Promovem a supremacia branca, recuperaram o slogan da Juventude Hitleriana e há muito tempo que estão em Portugal. Apesar do seu nome ter sido retirado da versão final do Relatório Anual de Segurança Interna de 2024, ele já constava de relatórios anteriores. A vítima desta vez foi um ator, Adérito Lopes, da companhia de teatro A Barraca. Português nascido e criado. O agressor é um jovem de 20 anos que fará parte do movimento "Portugueses Primeiro", criado e liderado por um dos arguidos - julgado e condenado - pela morte de Alcino Monteiro a 17 anos de prisão. Dia 10 de junho fez 30 anos que Alcino Monteiro foi agredido, tendo morrido dois dias depois
A organização extremista internacional de direita "Blood and Honour" foi notícia em abril passado por ter sido eliminado do Relatório Anual de Segurança Interna de 2024, um subcapítulo sobre movimentos extremistas e ameaças híbridas em Portugal, que constava no documento provisório e que fazia referência à sua presença em Portugal. A CNN Portugal, na altura, questionou o Ministério da Administração Interna sobre a eliminação deste capítulo, mas nunca obteve resposta.
Agora voltam a ser notícia devido a uma agressão ao ator Adérito Lopes, da companhia de teatro A Barraca. Português nascido e criado. O ator foi agredido terça-feira à noite, dia 10 de junho, por um elemento de um grupo de extrema-direita quando entrava no teatro para realizar um espetáculo. Foi para o hospital e, neste momento, já se encontra a recuperar em casa com vários ferimentos na cara. A sua agência confirmou à CNN Portugal que o ator esteve em tratamento e observação no Hospital de São José, tendo levado "bastantes pontos" no rosto. Encontra-se atualmente em casa a recuperar e "muito assustado com tudo o que aconteceu", adiantou ainda.
Recorde-se que na passada terça-feira, dia 10 de junho, fez 30 anos que um cidadão português, chamado Alcindo Monteiro, nascido no Mindelo, Cabo Verde, foi brutalmente atacado por um grupo de neonazis, acabando por morrer dois dias depois. Segundo avança o jornal Público, as imagens reveladas deste grupo, de cerca de 30 pessoas, mostram pelo menos dois elementos da organização internacional, com representação em Portugal, a afastar-se do local, ou seja, da zona do teatro.
Segundo avança a SIC Notícias, o agressor do ator faria parte de um grupo extremista intitulado "Portugueses Primeiro". Este terá sido criado há cerca de dez anos e consideram-se um grupo identitário e etnonacionalista. Apesar de terem poucos membros, permanecem ativos nas redes sociais. O movimento é liderado por João Martins, um dos arguidos da morte de 1995 de Alcindo Monteiro e que foi condenado a 17 anos de cadeia.
Logo nessa noite, a polícia conseguiu intercetar o autor das agressões, junto ao largo de Santos. O suspeito tem 20 e foi formalmente identificado, mas a investigação vai prosseguir. Momentos antes do ataque esteve num convívio do grupo neonazi "Blood and Honour", que se juntou num restaurante, a poucos metros do teatro. Neste encontro marcaram presença membros de vários grupos de extrema-direita em Portugal.
Imagens de videovigilância a que a CNN Portugal teve acesso mostram vários membros do grupo a passar no local, incluindo o agressor.
Junto ao teatro A Barraca, a CNN Portugal falou com uma das testemunhas das agressões. Tudo terá começado com uma troca de palavras com uma das atrizes do elenco, quando Adérito Lopes ainda nem estava no local. Quando chegou, pouco depois, foi imediatamente agredido.
"O meu colega chegou, saiu do carro, cumprimentou-nos e, assim que estava a cumprimentar um outro colega, encostaram a cabeça à dele, deram-lhe um soco com a mão direita", aponta, falando em provocações e em discurso de ódio com motivação política.
Uma outra pessoa que estava na zona conta que uma das atrizes tinha uma t-shirt com uma estrela vermelha. "Este indivíduo parece que se sentiu ameaçado por uma atriz de 1,60 metros", aponta, lembrando provocações, nomeadamente envolvendo o nome de Che Guevara e a sugestão da utilização de bombas.
E é neste cenário, já de muita tensão, que chega Adérito Lopes, que tentou serenar os ânimos. "Foi atacado por um desses indivíduos com um soco à traição", continua esta testemunha, sugerindo a utilização de uma soqueira, o que ajudou a uma fratura na cara da vítima.
Na noite de 10 de junho de 1995, Alcindo Monteiro apanhou o barco do Barreiro para Lisboa, ia para o Bairro Alto. Foi interceptado e violentamente espancado por um grupo de nacionalistas skinheads, na zona do Chiado, vindos de um jantar comemorativo do Dia da Raça, designação dada durante o Estado Novo ao Dia de Portugal, celebrado a 10 de Junho. 30 anos depois o grupo volta a concretizar uma agressão no dia de Portugal. Felizmente, desta vez, sem um fim trágico.
Mas que movimento neonazi é este? Como e onde nasceu?
A organização extremista internacional de direita "Blood and Honour" (Sangue e honra, na tradução), que recuperou o slogan da Juventude Hitleriana, nasceu em 1987, no Reino Unido, fundada por membros de uma banda de música. Na versão provisória do Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2024 havia uma referência ao grupo - sem identificar o nome -, apontando a existência de alguns elementos em território nacional. Apesar de ser considerada uma organização terrorista em vários países, tendo sido alvo de sanções financeiras por financiamento de terrorismo, em Portugal isso não acontece.
A presença destes elementos em Portugal não é de agora e este não é o único grupo ativo no país. Na verdade, o relatório anual de 2019 da Europol sobre a situação e tendências do terrorismo na União Europeia já alertava para a ação de três grupos: “Em Portugal, o Blood & Honour, o Portugal Hammer Skins e o recém-criado movimento neonazi Nova Ordem Social estão ativos tanto a nível nacional como internacional”. Sendo que estes dados eram referentes ao ano de 2018. No caso do último, o grupo está associado a Mário Machado, conhecido por várias conotações ao neonazismo.
Ao que a CNN Portugal apurou, junto de alguém que conhece a sua forma de atuação, estes grupos são vigiados de perto sempre que há manifestações ou se realizam eventos. As autoridades acabam por acompanhar de perto os membros mais ativos e seguir de perto os seus movimentos. No entanto, nem sempre é possível prever atuações agressivas.
Segundo o documento preliminar do RASI, que teve um versão final diferente, podia ler-se que esta organização promove habitualmente encontros internacionais sob a forma de eventos musicais que funcionam como um meio privilegiado para partilha de experiências e potencial radicalização e recrutamento de militantes de extrema-direita. E que a inexistência de uma posição comum, sobretudo a nível da União Europeia, relativamente a este tipo de grupos extremistas, pode criar espaços mais seguros para o desenvolvimento das suas atividades, recorrendo muitas vezes à deslocalização dos seus membros.
O relatório preliminar alerta ainda que ainda existem os tradicionais movimentos skinheads de supremacia branca e matriz neonazi, caracterizados pelas suas ações de rua e violência, mas que estes não são tão apelativos quanto os novos movimentos nacionalistas de extrema-direita com forte presença online e líderes carismáticos que atuam como verdadeiros influencers.
E que isso acontece porque estes assumem como bandeiras do seu discurso ideológico temas que impactam transversalmente a sociedade de uma forma geral, e que vão desde as teorias conspirativas da Islamização da Europa (Teoria da Grande Substituição) até à insegurança provocada pelos fluxos migratórios e consequente necessidade de colocar em marcha uma ação de remigração, passando pelas questões da liberdade de ideologia de género e a necessidade de garantir os padrões de uma sociedade conservadora, sobretudo ao nível da educação das crianças.
O relatório preliminar considera ainda que as plataformas online têm sido o palco privilegiado de atuação dos movimentos descentralizados de extrema-direita de matriz aceleracionista e/ou satânica, onde, através de uma cultura de comunicação através de memes, recrutam e radicalizam indivíduos cada vez mais jovens, muitos deles com idades inferiores a 16 anos.
De relembrar ainda que o subcapítulo sobre movimentos extremistas, que não constava no documento final, não referia apenas movimentos extremistas de direita. Havia também considerações sobre a "extrema-esquerda/movimento anarquista; Movimentos negacionistas/antissestema/anti-governo e ameaças híbridas". Todos, no entanto, com menos impacto junto do público e menos influência entre os mais novos.
A decisão final de retirar este subcapítulo terá sido tomada pelo secretário-geral do Sistema de Segurança Interna. Um orgão do Estado, que responde diretamente ao primeiro-ministro e com autonomia para tomar estas decisões. Paulo Vizeu Pinheiro era o nome que ocupava o lugar em parte do ano, mas em agosto de 2024 pediu para sair da função para assumir um cargo na NATO. Acabou por ser substituído interinamente pelo chefe de gabinete do SSI. Só em novembro de 2024 foi avançado que a procuradora da República Patrícia Ferreira Barão iria assumir o cargo de secretária-geral do Sistema de Segurança Interna.
O Ministério Público confirmou, entretanto, a abertura de um inquérito para investigar a agressão contra o ator Adérito Lopes.