As alterações climáticas estão a tornar os furacões mais intensos - e os Açores estão na mira. Um explicador

22 set, 08:00
Tempestade tropical Gaston

Mais chuva, mais vento e mais destruição: o aquecimento global já está a ter impacto na formação de tempestades, que se preveem também mais frequentes nos Açores (e Gaston pode ser prova disso)

Se a temporada de furacões no Atlântico tinha começado de forma tranquila, a passagem do Fiona deixou um rasto de destruição na região do Caribe: mais de um milhão de pessoas sem água canalizada nem energia elétrica e várias vítimas a registar.

Este é, contudo, um cenário que se tem desenhado cada vez mais frequentemente. E, embora os cientistas ainda não tenham determinado se as alterações climáticas influenciaram a força ou o comportamento deste furacão em concreto, há fortes evidências de que as tempestades tropicais devastadoras estão a piorar ano após ano.

Segundo explica o investigador Pedro Garrett à CNN Portugal, as alterações climáticas estão a tornar os furacões mais húmidos, mais ventosos e mais intensos. Paralelamente, também há evidências de que o clima está a fazer com que as tempestades viajem mais lentamente, o que significa que podem "largar" mais água num só lugar, segundo noticia a agência Reuters. E o resultado já está à vista.

Inundações em Porto Rico após a passagem do furacão Fiona (EPA)

Como as alterações climáticas estão a alimentar os furacões

Comecemos pelo início. Para se formarem, os furacões precisam de dois ingredientes principais: água morna do oceano e ar húmido. Quando a água do mar quente evapora, a sua energia térmica é transferida para a atmosfera. Tal alimenta os ventos da tempestade, que acaba por se fortalecer. Sem isso, os furacões não se conseguem intensificar e vão desaparecendo.

É sabido que, se não fossem os oceanos, o planeta estaria muito mais quente devido às alterações climáticas. Aliás, nos últimos 40 anos, o oceano absorveu cerca de 90% do aquecimento causado pelas emissões de gases com efeito de estufa. Grande parte desse calor oceânico está contido perto da superfície da água. Mas é esse calor adicional que também pode alimentar a intensidade de uma tempestade e gerar ventos mais fortes.

Paralelamente, as alterações climáticas também podem aumentar a quantidade de chuva durante uma tempestade. Como uma atmosfera mais quente também pode reter mais humidade, o vapor de água acumula-se até que as nuvens acabam por se romper, resultando em chuvas fortes.

Mas vamos a exemplos: durante a temporada de furacões no Atlântico de 2020 – uma das mais ativas já registadas – as alterações climáticas aumentaram as taxas de chuva por hora em tempestades com força de furacão entre 8% a 11%, de acordo com um estudo publicado na revista Nature Communications em abril de 2022.

Segundo o investigador Pedro Garrett, por cada aumento de 1 grau de temperatura, aumenta também em 7% o valor da humidade na atmosfera - e isso potencia que os furacões fiquem mais intensos. Importa também referir que o mundo já aqueceu 1,1 graus Celsius acima da média pré-industrial.

Embora não haja ainda estudos que comprovem a relação entre as alterações climáticas e a frequência de furacões, o que "o que é certo é que quando acontecem são mais intensos e têm uma destruição maior", frisa o investigador.

A rota dos furacões está a mudar - com os Açores pelo caminho

A "estação" típica dos furacões está a mudar, uma vez que o aquecimento global cria condições propícias a tempestades em mais meses do ano. E os furacões também estão a atingir regiões distantes da norma histórica.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a Flórida é a região com mais furacões - com mais de 120 impactos diretos, quando um furacão atinge a terra, desde 1851, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA, na sigla em ingles). Mas, nos últimos anos, algumas tempestades estão a atingir o pico de intensidade e a chegar mais a norte do que no passado. Uma mudança em direção aos pólos pode estar relacionada com o aumento das temperaturas globais do ar e do oceano, indicam os cientistas citados pela Reuters.

O mesmo acontece em direção a este no Atlântico Norte, colocando o arquipélago português na rota das tempestades. Pedro Garrett cita um estudo sobre adaptação e mitigação das alterações climáticas nos Açores: as tempestades fazem o percurso de oeste para este - e a tendência é que façam um percurso mais longo. "Daí os Açores tornarem-se mais vulneráveis".

"Uma coisa identificada é uma maior frequência de tempestades tropicais nos Açores como efeito das alterações climáticas", afirma.

Leia também: factos relevantes sobre a época de furacões no Atlântico em 2022

Mais intensos e destrutivos

Ainda não é claro se as alterações climáticas estão a afetar o número de furacões que se formam a cada ano. Uma equipa de cientistas detetou recentemente um aumento na frequência de furacões no Atlântico Norte nos últimos 150 anos, de acordo com um estudo publicado em dezembro na Nature Communications, mas a investigação ainda está a decorrer.

"O que é certo é que quando acontecem são mais intensos e provocam uma destruição maior", frisa Pedro Garrett.

Quanto ao timing, a atividade de furacões é comum na América do Norte de junho a novembro, com pico em setembro. No entanto, as primeiras tempestades nomeadas a atingir a mesma região fazem-no agora mais de três semanas mais cedo do que em 1900, empurrando o início da temporada para maio, de acordo com um estudo publicado em agosto na Nature Communications.

A mesma tendência parece estar a ocorrer no resto do mundo: na Baía de Bengala (na Ásia), por exemplo, desde 2013 que os ciclones estão a formar-se mais cedo do que o habitual – em abril e maio –, antes das monções de verão, de acordo com um estudo de novembro de 2021 da Scientific Reports.

Ciclone, tufão, furacão - qual a diferença?

Embora tecnicamente sejam o mesmo fenómeno, as grandes tempestades recebem nomes diferentes dependendo de onde e como foram formadas.

As tempestades que se formam sobre o Oceano Atlântico ou no centro e leste do Pacífico Norte são chamadas de "furacões" quando as suas velocidades de vento atingem pelo menos 119 quilómetros por hora. Até esse ponto, são conhecidos como "tempestades tropicais".

Já no leste da Ásia, tempestades violentas que se formam no noroeste do Pacífico são chamadas de "tufões", enquanto os "ciclones" emergem sobre o Oceano Índico e o Pacífico Sul.

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