Este acordo, que prevê duplicar as exportações da UE para a Índia até 2032 e poupar ~€4 mil milhões/ano em direitos, que foi apelidado “mãe de todos os acordos”, pode e deve integrar uma estratégia mais ampla da União Europeia, na era trumpocêntrica
Este novo mandato de Donald Trump trouxe uma rutura decisiva na ordem internacional a qual assentava, sobretudo, na globalização económica de interdependência e no multilateralismo político segundo o primado do direito internacional. Com Donald Trump o que temos é uma nova doutrina: a interdependência e a lógica da relação entre Estados deram lugar aos negócios da família Trump, e os travões éticos que mantinham o frágil multilateralismo político deram lugar aos humores imperiais e narcísicos de Trump.
Assim, o Acordo entre a União Europeia e a Índia tem um peso económico e estratégico vital, traduzindo um corte nas tarifas na maioria das exportações para a Índia, uma abertura do mercado indiano aos automóveis e bebidas de produção europeia, ao mesmo tempo que há um melhor acesso a serviços na Índia (finanças, consultoria/engenharia, marítimos, digitais), com regras mais previsíveis e mobilidade temporária de profissionais mais simples, bem como cooperação tecnológica (semicondutores, 5G/6G, baterias, hidrogénio) que pode atrair investimento e fortalecer cadeias de valor e um auxílio europeu à transição energética para o Green Deal.
Este acordo tem uma dupla vertente estratégica: por um lado, abre uma frente de oportunidades comerciais e de impulso industrial europeu, escapando à dependência económica e estratégica dos Estados Unidos e, por outro, no plano político sinaliza a capacidade da União Europeia de equilibrar o jogo, abandonando a subserviência a Mar-a-Lago e sinalizando capacidade de autonomia política e económica. Isto é uma jogada vital para a UE – se for capaz de negociar diretamente com os vários players internacionais, não precisa de ficar na sombra/dependência de ninguém. Isto sim é reavivar o projeto europeu, numa altura em que tanto Trump quanto Putin estão igualmente empenhados na sua destruição.