Ao que parece, há um acordo entre a ByteDance e a administração americana para o futuro do TikTok, sabem quem não teve voto na matéria? Precisamente, os utilizadores desta rede social, o que não é novidade nenhuma, pois o utilizador nunca tem voto na matéria quando toca às redes sociais que usa e em especial nesta que corre o iminente risco de ser banida dos Estados Unidos. Isto leva-nos a pensar: será o TikTok uma aplicação lúdica, uma rede social para escapar à solidão dos dias de hoje, ou é um instrumento de política dos tempos modernos? Pois, eu creio seriamente que é esta última, pelo menos aos olhos de Mr. Trump.
Digo com muita confiança que nos dias de hoje já pouca coisa me surpreende dentro do mundo digital. Isto é, há, mas não surpreende, pois tudo é decidido sem que os principais ativos sejam envolvidos: nós. Com o TikTok não é diferente, pois este silêncio profundo dos últimos meses, sabendo que havia um prazo a correr para o fim, nada trouxe a lume ou pouco se soube para além da especulação dos canais de YouTube sobre conteúdo digital da especialidade. Eis que, perto do fim do prazo, agora em setembro, sob o chapéu das preocupações de segurança, preocupações de dados pessoais, dos outros, claro, e dentro de uma espécie de medo de que esta rede fizesse uma lavagem cerebral aos seus utilizadores, alguém se insurgiu e decidiu que a rede era uma ameaça para o American Way of Life.
Fonte: Agência Lusa
Não é novidade nenhuma que a atual administração americana, aquando da campanha para as presidenciais passadas, usou imensamente esta rede de uma forma quase nauseabunda, recorrendo aos truques que já se haviam aprendido com a Cambridge Analytica e serviu para a eleição do líder do MAGA. Após esta missão feita, haveria que perpetuar este modelo e, para isso, a rede passa a ser uma ferramenta essencial a manter debaixo de controlo e, portanto, aparecem todas as suspeitas, algumas com fundamento e outras sem tanto, de que estaria ou poderia ser usada para manipular o povo americano; aquele que até não era manipulável antes. Claro que este argumento não cola com a realidade total nestes moldes, mas o que é certo é que estamos prestes a ter um TakTok, um TrumpTok ou algo parecido.
Mas, o que está verdadeiramente em jogo aqui? Será o TikTok enquanto palco de danças virais ou vídeos cómicos? Será que é a forma como a publicidade vive dentro deste universo? Serão os dados pessoais que são tão importantes para quem os tem na mão? Não, meu caro leitor, na minha humilde opinião não. Trata-se do controlo de um dos maiores algoritmos que dita o que milhões de pessoas veem todos os dias e, com ele, a capacidade de moldar opiniões, comportamentos de consumo e até resultados eleitorais. Não é lavagem cerebral no estado clássico, é moldagem.
Façamos um exercício: onde andam os políticos e as máquinas de campanha normalmente a fazer ruído durante as campanhas? Nos jornais? Nas artérias das cidades? Não, esses são pouco ágeis e demoram muitas horas a sair para as ruas ou bancas, e o resultado é pouco mensurável. Mas uma série de publicações e uns quantos milhares de seguidores a partilhar incessantemente, ou insanamente, a mensagem, isso sim é ouro. Percebe-se agora o que nos era difícil de perceber há meses: o valor do TikTok e de outras redes do estilo para quem comanda os destinos do mundo. Que outra rede de massas falta agora estar fora da alçada dos Estados Unidos? Elementar, caro Watson.
Aqui chegados, o que vamos nós, comuns utilizadores desta plataforma, encontrar de diferente? Assim à primeira vista nada, mas à vista desarmada muito, pois este tipo de tecnologias permite fazer nudges à escala megalómana a qualquer tecido social e não sejamos ingénuos: vai acontecer, ou melhor, atrevo-me a dizer que continuará a acontecer, seja pela tentação de ajustar o algoritmo ou por deixar passar conteúdo que seja mais benéfico para outrem. Suspeito que qualquer jovem que abre o TikTok no intervalo da escola para ver uns vídeos de dança, a mãe que segue receitas rápidas para o jantar, o estudante universitário que procura dicas de estudo, ou até o profissional que usa a plataforma para dar visibilidade ao seu trabalho, todos eles ficam, como sempre, no lugar mais frágil: o de produto, no silêncio dos inocentes que, como explicava o Dr. Lecter, estão sempre em linha para o seu destino final. Em 2025 o tempo de atenção de cada um é moeda de troca, os dados pessoais são o petróleo refinado do século XXI e os gostos, as preferências e até as fragilidades individuais são peças num tabuleiro de xadrez. E como é que isto aconteceu (ainda que não oficialmente e com uma índole de desejo meu de que não aconteça)?
Silenciosamente. Sem qualquer consulta ou direito a opinião, sem sequer uma oferta pública aberta e global para compra de ações; sem qualquer aviso e, atrevo-me novamente a dizer, dificilmente com transparência. Os utilizadores são arrastados nesta disputa como figurantes num filme mudo, bem ao estilo das películas de índios e cowboys de 1920, enquanto em Washington e Pequim se decide quem fica com a chave do algoritmo e a posse das bases de dados. Recordo que informação é poder, e as bases de dados possuem muita informação e, por conseguinte, muito poder. O acordo de setembro não discute se o utilizador vai poder continuar a gravar vídeos de 30 segundos, mas sim quem decide o que ele vê, o que lhe é escondido e até que narrativa política pode ser disfarçada de entretenimento. É aqui que o perigo espreita. Não estou a gritar “lobo” nem a vender a ideia do medo, estou apenas a evidenciar o que é claro e que muitas vezes se esconde sob o aspeto lúdico destas plataformas que servem como escape à realidade mundana e cansativa de milhões de pessoas. As redes sociais já não são montras da vida dos outros; são instrumentos fundamentais de divisão ou de congregação.
Para mim, é aqui que subjaz o verdadeiro perigo: a instrumentalização de milhões de cidadãos que acreditam estar apenas a consumir entretenimento leve, quando na realidade participam num ecossistema profundamente político, controlado por forças que não prestam contas a quem mais importa: o utilizador. E enquanto continuamos a partilhar, a comentar e a deslizar o dedo no ecrã, ficamos com a sensação de liberdade digital, mas esquecemos que somos apenas mercadoria num mercado global onde dados e influência cultural valem mais do que petróleo.
No fim de contas, a questão que fica não é se o TikTok vai continuar disponível naquela loja ou na China ou nos Estados Unidos, ou até se a ByteDance vai ceder parte da sua quota a investidores ocidentais. A pergunta que realmente deveríamos estar a fazer é esta: até quando vamos permitir que a nossa vida digital, a nossa segurança ou, se preferirem, a nossa cibersegurança, seja decidida em mesas de negociações a milhares de quilómetros de distância, sem que tenhamos voz ativa na matéria e sendo relegados ao papel de produto embalado para consumo de dados e manipulação política?
