A 15 pontos da paz ou de um inferno que nos deixa a carteira ainda mais a arder
Estamos a dez exigências e cinco cedências de acabar a guerra, mas também estamos a cinco condições de ficar mais longe desse fim. A matemática foi introduzida pelo presidente dos Estados Unidos, que decidiu começar a negociar com o Irão, suspendendo todos os ataques a infraestruturas energéticas do inimigo enquanto as conversas decorrem.
Foi assim que o prazo de 48 horas dado no fim de semana passado para abrir o Estreito de Ormuz se transformou em algo completamente diferente. O espaço por onde passava um quinto do petróleo mundial continua fechado a quem o Irão não quer deixar passar - navios tailandeses foram autorizados, por exemplo, mas europeus não -, mas aquilo que era prioridade para Donald Trump parece ter deixado de o ser.
Agora interessa é acabar com a guerra, até porque os iranianos são maus a lutar, mas são bons a negociar. Foi mais ou menos assim que o presidente norte-americano vendeu a ideia, falando cerca de uma hora seguida sobre todos os assuntos possíveis, enquanto o seu gabinete ia sorrindo e acenando, até mesmo o secretário de Defesa, Pete Hegseth, que foi meio que enxovalhado horas antes pelo seu próprio presidente.
Obliterado, neutralizado, destruído para 10 anos, o Irão transmite poucas sensações oficiais de que quer mesmo o fim da guerra e nem o plano de 15 pontos enviado pelos Estados Unidos através do Paquistão parece ter amenizado a questão, com uma estratégia a três frentes a ter resultados, pelo menos para já. Entre acusações de crimes de guerra pelo ataque que matou mais de 160 meninas em Minab e troças a Donald Trump nas redes sociais - a narrativa oficial é que as negociações só acontecem por “medo” -, Teerão mostrou que a paz pode ser mais difícil de alcançar do que se espera.
Depois de horas e horas a negar a existência de conversações, o Irão lá admitiu que elas estão mesmo a acontecer, com Paquistão, Egito e Turquia a tornarem-se fulcrais neste cenário, trabalhando a todo o gás para que uma reunião presencial possa ocorrer ainda este fim de semana, provavelmente em Islamabade.
Exigências vs cedências
Exigências:
- O Irão deve desmantelar as suas capacidades nucleares atuais;
- O Irão deve comprometer-se a nunca prosseguir com o desenvolvimento de armas nucleares;
- Não haverá enriquecimento de urânio em território iraniano;
- O Irão deve entregar o seu stock de cerca de 450 quilos de urânio enriquecido a 60 por cento à Agência Internacional de Energia Atómica (AlEA)
- As instalações nucleares de Natanz, Isfahan e Fordow devem ser desmanteladas;
- A AIEA, o organismo de vigilância nuclear das Nações Unidas, deve receber acesso total, transparência e supervisão dentro do Irão;
- O Irão deve abandonar o seu "paradigma" de ter aliados regionais por procuração [como o Hezbollah, o Hamas ou os Houthi];
- O Irão deve cessar o financiamento, a direção e o armamento destes representantes regionais;
- O estreito de Ormuz deve permanecer aberto e funcionar como um corredor marítimo livre;
- O programa de mísseis do Irão deve ser limitado tanto em alcance como em quantidade, com limiares específicos a determinar numa fase posterior;
Cedências:
- Qualquer uso futuro de mísseis ficará restrito à autodefesa;
- O Irão receberá o levantamento total das sanções impostas pela comunidade internacional;
- Os Estados Unidos ajudarão o Irão a desenvolver o seu programa nuclear civil, incluindo a produção de eletricidade na central nuclear de Bushehr;
- O chamado mecanismo de "reversão automática" (snapback), que permite a reposição imediata de sanções caso o Irão não cumpra o acordo, será eliminado.
Entre a paz e o Inferno
Do lado norte-americano, que se está a deparar com um elevado custo da guerra, serão o vice-presidente e o secretário de Estado os rostos principais, enquanto do lado do Irão não resta muito por onde escolher: avançam assim o ministro dos Negócios Estrangeiros e o presidente do parlamento, já que “não há mais opções”, porque todos os outros líderes estão mortos.
A garantia foi dada pelo Paquistão, que num dos primeiros esforços de mediação pediu aos Estados Unidos que intercedessem junto de Israel para que retirasse Abbas Araghchi e Mohammed Bagher Ghalibaf da lista de alvos. Caso fossem mortos estes líderes, como foram tantos outros desde 28 de fevereiro, “não haveria mais ninguém para negociar” a paz.
A aceitação de Israel deste pedido, que também tem prazo - Telavive disse que concordava por quatro ou cinco dias -, mostra alguma boa vontade, mas são os nomes, sobretudo a apresentação como sendo os únicos capazes para executar a tarefa, que dão uma indicação importante. É que o Líder Supremo não parece ser visto nem achado no meio da diplomacia. Ainda esta sexta-feira o Irão garantiu que está vivo e de “plena saúde”, mas Mojtaba Khamenei continua por ser visto e quem não o quer ver de todo são os Estados Unidos, que o relegaram para uma posição insignificante ao confirmarem a existência de conversas com outras pessoas.
A pausa nos ataques energéticos é agora até 6 de abril, cerca de 10 dias, mas será que chegamos lá? Para já a proposta foi oficialmente recusada pelo Irão, que às dez exigências dos Estados Unidos respondeu com as suas próprias exigências, neste caso cinco.
A CNN Portugal publicou um artigo de análise sobre aquela que é a maior possibilidade militar caso as negociações não resultem. Uma ilha pouco maior que o Corvo que alimenta todo o Irão em termos energéticos.
Falamos de Kharg, claro, perdida no meio do Golfo Pérsico, já bem para lá do Estreito de Ormuz, o que faz com que qualquer operação militar seja revestida de elevada complexidade.
Trata-se de uma das quatro opções militares em cima da mesa, de acordo com o portal Axios. Todas as outras também envolvem as chamadas boots on the ground, numa escalada definitiva que seria necessariamente custosa para os Estados Unidos e, em ano de eleições intercalares, em particular para Donald Trump, que marcou os últimos meses pelo intervencionismo externo, quando à sua base MAGA tinha prometido fazer diferente.
Para ter todas essas opções em cima da mesa, os Estados Unidos acumulam militares de toda a espécie na região. Desde fuzileiros a paraquedistas, há milhares a caminho da zona para qualquer que seja a ordem.
Não é bluff de Donald Trump, prometeu a porta-voz da Casa Branca, que ameaçou “desencadear o inferno” caso o Irão não se aproxime dos Estados Unidos nas negociações. “O presidente Trump não está a fazer bluff e está preparado para desencadear o inferno. O Irão não deve cometer outro erro de cálculo”, referiu Karoline Leavitt.
Como disse à CNN Portugal Houssein al-Malla, investigador doutorado do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (GIGA), em Hamburgo, “guerras como esta não terminam com vitórias decisivas, mas com narrativas de sucesso construídas sobre resultados incompletos".
E isso alerta, ainda segundo o especialista, para a possibilidade de este conflito não terminar aqui, mesmo que se anuncie um cessar-fogo e até a paz. Basta lembrar como a Guerra dos 12 Dias, que aconteceu nem há um ano, tinha “destruído” completamente as capacidades nucleares do Irão, precisamente a mesma razão pela qual estamos novamente aqui.
Os quilómetros que nos tiram dinheiro
O preço do petróleo é dinâmico e o preço dos combustíveis dinâmico é. Nem numa situação normal podemos garantir que o aumento ou a descida no que pagamos por gasolina e gasóleo vai ser este ou aquele.
Em contexto de guerra, ainda para mais numa que afeta a produção mundial do chamado ouro negro, essa previsão torna-se ainda mais problemática, para não dizer mesmo impossível, ainda que se faça um acompanhamento à hora da evolução do preço.
O problema já o conhecemos, é o Estreito de Ormuz, são aqueles curtos quilómetros entre um país em guerra e vizinhos por onde não passam navios, ou só passam os que o Irão quer.
De pouco adianta que Israel e Estados Unidos tenham anunciado a morte do comandante da Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica, o homem responsável por este encerramento, porque a guerra do Irão faz-se claramente menos de figuras e mais de planos e da sua execução.
Minas, mísseis e quilómetros de costa. Essas são três armas a favor do Irão que tornam qualquer operação para controlar o Estreito de Ormuz sem consentimento do Irão um verdadeiro quebra-cabeças.
E enquanto o Irão conseguir manter esse puzzle de pé dificilmente a energia vai voltar a fluir do Médio Oriente como fluía até 28 de fevereiro. Nem é só o petróleo, mas também o gás natural, até porque basta pensar que o Catar, por exemplo, é um dos maiores produtores mundiais deste combustível fóssil.
Isso mesmo levou o CEO da Shell a lançar um alerta: a Europa tem de se preparar para começar a ter escassez de energia já no fim de abril. As palavras de Wael Sawan até começaram por passar despercebidas, mas rapidamente tomaram outras proporções, enquanto vários governos europeus vão anunciando medidas como a limitação de venda de combustíveis.
Portugal não será tão prejudicado, como explicou António Costa Silva à CNN Portugal, mas o Governo devia tomar medidas o quanto antes para evitar que qualquer cenário mais grave chegue cá também. É que num cenário negro deixamos de falar de ter de pagar mais para falar de falta de combustível nas bombas ou até de eletricidade em casa.
Foi neste cenário que o Governo anunciou 150 milhões de euros em medidas para apoiar população e empresas, embora uma redução do IVA esteja fora de cenário.
Se na Europa ainda só vemos o susto, noutros países a realidade já é essa. As Filipinas, de onde foi tirada a fotografia acima, declararam emergência energética com medo que os combustíveis não cheguem para tudo.
A guerra dentro da guerra
Ao lado da guerra há uma outra guerra, essa até mais convencional, já que é possível ver os tanques e os soldados no terreno.
No Líbano já morreram mais de duas mil pessoas e centenas de milhares foram obrigadas a deixar as suas casas. A UNICEF alertou esta sexta-feira que não há nenhum lugar seguro num país onde vivem cerca de seis milhões de pessoas. E se o grande problema está a sul, nomeadamente nas margens do rio Litani, onde Israel se prepara para intensificar as operações contra o Hezbollah, nem na capital, Beirute, há segurança.
São 19 mil crianças afetadas a cada dia, enquanto as Forças Armadas de um país lutam contra um grupo armado escondido no meio das cidades.
Mesmo com a morte de quatro soldados e os pedidos de pais desesperados por verem os filhos numa guerra em que se “sacrificam”, Israel não faz tenção de abrandar, bem pelo contrário, tendo ordenado já esta semana o destacamento de mais soldados e a criação de uma zona-tampão em pleno Líbano.
Quem está a ganhar a guerra
Se formos à análise de Hanna Ziady para a CNN, a reposta é fácil: é a Rússia. E a resposta é a mesma para as duas guerras, aquela em que Moscovo combate ativamente, mas também a outra, em que ajuda, mas beneficia ainda mais.
Não é só o petróleo, não é só o desviar das atenções para outro conflito nem são apenas as armas que a Ucrânia arrisca deixar de receber porque os Estados Unidos precisam delas noutro lugar.
Como confessou o presidente da Ucrânia no fim de semana passado, as negociações de paz estão paralisadas e há uma única razão para isso. "Veem que as nossas reuniões diplomáticas, reuniões trilaterais, são constantemente adiadas. Há uma razão: a guerra no Irão", disse Volodymyr Zelensky à BBC.
"Putin quer uma guerra longa. Para Putin, uma guerra longa no Irão é uma vantagem", acrescentou, uma vez que a subida dos preços do petróleo e a suspensão das sanções americanas a alguns tipos de crude russo beneficiam a economia da Rússia.
Já em casa, os ucranianos veem o bom tempo regressar e o gelo a derreter nos campos, o que significa algo há muito esperado: uma ofensiva russa para avançar decisivamente onde é preciso avançar, o Donbass.
“Com a mudança das condições meteorológicas, o atacante russo aumentou a pressão em vários troços da frente”, ainda antes da entrevista de Volodymyr Zelensky, com alguns ucranianos a admitirem a existência de um mau pressentimento.
Apesar disso, a capacidade ucraniana ainda vai chegando para “moer” os russos. Como explicou no podcast Fúria Épica Sérgio Furtado, jornalista da CNN Portugal que passou grande parte dos últimos anos na Ucrânia, a linha da frente pouco se tem alterado, até porque a tecnologia, nomeadamente os drones, impede quaisquer avanços de tanques no terreno.
Talvez para antecipar isso, o presidente da Ucrânia admitiu pela primeira vez, ainda que a claro contragosto, que o país pode mesmo ter de deixar fugir Donetsk e Lugansk, os objetivos que a Rússia persegue desde 2014, embora oficialmente apenas desde 2022.
Em entrevista à agência Reuters, Volodymyr Zelensky sinalizou que os Estados Unidos veem isso como uma cedência obrigatória para poderem dar garantias de segurança.
Quanto à Europa, percebendo que corre o risco de voltar a ficar sozinha neste apoio, até porque há 750 milhões de euros em armamento norte-americano que deviam vir para a Ucrânia mas vão parar ao Médio Oriente, procura pressionar os Estados Unidos a apertarem as sanções à Rússia.
A primeira ronda de pressão aconteceu esta sexta-feira num velho castelo de França, com o G7 a receber o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, à procura de garantir que Kiev não cai.