Elon deportado? Donald destituído? Os dez dias que prometem mudar a América

Sáb, 07 jun 2025

Pedimos, desde já, desculpa pelo tamanho desta cronologia. E esclarecemos, desde já, que não vamos falar de decisões grandiosas ou reviravoltas extraordinárias, como os Estados Unidos pararem de fornecer armas ao governo “exterminador” de Benjamin Netanyahu (palavra de um antecessor do primeiro-ministro israelita) ou forçarem Vladimir Putin a negociar realmente uma paz justa e duradoura na Ucrânia. 

Falamos do "divórcio do ano", como alguns estão a chamar à guerra de palavras entre Donald Trump e Elon Musk, respetivamente o presidente de um dos países mais poderosos do mundo e o homem mais rico do mundo. Coqueluche da administração Trump 2.0, Musk acaba de abandonar o gabinete de eficiência governamental (DOGE) - uma saída antecipada, dado que o seu contrato de “funcionário especial do governo” estava prestes a expirar, mas ainda assim envolta em rumores de uma zanga com Trump. Rumores que, provaram os últimos dez dias, tinham todo o fundamento.

O divórcio do ano

Capa do tablóide New York Post sobre "divórcio" de Elon Musk e Donald Trump (NYPost)

As consequências do que aconteceu desde o final de maio são largamente impossíveis de antever para já. E é bem possível que, enquanto lê esta newsletter, haja já novidades na saga que está a fazer as delícias dos internautas. Contudo, e se mais nada acontecer para lá do que já se passou, é seguro assumir que os últimos dez dias serão para sempre recordados, em iguais partes, como notáveis e inevitáveis. 

Meses depois de Musk ter aparecido de motosserra na mão pronto a cortar as “gorduras” do Estado, numa catadupa de decisões que empurraram mais de 216 mil funcionários federais para o desemprego, há várias questões a pairar no ar: vai Trump deportar Musk? Vai uma parte do Partido Republicano dar ouvidos ao bilionário e chumbar o projeto de lei orçamental de Trump no Senado? Ou até apoiar um processo de destituição ao presidente? Vai Musk lançar um novo partido político?

A maioria dos analistas acredita que será Trump a sair por cima desta história, quanto mais não seja por ter a faca e o queijo (executivos) na mão. Entretanto, as ações da Tesla de Musk caíram mais de 14%, apagando cerca de 150 mil milhões de dólares do valor da empresa. O projeto de lei orçamental, que passou por apenas um voto na câmara baixa do Congresso, vai seguir para o Senado. E até Kanye West, ou Ye, já meteu a colher na disputa, ecoando um pedido de acordo de paz feito pelo investidor bilionário Bill Ackman: "Brooooos, por favor nãããããooooo", escreveu o rapper. "Adoramos-vos tanto aos dois."

"Queres um pouco de maquilhagem?"

Elon Musk despede-se do DOGE e do governo federal com um olho negro (Evan Vucci/AP)

Para memória futura, eis o sumário dos últimos dez dias de uma rixa que teve tanto de virtual quanto de real.

Quarta-feira, 28 de maio

Após 130 dias a dirigir o DOGE, Elon Musk abandona o governo federal com um agradecimento a Donald Trump pela oportunidade que lhe deu. No último dia ao serviço do DOGE, o bilionário aparece na Casa Branca com um olho à belenenses. “Alguém lhe terá dado uma tareia?”, questiona o New York Times – “a lista de suspeitos parece ser longa”

Quinta-feira 30 de maio

Agências e jornais como o Wall Street Journal pegam na história de que Trump terá perguntado aos assessores, referindo-se ao DOGE e à promessa de Musk de cortar a despesa do Estado federal em 1 bilião de dólares: “Terá sido tudo uma treta?”

Terça-feira, 3 de junho

Na primeira troca pública de galhardetes, Elon escreve na X que o projeto de lei orçamental “grande e belo” do presidente – que, segundo o Gabinete Orçamental do Congresso, vai aumentar o défice dos EUA em 2,4 biliões de dólares e deixar mais 10,9 milhões de americanos sem seguro de saúde – é uma “abominação repugnante”, sem mencionar diretamente Donald Trump

Terça e quarta-feira, 3 e 4 de junho

Elon continua a lançar críticas atrás de críticas ao projeto de lei: 

“Vai aumentar de forma maciça o défice orçamental já gigante para 2,5 biliões (!!!) e sobrecarregar os cidadãos americanos com uma dívida esmagadoramente insustentável”

“O Congresso está a levar a América à bancarrota”

“O pagamento de juros já consome 25% de toda a receita do governo. Se a despesa maciça com o défice continuar, só haverá dinheiro para pagar os juros e nada mais. Não haverá segurança social, nem assistência médica, nem defesa… nada.”

“Liguem aos vossos senadores, liguem aos vossos representantes, levar a América à falência NÃO é ok! ANULEM o PROJETO DE LEI!”

Quinta-feira, 5 de junho

Foi o dia mais prolífico da querela Trump-Musk até agora, a começar com uma conferência de imprensa com o chanceler alemão, Friedrich Merz, na Casa Branca.

11h30: “Eu teria conquistado a Pensilvânia independentemente do Elon… Estou muito desapontado com o Elon. Ele conhecia este projeto de lei melhor do que ninguém e só criou problemas quando descobriu que eu ia retirar o mandato dos VE [Veículos Elétricos].” (Trump também falou sobre o olho negro de Musk na semana anterior: "Eu disse: 'queres um pouco de maquilhagem? Vamos arranjar-te um pouco de maquilhagem'. Mas ele disse: 'Não, acho que não'. O que é interessante. Ele quer ser quem é.")

Lutas de Trump e Musk ofuscam visita de Merz

Donald Trump Friedrich Merz Casa Branca (Evan Vucci/AP)

11h46: Musk começa a partilhar uma série de publicações antigas de Trump na X, em que o agora presidente criticava a despesa excessiva do Estado federal.

12h46: Musk responde diretamente a Trump sobre a sua vitória eleitoral: “Tanta ingratidão. Sem mim, Trump teria perdido as eleições, os democratas controlariam a Câmara [dos Representantes] e os republicanos teriam ficado com 51-49 assentos no Senado.”

12h47-14h37: Musk faz mais de 23 publicações dirigidas a Trump e a outros republicanos; pelo meio lança uma sondagem: “É altura de criar um novo partido político na América que realmente represente os 80% da classe média?”

14h37: Numa série de publicações na sua Truth Social, Trump ameaça acabar com os contratos do governo com as empresas de Musk.

“A forma mais fácil de poupar dinheiro no nosso Orçamento, milhares de milhões de dólares, é acabar com os contratos e subsídios governamentais do Elon. Sempre me surpreendeu que Biden não o tivesse feito!”

“O Elon estava a ficar desgastado, pedi-lhe para se ir embora, retirei-lhe o mandato dos VE que obrigava toda a gente a comprar carros elétricos que mais ninguém queria (e que ele sabia há meses que eu ia fazer!) e ele PASSOU-SE!”

14h48: Musk responde a Trump – “Uma mentira tão óbvia. Tão triste.”

15h10: “É altura de largar a grande bomba", acrescenta Musk. "Donald Trump está nos ficheiros Epstein. Essa é a verdadeira razão pela qual eles não divulgaram os ficheiros. Tem um bom dia, DJT!”

Jeffrey Epstein foi um magnata bilionário amigo dos grandes e poderosos preso por pedofilia em 2019 que alegadamente cometeu suicídio na prisão enquanto aguardava julgamento. “Marquem esta publicação para o futuro", acrescenta Musk. "A verdade virá ao de cima.”

Os desaparecidos ficheiros Epstein

Donald Trump e a sua namorada (e futura mulher) Melania Knauss, o financeiro (e futuro condenado) Jeffrey Epstein e a socialite britanica Ghislaine Maxwell, numa festa em 2000 GettyImages

16h06: Trump responde a Musk (sem fazer qualquer referência ao caso Epstein) – “Não me importo que o Elon se vire contra mim, mas já o devia ter feito há meses. Este é um dos maiores projetos de lei alguma vez apresentados ao Congresso. É um corte recorde nas despesas, 1,6 biliões de dólares, e a maior redução de impostos alguma vez feita. Se este projeto de lei não for aprovado, haverá um aumento de impostos de 68%, e coisas muito piores do que isso. Não fui eu que criei esta confusão, só estou aqui para a resolver. Isto coloca o nosso país no caminho da grandeza. MAKE AMERICA GREAT AGAIN!”

16h09: Musk anuncia que vai desativar “imediatamente” a nave espacial dragon da SpaceX “à luz das declarações do presidente sobre o cancelamento dos contratos do governo” com as suas empresas.

Vale a pena referir aqui que a Estação Espacial Internacional (ISS) não tem como funcionar de forma segura e eficaz sem a dragon, o único veículo de voo espacial americano que leva astronautas de e para a estação; sem a dragon, a NASA teria de comprar assentos à Rússia. E sendo os EUA os maiores fornecedores de tecnologia para a ISS, os restantes países teriam dificuldades em dar continuidade à missão sem o apoio norte-americano. (Nota: ainda não é certo que Musk vá mesmo desativar a dragon.)

16h11: Musk defende o ‘impeachment’ de Trump, partilhando o post do comentador Ian Miles Cheong na X, onde se lê: “Presidente vs. Elon: quem ganha? Eu aposto no Elon. Trump deveria ser destituído e substituído por JD Vance”

17h19: Musk volta a criticar o plano orçamental de Trump – “Whatever. Mantenham os cortes nos incentivos aos veículos eléctricos/solares, apesar de não tocarem nos subsídios ao petróleo e ao gás (muito injusto!!), mas livrem-se da MONTANHA DE PORCOS NOJENTOS que o projeto de lei contém. Em toda a história da civilização, nunca houve uma legislação que fosse ao mesmo tempo grande e bela. Toda a gente sabe disso! Ou se obtém uma lei grande e feia ou uma lei pequena e bela. A pequena e bela é a melhor.”

17h25: Musk volta a desmentir Trump sobre ter conhecimento do projeto de lei há meses – “Falso, este projeto de lei nunca me foi mostrado uma única vez e foi aprovado pela calada da noite, de forma tão rápida que quase ninguém no Congresso o conseguiu ler!”

18h57: Em entrevista ao Politico, Steve Bannon, antigo estratega de Trump, defende que o presidente deve suspender a credencial de segurança de Musk, cancelar os contratos do governo com as empresas do bilionário, investigar o seu alegado consumo de drogas como reportado pelo NYT e deportar o sul-africano naturalizado americano como um “estrangeiro ilegal”.

Sexta-feira, 6 de junho

3h28: JD Vance, vice-presidente de Trump, sai em auxílio do chefe – ironicamente com uma publicação na rede social de Musk já de madrugada: "O presidente Trump fez mais do que qualquer outra pessoa na minha vida para ganhar a confiança do movimento que lidera. Tenho orgulho de estar ao lado dele.”

9h11: O Wall Street Journal noticia que Trump quer vender o seu Tesla vermelho; os media internacionais noticiam que as perdas financeiras de Musk já ascendem aos 33 mil milhões de dólares

9h47: Após fontes da Casa Branca dizerem ao Politico que Trump e Musk iam falar ao telefone na sexta-feira, o presidente assegura à CNN: "Nem sequer estou a pensar no Elon. Ele tem um problema. O pobre coitado tem um problema." Questionado sobre se vão conversar em breve, Trump responde: “Não. Acho que não vou falar com ele durante uns tempos, mas desejo-lhe felicidades.”

Não percam os próximos episódios, porque nós também não!

O ego e os (maus) acordos de Trump

Trump von der Leyen

Mais uma ressalva: a grande entrevista que publicamos este sábado, com um ex-funcionário de topo da administração Biden, foi conduzida um dia antes de Elon Musk abandonar o governo Trump. Mesmo assim, e apesar de tudo o que já aconteceu desde então, a conversa ajuda a contextualizar os últimos seis meses de política interna e externa norte-americana – e a antever o que pode vir a acontecer nas relações dos EUA com a Europa.

"Como qualquer tempestade, também esta [tempestade Trump] aponta as fraquezas da estrutura que tínhamos e, portanto, não podemos aspirar a voltar atrás", diz Jim O'Brien à CNN Portugal. "Temos de construir algo novo e melhor. Acho mesmo que esta tempestade veio de um conjunto de condições que foram reunidas e que tornaram isto possível e isso é algo com que temos de lidar. Mas podemos construir sobre os interesses que temos em comum."

Mas como se constrói algo com um parceiro investido em interromper 80 anos de tradições na relação transatlântica? O'Brien, que se diz "um realista em matéria de política", responde com otimismo. "Consegue-se isso lutando de forma inteligente. Trump quer momentum, tem ímpetos, e, portanto, luta-se de forma inteligente afetando quer o seu timing, quer a sua direção."

Um exemplo de como isso funciona, adianta, é o recém-alcançado acordo comercial com o Reino Unido, já fechado mas ainda sem data para entrar em vigor. "Não há nada nesse acordo que seja realmente vantajoso para os EUA. Mas ele fez esse acordo porque não tinha outras notícias de que se pudesse gabar. E penso que é esse o objetivo da Comissão Europeia, encontrar o momento certo."

Quem está a ganhar a guerra?

Fogo e fumo na cidade após um ataque de um drone russo, no âmbito do ataque da Rússia à Ucrânia, em Kiev, Ucrânia, a 6 de junho de 2025. (AP)

De um momento para o outro, nem a vastidão do território russo foi capaz de oferecer refúgio. Ainda estão a ser contabilizados os danos da operação que Kiev demorou 18 meses a passar do plano para as ações, mas a espera parece ter dado resultado. Estima-se que 20 aviões militares russos, entre os quais vários bombardeiros estratégicos nucleares, foram destruídos ou danificados no ataque da operação "Pavutyna" dos serviços secretos ucranianos. Mas o mais espantoso foi a forma como a operação foi cuidadosamente montada e permitiu que mais de uma centena de drones conseguissem atacar as bases militares russas, causando uma das maiores humilhações que o Kremlin sofreu desde o início da guerra.

Só que o impacto desta operação vai muito além dos seus danos materiais. Não é claro que a perda destes bombardeiros resulte numa redução dos ataques por parte do Kremlin. No entanto, a capacidade ucraniana de atacar algumas das mais remotas bases militares russas, como foi o caso de Olenya, junto da fronteira com a Noruega, e de Belaya, no coração da Sibéria, demonstra que nem mesmo os aeródromos nos locais mais longínquos estão seguros. E isso vai obrigar Moscovo a dispersar ainda mais recursos, apesar de Vladimir Putin ter demonstrado que está mais do que disposto a fazê-lo, custe o que custar.

O presidente russo prometeu, numa chamada com Donald Trump, que iria retaliar contra "o ataque terrorista" ucraniano. E a resposta apareceu na noite de quinta-feira, quando o exército russo lançou um dos mais intensos bombardeamentos da Ucrânia desde que começou a guerra, atingindo várias cidades, incluindo Kiev. Segundo a força aérea ucraniana, 452 drones de longo alcance sobrevoaram os céus da Ucrânia, seguidos de uma vaga de 45 mísseis. O bombardeamento matou quatro pessoas e feriu mais de 20, destruindo também vários edifícios residenciais. 

Nem mesmo os sinais dados pela economia russa parecem assustar a Rússia. No primeiro semestre, a economia russa cresceu apenas 1,4%, um valor bem inferior aos 4% registados no mesmo período dos dois anos anteriores. Vários indicadores mostram que a economia russa pode estar prestes a arrefecer significativamente. Ao mesmo tempo, a inflação no país permanece bem acima da meta de 4% estabelecida pelo Banco Central russo. Ainda assim, a governadora da instituição, Elvira Nabiullina, decidiu baixar as taxas de juro de 21% para 20%, por considerar que a economia russa está a voltar a um caminho de crescimento mais equilibrado.

Ainda que uma economia mais fraca e uma elevada inflação acabam por retirar poder de compra aos cidadãos russos a longo prazo, esse não parece ser um motivo forte o suficiente para que Putin recue nos seus objetivos na Ucrânia. E os sinais que surgem da linha da frente podem ser suficientemente encorajadores para que o presidente russo mantenha essa opinião. As forças armadas russas continuam a avançar na região de Sumy, depois de terem conseguido recuperar o território na região russa de Kursk. Moscovo tem dezenas de milhares de militares na região e começam a surgir receios de que uma ofensiva de maiores dimensões possa estar para vir naquele ponto da frente.  

Os serviços secretos ucranianos também revelaram uma informação que demonstra a dimensão dos planos do Kremlin para os próximos tempos. De acordo com Ole Aleksandrov, porta-voz da força de serviços secretos externos ucraniana, a indústria militar russa planeia produzir dois milhões de drones FPV e 30 mil drones de longo alcance, bem como o mesmo número de drones falsos para enganar as defesas antiaéreas ucranianas, levando a que os militares ucranianos gastem estas munições em alvos sem poder de fogo.

De Washington, as notícias também não são animadoras para Kiev, apesar dos esforços do chanceler alemão, Friedrich Merz, que visitou a Casa Branca para tentar convencer o presidente norte-americano a apoiar a Ucrânia. A resposta de Trump voltou a fazer manchetes, ao comparar a guerra na Ucrânia, um dos mais mortíferos conflitos das últimas décadas, a uma luta entre duas crianças pequenas que se odeiam. "Às vezes, é melhor deixá-las lutar durante algum tempo e depois separá-las", afirmou Donald Trump, que garante ter um "prazo limite" no seu cérebro para implementação de sanções contra a Rússia caso rejeitem o cessar-fogo. “Quando vir o momento em que não vai parar... seremos muito duros", garante o líder americano.

Menos incerto parece ser a decisão de aumentar a percentagem dos gastos de Defesa para 5% entre membros da NATO. O embaixador dos Estados Unidos da América na NATO, Matthew Whitaker, garantiu na véspera da reunião dos ministros da NATO que os EUA estão comprometidos com a defesa de todo o território dos membros da aliança, desde que exista "urgência" em subir a despesa em Defesa para 3,5% com o restante 1,5% a ser gasto em infraestruturas ligadas às forças armadas, como estradas, portos e aeroportos. 

"As ameaças que a NATO enfrenta estão a aumentar e os nossos adversários não estão à espera que nos rearmemos ou que estejamos prontos para dar o primeiro passo. Preferimos que os nossos aliados avancem com urgência para atingir os 5%. Não podemos ter outra cimeira de Gales em 2014, com aliados a atingir os 2% em 11 anos. Não somos nós que estamos a estabelecer estes prazos, são as ações dos nossos adversários", alerta Whitaker. — João Guerreiro Rodrigues