Vai aquela que, até agora, foi a maior jogada política de Donald Trump compensar? Vai o cessar-fogo entre Israel e o Irão perdurar? Vai Teerão retomar o enriquecimento de urânio após a proclamada ‘Guerra dos 12 Dias’, assim batizada pelo presidente norte-americano, que tão depressa entrou nela com bombas únicas anti-bunker quanto lhe pôs um fim abrupto?

Uma semana depois dos inéditos ataques das forças dos EUA a três centrais nucleares do Irão, são muitas as dúvidas em torno do conflito inaugurado por Israel a 13 de junho – entre elas o porquê de Telavive o ter iniciado e o porquê de ter terminado de forma tão inesperada, com um frágil cessar-fogo anunciado por Trump (segundo Steve Bannon, porque “Israel deu um passo maior do que a perna”). No meio desse mar de questões, uma certeza salta à vista: o mundo é agora, muito graças a Trump e a Benjamin Netanyahu, um lugar menos seguro

“Isto veio efetivamente corroer a norma internacional de não-proliferação nuclear, porque se olharmos para os vários casos hoje, nomeadamente países que os EUA não atacaram, por exemplo a Coreia do Norte, essa não-proliferação já não é provável – é graças a ela que os países podem impedir intervenções externas”, ressalta à CNN Jonathan Monten, diretor do programa de Políticas Públicas Internacionais da University College London (UCL). 

“Se fores um líder que receia ou que está em risco de enfrentar uma intervenção externa, a mensagem que isto envia é ‘Arranja armas nucleares, caso contrário podes vir a enfrentar o destino de Saddam Hussein ou de Muammar Kadhafi’. Essa pode ser a grande mensagem [desta guerra]: se querem evitar o mesmo destino, as armas nucleares são o derradeiro dissuasor.”

Uma grande questão que paira no ar é até que ponto as capacidades de enriquecimento de urânio do Irão foram afetadas pelos ataques norte-americanos. Fontes dos serviços secretos dos EUA indicam que o bombardeamento das instalações nucleares subterrâneas destruiu as entradas das centrais, mas não essas capacidades. Alguns relatórios sugerem que os danos podem ter sido mais extensos do que isso, mas nem por isso totalmente destrutivos ou capazes da “obliteração” que Trump alardeou. Um documento citado pela CNN Internacional sugere, inclusivamente, que a ofensiva apenas atrasou o programa nuclear iraniano em meses.

Após cinco rondas de negociações com a administração Trump para fechar um acordo nuclear, o Irão anunciou esta semana a suspensão de toda a cooperação com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o que vem dificultar ainda mais o rastreio e escrutínio do enriquecimento de urânio pelo regime dos aiatolas. “A doutrina nuclear do Irão tem sido, desde há muito, uma doutrina de ambiguidade estratégica”, refere Houssein al-Malla, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (GIGA). “O Irão avançou um pouco sem nunca ultrapassar o limiar – mas este conflito pressiona até mesmo os atores racionais a reconsiderar o cálculo do custo-benefício da contenção.”

Exposto fica o que, em estudos de segurança, é referido como ‘o dilema da segurança’, que define que a procura de segurança por uma das partes provoca na outra um comportamento ainda mais arriscado. “Este ataque pode levar o Irão a abandonar a ambiguidade e a procurar uma clara dissuasão, em especial se os líderes fizerem comparações com a destruição do Iraque após o desarmamento e com a sobrevivência da Coreia do Norte através de uma atitude bravura nuclear”, adianta Al-Malla. 

“Os serviços secretos politizados, incluindo as afirmações inconstantes sobre os progressos nucleares do Irão, também evocam o espectro do Iraque em 2003 – não só por causa do padrão, mas porque corrói a credibilidade das instituições globais e a ordem baseada em regras que sustenta os esforços de não proliferação.”

Não terá sido por acaso que o governo de Benjamin Netanyahu, que pelo menos desde 1995 diz que o Irão está “a poucos meses” de concluir o fabrico de bombas atómicas, decidiu lançar ataques contra Teerão um dia antes da sexta ronda de negociações entre Teerão e Washington na capital de Omã.

Trump continua a acreditar que a proclamada ‘Guerra dos 12 Dias’ vai forçar o regime a retomar as negociações de um acordo que, segundo fontes à CNN na sexta-feira, poderá passar pelo alívio de sanções, o desbloqueio de milhares de milhões de dólares de fundos iranianos bloqueados e o pagamento de até 25 mil milhões de euros para que Teerão desenvolva um programa nuclear com fins exclusivamente civis. Mas nem isso é certo para já. “Vamos falar com eles na próxima semana, com o Irão”, disse Trump no final desta semana aos jornalistas. “Podemos assinar um acordo, não sei.”

Confrontado com os relatórios das próprias agências sobre o impacto limitado dos ataques às centrais iranianas, Trump não só minimizou as conclusões como comparou as ações da sua administração ao recurso dos EUA a bombas atómicas sob a presidência de Harry S. Truman, para atacar as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki – a única vez na História que um país usou bombas nucleares contra outro, há precisamente 80 anos.

“Quando olhamos para Hiroshima, se olharmos para Nagasaki, isso também acabou com uma guerra”, disse o presidente americano em Haia, à margem da cimeira da NATO, em referência a um dos últimos capítulos da II Guerra Mundial. “Acabou com uma guerra de uma maneira diferente.”

Paralelismos infelizes à parte, e enquanto o mundo sustém a respiração à espera do que acontece a seguir, não é demais lembrar que “nada acelera mais um programa nuclear do que o medo de ser o próximo regime a não o ter”, como destaca o investigador Houssein al-Malla sobre a forma como esta ‘Guerra dos 12 Dias’ minou os esforços de não-proliferação nuclear. “Esse medo pode agora ser mais real do que nunca para Teerão” – como para o resto da comunidade internacional.

O Irão por quem sabe

Mário Damas Nunes passou quatro anos da sua vida em Teerão, coincidindo com o tempo em que a administração Obama tentou levar o Irão a abandonar o seu programa de armamento nuclear.

Nesta entrevista fala à CNN Portugal da sociedade iraniana, mais plural do que pensamos, mas, talvez até mais do que isso, surpreendentemente ocidentalizada, sobretudo desde o caso Mahsa Amini.

É por aí, aponta o embaixador, que virá uma inevitável mudança de regime. Nunca por intervenções militares externas, até porque isso nunca correu bem, mas antes por uma sociedade composta por pessoas muito diferentes - “afinal é um país com 90 milhões de habitantes - que podem todas juntas dizer “basta” ao regime dos aiatolas.

Antes de tentar cumprir esse propósito, e sobretudo se ele existir efetivamente, todo e qualquer opositor e crítico do regime terá de lidar com uma ameaça específica: a temível Guarda Revolucionária, um braço armado paralelo às Forças Armadas que tem uma brutal influência política.

De resto, como em tudo no Irão, política, guerra e economia misturam-se de forma quase indetetável.

A cimeira da bajulação

O papá Donald Trump veio à Europa dar colinho aos meninos malcomportados. Não fosse esta uma caricatura demasiado hiperbólica, podia perfeitamente ser o pensamento do secretário-geral da NATO.

Chamou “papá” ao presidente dos Estados Unidos, sugerindo que só ele era capaz de colocar fim a uma “birra” entre Israel e Irão. Mas também só ele poderia empurrar os países europeus a seguirem-no para os 5% de gastos em Defesa na NATO, uma verba que ninguém gasta, e da qual os Estados Unidos nem são os mais próximos.

Histriónico como sempre, Donald Trump podia ter acabado estes dias de “vassalagem” - a expressão é do correspondente do El Mundo em Washington, DC, uma das vozes da linha da frente do descontentamento espanhol com o dono daquilo tudo - a participar num dos mágicos videoclipes de Aphex Twin.

Para bem dispor, deixamos um não menos histriónico “Come to Daddy”. Os espanhóis não foram, chocando de frente com o senhor que afinal manda na NATO. Como se não o soubéssemos já, esta semana passámos a ter a certeza de que é mesmo o presidente dos Estados Unidos, sobretudo quando se trata de um bully jocoso.

Jocoso, mas com coração mole. De vez em quando, vá. A conferência de imprensa de Donald Trump na NATO foi um autêntico tratado. Um tratado de um one man show, mas também uma confirmação de que estamos mesmo atrás dele para tudo - as dezenas de braços de jornalistas no ar que o digam.

Voltando ao coração mole. Deliciosa a interação com uma jornalista da BBC Ucrânia que lhe perguntou sobre a possibilidade de um envio de novos mísseis Patriot. Ao princípio não pareceu estar bem a ouvi-la e até demonstrou como que uma condescendência, mas depois percebeu que era melhor não entrar pelo caminho de gozo que tantas vezes adota. Preferiu perguntar-lhe se o marido era soldado e ouviu uma resposta afirmativa. Depois mostrou empatia ao perceber que a guerra está mesmo a afetar esta mulher. Por fim, enviou cumprimentos ao soldado que com ela casou e que, a milhares de quilómetros de distância, tenta resistir na linha da frente contra a Rússia.

Antes do voo que o levou até à conferência de imprensa, e já a preparar todo o tom da cimeira em Haia, Países Baixos, Donald Trump fazia o impensável. Usava a sua Truth Social para divulgar uma mensagem pessoal de Mark Rutte. “A Europa vai pagar em GRANDE, como deve, e a vitória será sua”, dizia o neerlandês, entre vários outros elogios e mostras de que só há um verdadeiro decisor na NATO.

A mal ou a bem, acabou a conseguir uma “ofensiva de charme”, como lhe chamaram Joseph Ataman e Clare Sebastian, da CNN. Até porque o objetivo ficou mesmo cumprido: todos se comprometeram a trabalhar para chegar aos 5%. Todos, menos um. Espanha negociou a coisa à parte e garante que não está a pensar muito para lá dos 2%. Da Rússia viu-se uma cimeira de aumento de orçamento. E na Rússia, o que se vê?

Quem está a ganhar a guerra

A Rússia comunica como sempre, mas Vladimir Putin deu um estranho sinal de fraqueza. Foi franco com o gasto em Defesa - são 13,5 biliões de rublos (cerca de 146 mil milhões de euros), mais de 6% do PIB -, mas também foi franco sobre o que isso faz ao país.

A guerra está a magoar a economia da Rússia e o presidente até falou da inflação e do seu efeito.

"A Rússia pagou com inflação pelos seus gastos militares. Estamos a planear uma redução no gasto em Defesa", reiterou, já depois de dizer que o Kremlin "está a tentar lidar com desafios no orçamento militar".

Isto porque a Rússia, garantiu o próprio, não precisa de gastar tanto. Mas Vladimir Putin fez o mesmo exercício para a NATO, que também não precisa de gastar tanto, até porque o aumento da despesa entre a Aliança Atlântica é “baseado numa agressão russa que não existe”.

Palavras que fecham uma semana em que se chegou a temer um dos maiores ataques da guerra. Na madrugada desta sexta-feira os alarmes soaram em grande parte das maiores cidades, incluindo Kiev. Foram centenas de drones Shahed e vários mísseis, incluindo hipersónicos, mas o objetivo russo acabou por não ser cumprido.

E se é preciso uma prova de que a guerra continua teimosamente a demorar, a notícia de que há mais norte-coreanos a caminho da Ucrânia é apenas mais uma prova. São mais 11 mil soldados, mas desta vez “especialmente selecionados” entre a confiança de Kim Jong-un, que quer continuar a agradar a um dos poucos homens que ainda lhe dá mão.

Do lado de cá, Donald Trump e Volodymyr Zelensky voltaram a encontrar-se, embora não pareça ter saído nada de muito concreto da reunião em Haia, onde o presidente ucraniano andou à procura de mais gente que lhe dê apoio.

Bully ao seu estilo, o presidente dos Estados Unidos esta semana decidiu chatear-se mais com Vladimir Putin: “O Vladimir telefonou-me e disse: posso ajudar-vos com o Irão? Eu disse que não, não preciso de ajuda com o Irão. Preciso de ajuda, mas é contigo”.

No terreno propriamente dito, a Rússia continua a avançar em Sumy, embora continue por desvendar qual será o real objetivo naquela região. Avanços também na frente de Toretsk, quando Kiev teme que milhares de soldados russos estejam a agrupar-se para uma operação decisiva no bastião de Pokrovsk.