Campos Fernandes: "Houve em todas as fases da pandemia uma atração mais pelo espetáculo"

8 jan, 13:48

O ex-ministro da saúde Adalberto Campos Fernandes e o antigo diretor-geral da Saúde Francisco George debateram a comunicação que tem sido feita sobre a pandemia em Portugal e não hesitaram em apontar críticas

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Numa altura em que Portugal bate recordes de novos casos de infeção por SARS-CoV-2, mas que esse crescimento não tem resultado num aumento do número de internados, sobretudo em unidades de cuidados intensivos, e óbitos, o antigo ministro Adalberto Campos Fernandes destaca a importância de mudar a forma como se tem comunicado a pandemia, fazendo até uma referência à rubrica Melhor ou Pior da CNN Portugal, que compara os números atuais aos verificados no mesmo período do ano passado.

Passados dois anos, temos muito para debater e refletir”, disse Adalberto Campos Fernandes, antigo ministro da saúde, referindo-se sobretudo à comunicação que tem vindo a ser feita da pandemia. 

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“Houve em todas as fases da pandemia uma atração mais pelo espetáculo e menos pela comunicação”, lamentou, em declarações ao Fontes Bem Informadas, que contou também com a participação de Francisco George, antigo diretor-geral da Saúde.

“Somos todos responsáveis por algum tipo de especulação”

Para Adalberto Campo Fernandes, “não é normal que ao longo de um ano as principais novidades sobre o processo de vacinação ou dados de evolução da pandemia” tenham sido anunciadas por um comentador televisivo e não pelas entidades competentes. O antigo governante criticou ainda o “ritual excessivo de reuniões do Infarmed”, fazendo a comparação com “grande parte dos países da Europa” que, defende, recorrem a grupos de especialistas que usam “menos esta mediatização”. “Ninguém duvida que não precisamos das reuniões do Infarmed para acreditar que o Governo trabalha com a comunidade científica”, disse, atirando que tais reuniões têm, a seu ver, uma “razão mediática”.

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Ainda em tom de crítica à forma como a pandemia tem sido comunicada, Adalberto Campos Fernandes não hesitou em dizer que “somos todos responsáveis por algum tipo de especulação, anunciamos o fim da pandemia, anunciamos a imunidade de grupo, anunciamos que éramos os melhores do mundo para uns meses depois sermos os piores do mundo”. O antecessor de Marta Temido atira que “esta oscilação, digamos, esta instabilidade do processo de comunicação acabou até por alimentar, num tempo que vivemos dominados pelas redes sociais, todo um tipo de confabulação, até de teorias contra a própria vacinação”.

Se tivéssemos alguma coisa a aprender, e esperemos que não tenhamos tão cedo uma nova pandemia, eu diria, falar menos vezes, ser mais assertivo do ponto de vista oficial, transmitindo confiança, não utilizando excessivamente o informalismo para comunicar assuntos sérios, porque (...) diminui a confiança”, lamentou, frisando que “na comunicação pandémica caímos muito na banalização daquilo que é o institucional”.

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Sobre este ponto da comunicação, o antigo diretor-geral da Saúde, Francisco George, voltou a tocar no ponto da comunicação, defendo que “no nosso país não tem sido a melhor, bem pelo contrário”, criticando o facto de os políticos falarem “do que não devem falar”, mais concretamente de informações de carácter científico.

É preciso mudar a abordagem, diz Francisco George

“Não podemos ignorar que há aspetos que estão mal equacionados”, disse Francisco George, referindo-se ao foco do número de novos casos, que continua a ser a bitola da comunicação e da tomada de medidas. 

“Um teste positivo não significa doença”, frisou o antigo diretor-geral da Saúde, explicando que “a maioria dos casos comunicados e anunciados não são casos”, pois apenas é tida em conta a abordagem laboratorial (teste positivo) e não clínica (doença causada pela infeção, a covid-19). “São infeções que não têm tradução clínica em termos de quadros clínicos”, afirmou, lamentando depois que “devíamos ter aprendido mais”.

O que devíamos fazer em termos de comunicação era focar a nossa atenção em função da evolução das camas ocupadas por doentes covid, camas em unidades de cuidados intensivos”, explicou.

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