Bombardear ou não bombardear, eis a questão
A guerra que ia durar seis semanas já vai na oitava e não se vislumbra o seu fim. A semana começou com um novo ultimato de Donald Trump ao Irão para que o país aceitasse o excelente acordo que os EUA têm para lhe oferecer.
“Estamos a propor um ACORDO muito justo e razoável, e espero que o aceitem porque, se não o fizerem, os Estados Unidos vão destruir todas as centrais elétricas e todas as pontes do Irão. ACABOU-SE O SENHOR BONZINHO!”.
O presidente dos EUA já cantou vitória sobre o Irão mais de uma mão cheia de vezes. A retórica é de quem está numa posição totalmente dominante, mesmo que os factos no terreno não o comprovem. Na terça-feira, em entrevista à CNBC, Trump reiterou as ameaças e disse que não queria estender o cessar-fogo pois “não tinha muito tempo”. Num clássico caso de TACO (Trump Always Chickens Out), o líder americano anunciou, nesse mesmo dia, uma extensão do cessar-fogo por tempo indeterminado.
A pressão sobre o Irão não surtiu efeito. As lideranças do país mantiveram-se inamovíveis perante os apelos autoritários dos EUA para se sentarem à mesa das negociações em Islamabad. A segunda ronda de negociações, agendada para esta semana, não aconteceu e foi adiada para o fim de semana. JD Vance, Jared Kushner e Steve Witkoff já tinham viagem marcada para a Ásia, mas o estoicismo iraniano forçou a suspensão dos planos.
Trump está a tentar a todo o custo evitar voltar à guerra. Segundo o tenente-general Marco Serronha, especialista militar da CNN Portugal, o presidente americano “está muito pouco interessado em reativar as operações militares”, não só pelo que significa para a sua popularidade, da qual falaremos mais à frente, mas também para os seus aliados.
“Os EUA e Donald Trump estão tentados a prolongar o cessar-fogo para continuar as negociações e evitar uma escalada militar, que tem os impactos que tem a nível interno e ao nível dos países do Golfo Pérsico, que têm sofrido muito e serão os principais alvos da retaliação”, disse Serronha no CNN 20 Horas de quinta-feira.
Apesar disso, chegou ao Médio Oriente o USS George H.W. Bush, o terceiro porta-aviões destacado para a região, e persiste a luta pelo controlo do tráfego do Estreito de Ormuz. Os EUA dizem já ter barrado mais de 30 navios e apreenderam dois petroleiros que transportavam petróleo iraniano. Teerão também apreendeu e chegou mesmo a atacar vários navios que tentavam atravessar a passagem.
No meio da baralhada diplomática, Israel e Líbano estenderam o cessar-fogo por três semanas. Porém, as IDF continuam a atacar o sul do Líbano, por si controlado, provocando dezenas de mortes ao longo da semana. Na Truth Social, Trump perspetivou um encontro entre Benjamin Netanyahu e Joseph Aoun, presidente libanês. De fora continua o Hezbollah, com quem Israel está realmente em guerra e que já disse que o cessar-fogo é desprovido de sentido.
Contudo, o sul do Líbano não é suficiente para satisfazer os caprichos de Telavive e, nas palavras do seu ministro da Defesa, Israel Katz, está “à espera de luz verde” para “mandar o Irão de volta para a idade das trevas”.
Uma espiral negativa
Netanyahu e companhia têm vontade de voltar à guerra, mas o mesmo não se pode dizer de Donald Trump, que continua a ver a sua popularidade a cair de forma séria. Uma sondagem da Reuters/Ipsos, publicada na terça-feira, mostra que apenas 36% dos americanos aprovam os ataques ao Irão e 25% consideram que os bombardeamentos vão deixar o país mais seguro.
No mesmo dia, um outro inquérito, publicado pela Associated Press, colocava a aprovação do presidente americano em relação às ações no Irão em 32%. Mais preocupante é a economia, com apenas 30% a aprovarem a prestação de Trump neste capítulo, uma queda de oito pontos percentuais face a março.
O líder americano está também a perder outra guerra que lançou, a do gerrymandering – o ato de manipular os limites de um distrito da Câmara dos Representantes a favor de um partido. Surpreendentemente, os democratas conseguiram subverter os esforços dos republicanos e, na Virgínia, aprovaram uma reorganização dos círculos eleitorais que lhes permitirá roubar pelo menos quatro lugares da oposição na Câmara dos Representantes. Segundo a The Atlantic, esta aprovação coloca em nove o número de lugares que os democratas quase garantidamente vão tirar aos republicanos na câmara baixa do Congresso, nivelando com os ganhos dos republicanos desde que decidiram reativar esta disputa.
O que igualmente parece não estabilizar é o governo americano. John C. Phelan, um grande doador de Donald Trump, saiu do cargo de secretário da Marinha, alegadamente despedido, segundo a imprensa norte-americana, por estar atrasado nas reformas da construção naval promovidas pelo presidente. A demissão junta-se a outras de alto perfil como Kristi Noem, ex-secretária de Estado da Segurança Nacional, e Lori Chavez DeRemer, ex-secretária do Trabalho, mas também de figuras importantes fora do governo como Pam Bondi, ex-procuradora-geral, e Charles Q. Brown Jr, removido do cargo de chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA.
Na frente diplomática, sexta-feira trouxe novo embaraço para a administração. A Reuters obteve emails internos do Pentágono onde consta a ideia de suspender membros da NATO pela falta de apoio durante a guerra contra o Irão, com Espanha à cabeça. A Aliança Atlântica já veio refutar essa possibilidade e o próprio governo espanhol, pela voz do seu presidente, Pedro Sánchez, já veio dizer que “não está preocupado” com a possibilidade e frisou o compromisso de Madrid com a organização. O pensamento, porém, está lá.
Alívio em Kiev
Quem também não tem gostado da guerra no Médio Oriente é Volodymyr Zelensky que, como o próprio já admitiu várias vezes, vê a Ucrânia perder o seu lugar no espaço mediático e, sobretudo, na ordem de prioridades dos EUA. Mas nem tudo são más notícias.
Finalmente, após muitos meses bloqueado, o empréstimo de 90 mil milhões de euros da União Europeia a Kiev foi aprovado, após o novo governo húngaro levantar o veto exercido por Viktor Orbán. Zelensky juntou-se aos líderes europeus na reunião informal realizada no Chipre e aproveitou o momento favorável para pedir, mais uma vez, uma adesão rápida da Ucrânia ao bloco.
“Vamos exigir o máximo de todos”, disse o líder ucraniano em Agia Napa, sonhando com uma adesão já em 2027. As intenções de Zelensky chocam com as de alguns chefes de Estado e de governo da União Europeia, que não querem acelerar o processo. "Temos de continuar a seguir uma abordagem baseada no mérito”, afirmou um deles, o primeiro-ministro belga Bart De Wever, em Chipre. “Não é possível recorrer a procedimentos acelerados."
A semana trouxe, apesar de tudo, um senão dentro da União Europeia, com a vitória do partido de Rumen Radev nas eleições legislativas na Bulgária. Radev, ex-presidente do país, é um eurocético e há receios de que possa ser um dos novos melhores amigos de Vladimir Putin no seio dos 27, ainda que vários, como o comentador da CNN Portugal Manuel Serrano, tenham dúvidas de que Radev possa bloquear a União Europeia como Orbán bloqueou.