O chanceler alemão Friedrich Merz e o presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky falam à imprensa durante uma conferência na Chancelaria em Berlim, Alemanha, 15 de dezembro de 2025. (AP Photo/Maryam Majd)

Entre a espada e a parede, a Europa decidiu. A reunião foi tensa mas, ao fim de 16 horas, os líderes europeus chegaram a acordo para criar um empréstimo de 90 mil milhões de euros para ajudar a Ucrânia. Vindo do orçamento comunitário, este empréstimo acaba por dar uma margem de manobra a Kiev, que esperava ficar sem fundos já em abril de 2026. Para o presidente Volodymyr Zelensky, a aprovação foi uma "importante vitória", uma vez que "sem estes fundos teria sido muito difícil" para os ucranianos. 

Mas a verdade é que nem todos saem a ganhar. A solução ficou bem longe da defendida pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que pretendiam utilizar os 210 mil milhões de euros em ativos soberanos russos congelados na UE para apoiar um "empréstimo de reparações". Os líderes europeus foram incapazes de chegar a um acordo para utilizar dinheiro russo para pagar os danos de uma guerra iniciada pela própria Rússia. 

A divisão voltou a ser clara: países nórdicos, Polónia e Alemanha apoiaram a apropriação dos fundos russos; Bélgica, Itália e França (dois dos países mais endividados da União Europeia) lideraram o grupo de países que preferiram emitir dívida comum para resolver a situação. Além disso, o acordo deixa de fora a República Checa, a Hungria e a Eslováquia de qualquer obrigação, uma vez que estes três países recusaram-se a apoiar qualquer solução.

"Apesar da excessiva cautela de alguns líderes, a Europa decidiu financiar a Ucrânia. A possibilidade de usar ativos russos imobilizados ainda está em aberto. Estou totalmente satisfeito? Claro que não. Mas é sempre melhor ter um pouco de alguma coisa do que tudo de nada", escreveu o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, na rede social X. 

Quem está a ganhar a guerra?

Vladimir Putin na conferência dos "resultados do ano" da Rússia (Getty)

Nos últimos meses, enquanto decorrem as negociações de paz entre a Rússia e os Estados Unidos, Moscovo tem feito um enorme esforço em demonstrar que a Ucrânia está encurralada, sem capacidade de contra-atacar, e que, caso não se chegue a um acordo, a situação só piorará para Kiev. As forças armadas russas lançaram uma poderosa campanha ofensiva um pouco por toda a frente, que tem colhido resultados. O mês de novembro teve as maiores conquistas territoriais desde março de 2022, com o Kremlin a ocupar 725 quilómetros quadrados. 

Estes dados apoiaram diretamente a campanha de perceções do Kremlin, sedento para demonstrar a Washington que a resistência ucraniana é fútil. Os anúncios de conquistas acontecem quase diariamente. O ministro russo da Defesa, Andrey Belousov, chegou mesmo a anunciar ao presidente Putin que a cidade de Pokrovsk, palco dos combates mais intensos, e a cidade de Kupiansk já estavam sob controlo do exército russo. Mas, apesar dos sucessos reais no campo de batalha, os detalhes contrariam a versão russa. 

A cidade de Pokrovsk, que até há poucos meses era um dos principais hubs logísticos do exército ucraniano no Donbass, ainda não está nas mãos russas. Apesar de Moscovo controlar 90% do que resta desta pequena cidade, os militares ucranianos estão a oferecer uma forte resistência no norte da cidade. Mas a principal dor de cabeça russa está em Kupiansk, onde as tropas russas não só não conquistaram a localidade como acabaram por ser cercadas num contra-ataque ucraniano.

Atualmente, estima-se que cerca de 200 soldados russos permanecem no interior da cidade, cercados por tropas ucranianas. Segundo as forças armadas de Kiev, estes militares estão a ser reabastecidos via drone mas continuam a enfrentar sérias dificuldades no interior da cidade. Para mostrar a operação, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, viajou até à cidade, onde filmou um pequeno vídeo junto ao uma placa com nome da localidade. 

O problema é que este vídeo foi publicado apenas três dias antes de uma grande maratona mediática de Vladimir Putin, que todos os anos reúne uma grande audiência e escolhe responder a perguntas curadas acerca de vários temas, como a economia ou a geopolítica. Este ano, mais uma vez, a discussão foi dominada pela guerra, mas o presidente russo mostrou-se visivelmente afetado com o vídeo de Zelensky - que desmente a conquista russa de Kupiansk, contrariando a narrativa que a Rússia está a tentar impor. 

Em resposta a uma pergunta de um jornalista russo sobre como Zelensky podia "atrever-se a cometer tal fraude num momento tão crítico", Putin começou por dizer que não percebe isso, mas depois desvalorizou acrescentando que o presidente ucraniano é um "ator talentoso". Num tom típico do presidente russo, Vladimir Putin gozou com o esforço de guerra ucraniano, sugerindo que a Ucrânia vai continuar a perder território.

O eixo Brown-MIT-IST e o fim do sorteio de vistos

Filha presenciou assassinato do físico português Nuno Loureiro nos EUA

À hora de fecho desta newsletter, os media continuavam a tentar apurar as motivações de Cláudio Valente, o português suspeito de matar duas pessoas a tiro na Universidade de Brown no sábado e, dois dias depois, um professor português do MIT à porta da própria casa, em Boston. Cláudio Valente foi encontrado morto pela polícia, na quinta-feira, num aparente suicídio.

Chegou a achar-se que a vítima mortal portuguesa - Nuno Loureiro, físico nuclear que dirigia o Centro de Ciência de Plasma e Fusão do conceituado instituto universitário do Massachusetts - teria sido assassinada pelo Irão, como sugerido pelo Jerusalem Post, na quarta-feira – apesar de “não haver qualquer respaldo em conclusões oficiais das autoridades dos Estados Unidos”, apontava o jornal, Israel deu início a uma “investigação em contexto delicado, dada a área de pesquisa de Loureiro, um dos principais investigadores em energia e física nuclear do mundo”.

Outras teorias da conspiração questionavam a coincidência de Nuno Loureiro – que foi colega de Cláudio Valente no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, nos anos 1990 – ter sido assassinado na mesma semana em que a Trump Media and Technology Group (TMTG), detentora da Truth Social, a rede social do presidente norte-americano, anunciou uma fusão com a TAE Technology, uma empresa de fusão nuclear parcialmente financiada pelo governo russo, num negócio avaliado em 5,1 mil milhões de euros (Devin Nunes, congressista republicano lusodescendente - que era CEO da Trump Media desde 2021 -, será codiretor-executivo da nova empresa).

Especulações à parte, o resultado imediato destes ataques foi o concretizar de um desejo de longa data de Trump: acabar com o sorteio de ‘green cards’ que, anualmente, permite que até 55 mil pessoas de todo o mundo obtenham visto para viver e trabalhar legalmente nos EUA. Quando chegou à presidência pela primeira vez, em 2017, Trump tinha tentado abolir este mecanismo de entrada no país, mas, dado que foi uma medida implementada pelo Congresso, apenas o Congresso pode acabar com ela.

Mesmo assim, e percebendo que tem alguma latitude para tomar decisões que, mais tarde, obtêm o respaldo dos tribunais, desta vez Trump deu ordens a Kristi Noem, sua secretária de Segurança Nacional, para suspender imediatamente o sorteio de vistos, porque “indivíduos hediondos” como o alegado homicida português “não deviam poder entrar” nos EUA, disse o presidente. Até o Congresso ou o Supremo se pronunciarem, Trump conseguiu o que queria.

O ataque de Bondi

Bondi Beach

Um dia depois do ataque na Universidade de Brown e um dia antes de Nuno Loureiro ter sido assassinado a tiro pelo mesmo atacante, ocorreu outro atentado do outro lado do mundo. No domingo, dois atiradores, pai e filho, inspirados pela ideologia do Estado Islâmico, lançaram um ataque durante uma celebração do Hannukah na praia de Bondi, uma das mais icónicas da Austrália.

Quinze pessoas morreram, incluindo um rabi sobrevivente do Holocausto e uma criança. Outras 40 pessoas ficaram feridas, incluindo Ahmed al-Ahmed, filho de refugiados sírios que conseguiu tirar a arma a um dos suspeitos e que recebeu louvores de herói e 1,4 milhões de euros em doações. Numa visita a Al-Ahmed, ainda internado no hospital, o primeiro-ministro australiano falou do "melhor que o país tem".

As manifestações de união na dor colidiram com a posição do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que assim que o ataque foi noticiado apontou o dedo ao governo de Anthony Albanese por "promover o antissemitismo" ao reconhecer o Estado da Palestina. Questionado sobre a ligação, Albanese disse não ver nenhuma: "Não concordo e a grande maioria do mundo reconhece que a solução de dois Estados é o caminho a seguir no Médio Oriente".

A solução, contudo, parece cada vez mais impossível de concretizar, tal como o cessar-fogo mediado por Trump para a Faixa de Gaza parece cada vez mais uma miragem, ainda que, no papel, continue em vigor. "Dois meses depois, o cessar-fogo em Gaza está a ruir", escreveu a Economist no final da semana, com os palestinianos do enclave "ainda a temerem a morte vinda dos céus, mas agora mais pelo clima do que pelos caças israelitas".

Com a chegada das baixas temperaturas e da chuva, pelo menos 17 habitantes de Gaza morreram na última semana de hipotermia no território devastado por mais de dois anos de guerra, incluindo um bebé de um mês. Isto quando Israel continua sob pressão para levantar o bloqueio à entrada de ajuda humanitária, uma das medidas previstas no documento de cessar-fogo assinado no início de outubro.

Pelos pingos da chuva passou a notícia de que o Tribunal Penal Internacional (TPI) rejeitou o recurso interposto por Benjamin Netanyahu para que o seu mandado de captura internacional por suspeitas de crimes de guerra fosse anulado. A investigação a Netanyahu e ao seu ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, levou a administração Trump a impor sanções ao procurador-chefe do TPI, aos seus dois adjuntos e aos juízes que emitiram os mandados em novembro de 2024.

O recurso foi rejeitado na mesma semana em que JD Vance, vice de Trump, causou transtorno em Israel com uma publicação na rede social X. "Há uma diferença entre não gostar de Israel (ou discordar de uma determinada política israelita) e antissemitismo", escreveu o vice-presidente dos EUA na segunda-feira. O post não estava relacionado com a reação de Netanyahu ao ataque de Bondi - mas podia.

No final da semana, e face às crescentes denúncias de antissemitismo na Austrália, Albanese prometeu mão dura contra discurso de ódio no país e anunciou novas leis contra "aqueles que espalham ódio, divisão e radicalização", incluindo multas para líderes espirituais que promovam a violência. "Todos os judeus australianos têm o direito a sentirem-se seguros, valorizados e respeitados pela sua contribuição à nossa grande nação."

Um presidente em pânico?

Donald Trump

As últimas semanas têm sido prolíficas em decisões trumpianas – como a de ordenar o cerco naval à Venezuela, suspender o sorteio de vistos ou trocar o tipo de letra Calibri, “demasiado woke”, por Times New Roman nos documentos oficiais – mas também em discursos.

Uma das decisões começou com Trump a anunciar que vai mesmo avançar com um processo contra a BBC por difamação, depois disso escreveu na Truth Social a sugerir que o realizador Rob Reiner, assassinado por um dos filhos à facada, morreu porque sofria de Trump Derangement Syndrome e a seguir Trump abordou uma reportagem da Vanity Fair em duas partes sobre o núcleo duro do presidente - que tanta análise tem granjeado.

A fechar a semana, veio um antecipado discurso à nação que uns julgaram que podia marcar o início da possível sugerida invasão da Venezuela e que outros julgaram que podia ter que ver com os ficheiros Epstein – já que, sob a lei aprovada recentemente no Congresso, tinham de ser divulgados até sexta-feira.

Quanto a quinta-feira à noite: em Washington DC, e duas semanas depois de ter dito aos norte-americanos que a solução para os seus problemas económicos é comprarem menos lápis e brinquedos para os filhos, Trump surgiu na televisão para um discurso de quase 20 minutos em que se apresentou como o herói da nação que está a resolver os problemas criados por Joe Biden e que já conseguiu baixar os preços dos combustíveis e da comida (não conseguiu).

A um ano das eleições intercalares, e com a sua taxa de aprovação em mínimos históricos, até os republicanos duvidam da eficácia do discurso junto do eleitorado. Como ressaltou Kevin Madden, um veterano de comunicação do Partido Republicano, no rescaldo do discurso, “os eleitores irão sempre dar mais margem de manobra se [o presidente] estabelecer credibilidade ao reconhecer o desafio - e o desafio que estão a sentir agora com o aumento dos preços é real”.

Ou, como resumiu Tom Nichols na revista The Atlantic: “O que os americanos viram foi um presidente tomado pelo pânico enquanto tentava coagir toda a nação a admitir que ele está a fazer um ótimo trabalho”. — Joana Azevedo Viana