Andámos vários meses até chegar a este ponto, mas as partes chegaram onde queriam. Agora vai ser criado um fundo de investimento que vai ajudar a recuperar a Ucrânia, sim, mas também vai dar dinheiro aos Estados Unidos
Estava feito, depois ameaçou cair à última da hora, já quando havia um avião em trânsito em direção a Washington, DC, mas o acordo de minerais entre Estados Unidos e Ucrânia está mesmo feito.
Feito e assinado, conforme anunciaram o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e o Ministério da Economia da Ucrânia, horas depois de uma comunicação interna entre ambos ter feito perigar tudo.
O acordo assinado é aquilo a que os Estados Unidos chamam de “parceria económica”, no que dá acesso a todos minerais e recursos naturais produzidos na Ucrânia.
É que, ao contrário do que propôs inicialmente, Donald Trump mudou a ficha para incluir também o gás natural e até a produção elétrica das centrais nucleares ucranianas, incluindo a gigante de Energodar, na região de Zaporizhzhia, atualmente nas mãos da Rússia. Não se sabe ainda ao certo quantas e que infraestruturas ficarão sob mão norte-americana.
Este acordo termina com semanas de frustração e negociações estagnadas, sobretudo depois da feia discussão em que Volodymyr Zelensky acabou humilhado em direto por Donald Trump e por JD Vance em plena Casa Branca no mês de fevereiro.
O acordo assinado estabelece, segundo o Departamento do Tesouro, um “fundo de investimento” para a reconstrução da Ucrânia. A ideia é, segundo os Estados Unidos, gerir um fundo que leve à reconstrução do país, sendo que também Washington, DC acabará a lucrar com isso.
Diz o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos que este acordo é assinado "em reconhecimento do significativo apoio financeiro e material que o povo dos Estados Unidos tem dado para defender a Ucrânia desde a invasão russa".
"Esta parceria económica posiciona os dois países para uma colaboração e investimento conjuntos para assegurar mútuos bens, talentos e capacidades que possam acelerar a recuperação da economia da Ucrânia", pode ler-se.
Isto porque o fundo vai dar acesso a empresas norte-americanas para ajudarem a Ucrânia no campo de energia, esperando-se que parte do dinheiro e da energia retirados da exploração dos recursos naturais também reverta a favor dos Estados Unidos.
De fora deste acordo ficam quaisquer pretensões russas, até porque aquilo que se prevê é bilateral e não envolve a Rússia. Por isso mesmo não vêm referidas questões como a adesão da Ucrânia à NATO, as fronteiras ou até a famigerada região da Crimeia, que Donald Trump já deu como certo que será russa.
O Departamento do Tesouro e a Corporação Financeira para o Desenvolvimento Internacional vão agora cooperar com a Ucrânia para finalizar um plano para gerir os minerais, também no sentido de avançar o que os Estados Unidos dizem ser uma “importante parceria”.
No mesmo comunicado lê-se ainda que o acordo assinala claramente à Rússia que a administração Trump está comprometida com um processo de paz centrado no cessar-fogo e numa Ucrânia soberana e próspera a longo prazo.
“Este acordo sinaliza claramente à Rússia que a administração Trump está comprometida com um processo de paz centrado numa Ucrânia livre, soberana e próspera a longo prazo”, afirmou Scott Bessent. “E para ser claro, nenhum Estado ou pessoa que financiou ou forneceu a máquina de guerra russa será autorizado a beneficiar da reconstrução da Ucrânia.”
Pontos de tensão
Um dos principais pontos de discórdia das negociações foi a questão das garantias de segurança - e se os Estados Unidos as forneceriam como parte do acordo. Trump recusou inicialmente essa possibilidade, afirmando que queria que a Ucrânia assinasse o acordo primeiro e falasse das garantias mais tarde.
Nessa altura, Zelensky descreveu o projeto de acordo como um pedido para “vender” o seu país. Desde então, as autoridades ucranianas indicaram que acreditavam que o investimento dos Estados Unidos e a presença de empresas americanas na Ucrânia fariam com que a administração Trump se mostrasse mais interessada na segurança da Ucrânia.
Pouco depois da conturbada visita à Casa Branca, Trump ordenou a suspensão da ajuda dos Estados Unidos à Ucrânia. Embora a ajuda já tenha sido restabelecida, o episódio tornou-se um importante alerta para os aliados europeus de Kiev, que se comprometeram a reforçar a ajuda ao país.
Trump tem apresentado o acordo como uma “retribuição” à Ucrânia pela ajuda que os EUA têm prestado à Ucrânia desde que a Rússia lançou a sua invasão total e não provocada do país em fevereiro de 2022. A formulação do acordo parece deixar isso bem claro.
Os pormenores do acordo não foram tornados públicos. No entanto, o primeiro-ministro da Ucrânia, Denys Shmyhal, disse no domingo que o acordo “não incluirá a assistência prestada antes da sua assinatura”.
Horas antes deste anúncio, o responsável descreveu o que ia ser assinado como “um acordo estratégico sobre o estabelecimento de um fundo de parceria de investimento”.
“É verdadeiramente um acordo internacional igual e benéfico sobre investimentos conjuntos no desenvolvimento e recuperação da Ucrânia entre os governos dos Estados Unidos e da Ucrânia”, acrescentou, ainda antes daquele último impasse que envolveu o avião.
“O lado americano pode também considerar a nova ajuda militar à Ucrânia como uma contribuição para este fundo”, sublinhou Denys Shmyhal, confirmando que a Ucrânia pretende, em grande parte, que o apoio militar seja uma garantia permanente a chegar de Washington, DC.
Riquezas minerais
Os aliados de Kiev há muito que estão de olho nas riquezas minerais do país. A Ucrânia possui depósitos de 22 dos 50 materiais classificados como críticos pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos.
Estes incluem minerais de terras raras e outros materiais que são essenciais para a produção de eletrónica, tecnologias de energia limpa e alguns sistemas de armamento. Falamos de titânio, mas também de grandes reservas de lítio, essenciais para produzir, por exemplo, baterias de carros elétricos.
A produção mundial de minerais de terras raras e de outros materiais estrategicamente importantes é há muito dominada pela China, deixando os países ocidentais desesperados por outras fontes alternativas - incluindo a Ucrânia.
Um memorando de entendimento preparado sob a administração Biden no ano passado dizia que os Estados Unidos promoveriam oportunidades de investimento em projetos mineiros ucranianos para empresas americanas em troca da criação de incentivos económicos por parte de Kiev e da implementação de boas práticas comerciais e ambientais.
A Ucrânia já tem um acordo semelhante com a União Europeia, assinado em 2021.