Este plano torna a Europa o inimigo número 1 dos Estados Unidos
Tem 33 páginas e abre uma janela rara para o pensamento estratégico formal do presidente dos Estados Unidos em relação ao resto do mundo. É comum haver uma por cada mandato presidencial e a de Donald Trump acaba de ser divulgada pela Casa Branca sem pompa nem circunstância. Chama-se Estratégia de Segurança Nacional (ESN) e delineia a forma como Trump pretende que os EUA mantenham – e reforcem – a sua presença militar no Hemisfério Ocidental para combater a imigração, o narcotráfico e a ascensão de potências adversárias na região, colocando a Europa e a NATO definitivamente em segundo plano.
Quase adivinhando o que estava para vir de Washington DC, o analista alemão Boris Vormann tinha destacado à CNN Portugal na semana passada que “o que estamos a ver hoje é uma nova regionalização instintiva da grande estratégia dos EUA – uma viragem para o Hemisfério Ocidental e um distanciamento dos compromissos pós-1945 que vincularam os EUA ao equilíbrio de poder na Eurásia”.
O novo guia estratégico da administração Trump prova-o, com base numa reinvenção da Doutrina Monroe sob a qual atores externos como a China devem ser afastados desta “arena do poder americano”, como Vormann já referia há uma semana, e “os envolvimentos globais, seja na NATO ou nas alianças asiáticas, são distrações e não necessidades estratégicas” dos EUA.
Numa nota introdutória, Trump define a ESN como um “roteiro para garantir que a América continua a ser a maior e mais bem-sucedida nação da história da humanidade e o lar da liberdade na Terra”. Com o propósito de moldar a forma como diferentes setores do governo americano alocam orçamentos e definem prioridades políticas, a administração reconhece que a presença da China no hemisfério onde os EUA querem ser reis e senhores, protegendo as suas “fronteiras e segurança interna” a todo o custo – e, sem prestar grande atenção ao Médio Oriente nem a África, sugere que a Europa está em declínio civilizacional e em desesperada necessidade de salvação.
Nos pontos dedicados ao continente europeu lê-se, entre outros, que os EUA devem “cultivar a resistência à atual trajetória da Europa entre as nações europeias”, “encorajar a Europa a combater a sobrecapacidade mercantilista, o roubo tecnológico, a espionagem cibernética e outras práticas económicas hostis” e ainda “acabar com a perceção, e impedir a realidade, da NATO enquanto aliança sempre em expansão”.
Acompanhada de um outro documento político chamado Estratégia de Defesa Nacional, a NATO surge nesta ESN como uma organização defunta e a Europa como necessitada de “correção” às mãos dos norte-americanos. “A crescente influência de partidos patrióticos europeus é motivo de grande otimismo. O nosso objetivo deve ser ajudar a Europa a corrigir a sua atual trajetória. Precisaremos de uma Europa forte para nos ajudar a competir com sucesso e a trabalhar em conjunto connosco para impedir que qualquer adversário domine a Europa.”
A visão de Trump fica agora à vista de todos: os EUA são donos e senhores do Ocidente e a Europa resume-se a um conjunto de “nações com o seu caráter e história individuais”, espécie de colónias de Washington que devem voltar a focar-se nos valores “cristãos” e que não devem aliar-se a países como a Índia ou a China.
Mais crítico dos aliados transatlânticos do que da Rússia, o documento também atira contra as “expetativas pouco realistas dos oficiais europeus” quanto à guerra da Ucrânia, “alojadas em governos minoritários instáveis, muitos dos quais atropelam princípios básicos da democracia para suprimir a oposição”.
Vale a pena voltar a Vormann e à conversa de há uma semana com a CNN. “Sim, os EUA estão a voltar a adotar uma postura hemisférica, mas de uma forma muito mais fragmentada e volátil”, considera o diretor do European Democracy Institute. “É como Monroe, mas sem a dominância estrutural que outrora a sustentava, e sem a disciplina estratégica que dantes a tornava coerente. É uma reafirmação da primazia regional justamente no momento em que essa primazia é mais difícil de manter.”
A incógnita, por ora, é a que o Politico coloca no seu artigo de análise ao documento: “Trump é volátil por natureza, então é difícil prever com que fidelidade ou por quanto tempo irá manter-se fiel às ideias apresentadas na nova estratégia. [E] um evento global inesperado também poderia redirecionar o seu pensamento, como já aconteceu com presidentes recentes, de George W. Bush a Joe Biden.”
Iraque 2.0?
Os ataques dos EUA a embarcações alegadamente ligadas ao narcotráfico no Pacífico, que já provocaram mais de 80 mortos desde setembro, e o braço de ferro com Nicolás Maduro na Venezuela enquadram-se na estratégia agora publicamente definida e assumida pela administração Trump. Imune às queixas e acusações de ilegalidade, violação do Direito Internacional e "alegações exageradas", a administração norte-americana continua empenhada nestas ações, ordenadas pelo autodenominado Departamento de Guerra dos EUA e o seu líder, Pete Hegseth – o mesmo que, esta semana, foi acusado de pôr em risco a segurança das tropas americanas no estrangeiro com o chamado 'signalgate'.
Na quarta-feira, um grupo bipartidário de senadores norte-americanos apresentou a Resolução sobre Poderes de Guerra, na tentativa de interromper o que descrevem como “hostilidades militares” não autorizadas levadas a cabo pelos EUA na Venezuela a mando de Trump. Aos democratas Tim Kaine, Chuck Schumer e Adam Schiff juntou-se o republicano Rand Paul, com o objetivo de a câmara alta do Congresso forçar o presidente a pedir explicitamente autorização ao braço legislativo para levar a cabo qualquer tipo de ação externa.
Depois de Trump ter dado a entender na semana passada que poderia ordenar uma invasão terrestre em breve, os senadores destacam nessa resolução que o Congresso não aprovou qualquer tipo de ação militar na Venezuela ou contra a Venezuela, e argumentam que a Constituição reserva esse poder ao ramo legislativo.
Há mais de 20 anos, a invasão do Iraque levou ao mesmo tipo de debates e tentativas frustradas, vindo mais tarde a comprovar-se que o argumento de que Saddam Hussein detinha armas de destruição maciça não correspondia à realidade. Como destacou a CNN Internacional esta semana, desta vez Trump está empenhado, à guisa de combater o tráfico de droga, em derrubar o presidente de um país com mais petróleo do que o Iraque.
“Independentemente da lógica por trás da rápida intensificação da situação no Caribe, se uma mudança de regime ocorrer na Venezuela, a maior reserva comprovada de petróleo do planeta desempenhará um papel central no futuro do país”, ressalta David Goldman na sua análise.
Foi precisamente essa a ideia que Maduro destacou numa carta enviada esta semana à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), na qual diz que Trump está a ponderar recorrer à força militar para obter acesso e controlo das reservas de crude venezuelanas. Fontes dizem que Trump já terá mesmo feito um ultimato ao presidente da Venezuela, durante o telefonema que mantiveram no passado fim de semana.
Com Trump a insistir que pode continuar a matar civis em barcos sem pedir autorização ao Congresso, os EUA têm neste momento mais de uma dúzia de navios de guerra destacados nas imediações da Venezuela e 15 mil soldados na região, num esforço que, segundo o governo e sob a recém-divulgada Estratégia de Segurança Nacional, pretende apenas reduzir o fluxo ilegal de migrantes e de drogas. Esta semana, Trump emitiu uma diretiva a alertar companhias aéreas, pilotos e redes criminosas que devem evitar o espaço aéreo venezuelano, gerando o caos na aviação comercial.
E num editorial com laivos do artigo assinado por Condoleezza Rice no New York Times a 23 de janeiro de 2003, o Wall Street Journal defendia no passado domingo que a administração Trump deve fazer tudo para forçar a deposição do líder venezuelano. “Se Maduro se recusar a sair, e Trump abdicar de agir para o depor, os perdedores serão Trump e a credibilidade dos EUA.”
Um olho no Kushner, outro no Witkoff
A bem ou a mal. O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou, durante a sua visita de estado à Índia, que a região ucraniana do Donbass fará parte da Rússia seja pela via "militar ou por outros meios". O objetivo russo é demonstrar, em plena negociação de paz, que a Rússia está longe de estar desesperada para obter um acordo e está confortável com a sua posição. E o Kremlin tem razões para manter o seu plano.
Esta semana, a delegação norte-americana encarregue das negociações de paz viajou para a Rússia, mas obteve pouco sucesso. Jared Kushner, genro do presidente americano, e Steve Witkoff voaram para Moscovo, onde foram brindados com três horas de espera, antes de conduzir uma reunião de cinco horas apenas com o presidente russo. "Francamente, até eu me cansei, cinco horas é demasiado", admitiu Putin em declarações aos jornalistas russos.
Mas a confiança russa, desta vez, é apoiada por avanços no terreno. De acordo com o grupo de analistas independentes DeepState, o exército russo foi capaz de ocupar 505 quilómetros quadrados de território ucraniano, quase o dobro do registado no mês anterior. A vasta maioria dos ganhos territoriais aconteceu na região de Huliaipole. Mas a situação continua a ser difícil para a Ucrânia nas regiões de Pokrovsk e Mirnograd. Apesar de Putin ter anunciado a conquista de Pokrovsk, ainda existem bolsas de resistência ucraniana na cidade e o preço pago pelo Kremlin é elevado.
Só que a realidade no terreno, ainda é distante do sonho de Putin de ocupar o Donbass por qualquer meio. A batalha por Pokrovsk, uma cidade que no início da guerra tinha pouco mais do que 60 mil habitantes, durou 18 meses e provou ser uma das mais mortíferas do conflito, aproximando-se da intensidade dos combates em Bakhmut e Avdiivka. Só que para conseguir conquistar o que lhe falta do Donbass, o exército russo tem de atravessar a linha de fortalezas ucranianas do Donetsk, um aglomerado de quatro cidades: Kostyantynivka, Druzhkivka, Kramatorsk e Sloviansk.
Numa guerra que está prestes a fazer quatro anos, a ocupação militar destas cidades pode demorar mais alguns anos e centenas de milhares de baixas para Moscovo. É por isso que Putin aposta forte em tentar demonstrar que a derrota ucraniana é inevitável, para que a conquista desse território possa ser feita "por outros meios". Para o lado russo, esse parece ser o caminho mais viável, com a administração norte-americana a demonstrar uma grande abertura para negociar a paz na Ucrânia a qualquer preço, mesmo que isso resulte numa derrota estratégica para Kiev e para os aliados europeus.
A consciência de um mau acordo de paz parece começar a surgir na mente dos políticos europeus, que tardaram na tomada de decisão de medidas cruciais como o aumento dos gastos em defesa e que não demonstraram ter a coragem política nem o apoio interno para fazer a sua posição respeitada. A voz do realismo europeu veio da Finlândia, com o presidente Alexander Stubb a alertar na quarta-feira que os finlandeses têm de se preparar para que as condições de paz não sejam justas.
E existem sinais de que a Europa está a apressar-se a encontrar uma solução para o dia de amanhã. Os 27 começaram agora a apostar num sistema de lasers para enfrentar ameaças cibernéticas russas e o CEO da empresa responsável pelo sistema, a Astrolight, falou com a CNN Portugal para explicar como é que funciona esta nova tecnologia que vai defender o continente.
Essa é, aliás, uma das principais urgências europeias, até porque os Estados Unidos fizeram saber, esta sexta-feira, que pretendem passar o comando da NATO para a Europa até 2027. Numa reunião entre representantes americanos e europeus, em Washington, a Europa foi avisada de que os Estados Unidos podem deixar de participar em alguns mecanismos de coordenação de defesa, devido à lentidão com que estão a rearmar. As delegações europeias presentes na reunião assumiram que a meta era irrealista, sublinhando que não basta ter dinheiro para comprar armas ou vontade política para substituir as capacidades norte-americanas num prazo tão curto. Mas o tempo é um luxo que a Europa deixou de ter. — João Guerreiro Rodrigues
As ameaças de Putin e a impreparação da UE
Na entrevista desta semana, e no rescaldo das declarações de Putin sobre a Rússia estar "pronta" para entrar em guerra com a Europa, José Azeredo Lopes afasta a hipótese de uma invasão terrestre para lá da Ucrânia. "Não consigo antever realisticamente que a Rússia tenha qualquer capacidade para atacar a Europa", diz o homem que se ocupou da pasta da Defesa entre 2015 e 2018.
Para o ex-ministro português, as ameaças do presidente russo devem ser lidas noutro contexto, o de "nos dissuadir de começarmos a ter uma voz mais musculada", até porque foram declarações proferidas "depois de a NATO ter admitido a hipótese de ações preventivas perante a guerra híbrida da Rússia".
No atual contexto, considera ainda, a grande questão a que temos de dar resposta é apenas uma: "O que fizemos, em três anos e meio, quase quatro anos de guerra, para nos prepararmos? O que é que de relevante fizemos para preparar a nossa defesa?"
A resposta vem logo a seguir. "Acho extraordinário que não tenhamos dado passos decisivos para mudar a nossa ação externa" desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, faz em fevereiro quatro anos. Falta união na UE, sobretudo em matéria de Defesa, e nem para garantir financiamento para Kiev se defender das forças russas no terreno conseguimos alcançar consensos, destaca ainda Azeredo Lopes.
"Eu sou muito crítico do confisco dos bens russos – mas vejamos, nesse caso estamos a falar de um esforço financeiro de aproximadamente 1% do PIB europeu nos próximos dois aos. Se não conseguimos, ao fim de mais de meio ano, e numa questão crucial para a nossa existência, prescindir de 1% da nossa riqueza, permito-me duvidar da eficiência do modelo que estamos a desenhar."
Pode ler a entrevista completa aqui.