântico, nomeadamente no Reino Unido.

Intencional ou não, os dados mostram que as buscas sobre o caso Epstein na internet caíram 95% desde o início da guerra do Irão. E esse não é o único caso que tem passado por entre os pingos da chuva, enquanto as pessoas comuns tentam atestar os seus depósitos e perceber como e quando é que a guerra vai acabar. Nuns EUA onde o secretário de Defesa proíbe fotojornalistas de usarem fotos “desfavoráveis” da sua pessoa (o mesmo secretário de Defesa que gastou 93 mil milhões de dólares em cestas de fruta, cadeiras e caranguejo no primeiro ano no cargo) e onde o diretor do FBI põe lutadores de MMA a treinar os agentes da secreta, a Casa Branca está a ficar aflita.

A oito meses das intercalares, Trump acaba de atingir um marco histórico pela negativa, ao completar um ano inteiro com um índice de aprovação líquida negativo – algo que um especialista da CNN diz acarretar sérias implicações para as eleições de novembro. Talvez por isso, a administração Trump deu esta semana ordens ao Partido Republicano para que evite falar de deportações em massa – um tema que, outrora, era uma enorme fonte de apoios ao presidente, uma ordem que surgiu uma semana depois de Trump ter despedido a sua secretária de Segurança Interna.

Da mesma forma, a Casa Branca passou a semana a garantir que nenhuma mulher casada vai ser impedida de votar nas intercalares, apesar de a Lei SAVE que Trump quer ver aprovada pôr em risco o direito ao voto de cerca de 70 milhões de mulheres que optaram por adotar o nome do marido. Por causa disso, os democratas do Senado ameaçam bloquear a legislação Trumpiana, criada sobre o mito de que há imigrantes clandestinos a votar em eleições americanas.

Esse continua também a ser um dos argumentos mais usados pelo atual chefe de Estado para manter a alegação falsa de que as presidenciais de 2020 lhe foram roubadas, algo que, seis anos depois, continua a gerar novas investigações em estados como o Arizona – com potencial impacto nas eleições vindouras. Outro argumento é a alegada interferência da China nas presidenciais que Trump perdeu para Joe Biden e que estão a alimentar esforços entre os seus apoiantes para declarar emergência nacional antes da ida às urnas de novembro.

Quando faltava um ano para essas eleições, a CNN Portugal entrevistou David A. Graham, jornalista e autor do livro “O Plano”, no qual esmiúça como a muito conservadora agenda do Projeto 2025 está a ser implementada quase ipsis verbis pela nova administração Trump – imagine que até inclui a possibilidade de privar milhões do seu direito a votar. Nessa conversa, Graham já colocava a hipótese de Trump manipular as eleições intercalares.

“Há toda uma panóplia de formas e lugares em que Trump poderia tentar interferir nos resultados, Trump e os seus aliados”, dizia o jornalista. “Estou preocupado que venha a ser mais do que em 2020. [...] Em 2020 falaram em confiscar as urnas eletrónicas, mas não o fizeram. Falaram em usar as forças armadas, mas não o fizeram. E todas as coisas que tentaram em 2020 não tiveram consequências sérias para Trump. [...] É muito difícil prever as ações dele, mas acho que existem muitas maneiras pelas quais podem interferir nas eleições e muito pouco para os conter neste momento.”

É essa mesma ideia que a revista The New Republic ressalta agora, a oito meses das eleições, num artigo intitulado “Já podemos afirmá-lo sem rodeios: Trump está a planear um golpe de Estado em novembro”. “Durante a campanha, era difícil imaginar os detalhes de como Trump conseguiria fazer algo assim. Mas, a cada semana, isso torna-se menos hipotético.” E não será seguramente a guerra do Irão, dê ela por onde der, a virar o tabuleiro.

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