Apesar das incertezas, os preços do petróleo caíram significativamente após o anúncio, atingindo os valores mais baixos desde o início de março
“O acordo com a República Islâmica do Irão está agora concluído. Parabéns a todos!”. Foi desta forma que Donald Trump anunciou o fim imediato da guerra com o Irão, numa iniciativa que o presidente norte-americano apresentou como capaz de devolver estabilidade à região e ao mercado energético mundial. Apesar do entusiasmo demonstrado pelas partes, continuam por esclarecer vários aspetos centrais do memorando de entendimento, cujo texto final ainda não foi divulgado.
Uma das principais incertezas prende-se com o Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Donald Trump afirmou na noite de domingo que autorizava “a abertura sem portagens do Estreito de Ormuz” e o fim imediato do bloqueio naval dos Estados Unidos, defendendo que “os navios do mundo podem ligar os motores” e que “o petróleo pode fluir”.
Mais tarde, o presidente norte-americano salientou que a abertura desta rota estratégica dependeria da assinatura do acordo, prevista para esta sexta-feira, e que estaria ligada a operações de remoção de minas.
O primeiro-ministro do Paquistão, mediador do processo, não fez qualquer referência ao estreito no anúncio horas antes. Enquanto isso, a agência iraniana Mehr indicou que o memorando previa a reabertura da passagem em 30 dias sob “disposições iranianas”.
Por sua vez, os Estados Unidos já tinham defendido anteriormente que qualquer sistema de taxas sobre o tráfego marítimo seria inaceitável. Também Reino Unido, França, Alemanha e Itália sublinharam que a navegação deve ser livre e sem condições.
Apesar das incertezas, os preços do petróleo caíram significativamente após o anúncio, atingindo os valores mais baixos desde o início de março.
O Brent, referência mundial do petróleo, desceu 4,9% para 83,05 dólares por barril, tendo fechado no domingo no seu nível mais baixo desde 5 de março, a primeira semana dos ataques aéreos dos EUA e de Israel contra o Irão. O West Texas Intermediate, a referência do petróleo bruto dos EUA, desceu 5,4% para 80,30 dólares por barril. Ambos caíram cerca de 10 dólares na última semana.
A incerteza no Líbano
Um dos pontos mais sensíveis durante as negociações iniciais foi a inclusão, ou não, do Líbano no acordo.
Mas também aqui houve uma garantia, com o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano a afirmar que o fim das hostilidades se aplicaria a “todas as frentes, incluindo o Líbano”, palavras partilhadas igualmente pelo mediador paquistanês.
No entanto, Trump não mencionou o Líbano nas suas declarações iniciais, centrando-se sobretudo no Estreito de Ormuz.
Esta omissão pode ser problemática para Israel, que não participou nas negociações e não reagiu de imediato ao anúncio feito pelos EUA. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, poderá, segundo o The Guardian, ter interesse político em manter a pressão sobre o Irão e os seus aliados, incluindo o Hezbollah no Líbano.
O levantamento das sanções
Do ponto de vista económico, o acordo representa um primeiro alívio para Teerão. Durante o período de cessar-fogo de 60 dias, os Estados Unidos irão conceder ao Irão uma autorização especial para continuar a vender petróleo, uma medida que poderá permitir ao regime recuperar parte das receitas afetadas pelas sanções e pela guerra.
No entanto, os benefícios mais significativos ficarão dependentes da evolução das negociações nucleares. Segundo responsáveis norte-americanos, citados pelo Financial Times, qualquer levantamento mais abrangente das sanções, incluindo o desbloqueio de ativos iranianos retidos no estrangeiro, será implementado de forma gradual e apenas se houver progressos concretos nas conversações.
Washington descreve o entendimento como um acordo baseado no desempenho, o que significa que o acesso do Irão a novos benefícios económicos estará diretamente ligado ao cumprimento dos compromissos assumidos e aos resultados alcançados nas negociações.
“Estruturámos isto de forma a que, à medida que se constrói confiança e os iranianos cumprem o que foi acordado, recebam alívio económico”, explicou um alto responsável norte-americano citado pelo jornal.
O programa nuclear do Irão
O futuro do programa nuclear iraniano continua por resolver e permanece como um dos principais pontos em aberto do entendimento.
Trump reiterou que “o Irão nunca terá uma arma nuclear”, mas responsáveis paquistaneses indicaram que as negociações sobre o programa nuclear vão continuar durante os próximos 60 dias. O próprio presidente admitiu que poderão ocorrer novos ataques caso não seja alcançado um acordo.
Num comunicado conjunto com o grupo E4, composto por Reino Unido, França, Alemanha e Itália, foi referido que o levantamento de sanções dependerá de “passos claros e verificáveis” por parte do Irão.
Teerão insiste que o seu programa nuclear é pacífico e não se comprometeu publicamente a abdicar do urânio enriquecido.
Trump enfrenta ainda pressão política para alcançar um acordo mais sólido do que o de 2015, negociado durante a administração Obama, do qual os EUA saíram no seu primeiro mandato.
O destino do urânio enriquecido iraniano continua a ser um dos pontos-chave das futuras negociações.
"Avanço significativo": líderes mundiais saúdam acordo
Com a confirmação de que os Estados Unidos e o Irão tinham alcançado um entendimento, multiplicaram-se rapidamente as reações de várias figuras da política internacional.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, considerou o acordo uma boa notícia, afirmando, numa publicação na rede social X, que se trata do fim de uma guerra dispendiosa e do restabelecimento da liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. António Costa acrescentou ainda que os europeus estão disponíveis para contribuir para uma “paz duradoura” na região.
I welcome the agreement just announced between Washington and Tehran. I look forward to an end to this costly war and to the full restoration of freedom of navigation in the Strait of Hormuz.
I commend the tireless diplomatic efforts of all those who made this deal possible.…
— António Costa (@eucopresident) June 15, 2026
Também a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sublinhou que o acordo deverá permitir a “reabertura imediata” do estreito estratégico, defendendo que a prioridade passa agora pela sua rápida e total implementação por todas as partes.
Von der Leyen reforçou ainda que a liberdade de navegação deve ser garantida sem restrições, considerando-a essencial para a estabilidade regional e para a economia global.
No mesmo sentido, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, classificou o cessar-fogo como uma “boa notícia”, numa reação feita esta segunda-feira à rádio France Culture.
Enquanto isso, o governo português saudou o acordo alcançado entre os dois países, esperando que este possa ser o ponto de partida para uma paz duradoura na região.
Na mensagem publicada na rede social Facebook, o Ministério dos Negócios Estrangeiros “agradece a incansável mediação do Paquistão e os importantes contributos do Catar, da Arábia Saudita e da Turquia”.
Já o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, saudou o entendimento alcançado no domingo, considerando-o uma “etapa crucial” para uma solução pacífica do conflito. Guterres agradeceu ainda o papel de vários países mediadores, incluindo o Paquistão, e afirmou esperar que as partes aproveitem o momento para reforçar esforços rumo a uma resolução definitiva, com a ONU pronta a apoiar uma “paz duradoura e abrangente”.
Também o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, descreveu o acordo como um “avanço significativo”, ainda que tenha alertado que nada está garantido. Starmer mostrou-se confiante de que, com trabalho conjunto, o entendimento poderá evoluir para uma paz duradoura, objetivo partilhado por várias lideranças internacionais.
