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Economista; Professor Associado e Coordenador na Universidade Europeia; Investigador Integrado no CETRAD

A UE na era da economia asiática

29 jan, 12:03

O recente acordo comercial entre a União Europeia e a Índia não é apenas um marco bilateral. É, sobretudo, um ensaio geral para aquilo que poderá vir a definir a próxima fase da globalização europeia. A UE deve ter a capacidade de construir parcerias económicas estratégicas com os grandes motores do crescimento mundial. Nesse contexto, a China surge não como um detalhe lateral, mas como o verdadeiro teste à ambição económica da União Europeia.

A pressão protecionista vinda dos Estados Unidos acelerou uma mudança que já estava em curso. Em vez de depender excessivamente de um único eixo transatlântico, a UE começa a olhar para Oriente com maior pragmatismo. O acordo com a Índia mostra que abrir mercados, aprofundar a especialização económica e explorar vantagens comparativas continua a ser uma estratégia vencedora num mundo fragmentado.

É precisamente essa lógica que torna um eventual acordo com a China tão relevante. A economia chinesa continua a desempenhar um papel central nas cadeias globais de valor, seja na indústria transformadora, na energia, na logística ou nas tecnologias limpas. Para a Europa, uma relação económica mais estruturada com Pequim permitiria reforçar o acesso a escala, reduzir custos, estabilizar cadeias de abastecimento e criar novas oportunidades para setores onde a UE é particularmente competitiva, como a engenharia, os serviços avançados, a indústria verde e a inovação tecnológica.

Apesar das reservas políticas existentes, cresce dentro da União Europeia a consciência de que isolamento não é estratégia. Países com forte vocação exportadora e industrial sabem que manter canais económicos abertos com a China é essencial para preservar competitividade. A cooperação em áreas como clima, energia e transição digital mostra que interesses económicos e objetivos estratégicos podem coexistir.

A lógica económica é clara e antiga. Quando cada bloco se concentra no que faz melhor, todos beneficiam. A Europa oferece tecnologia, regulação, capital humano e estabilidade institucional. A China aporta escala, capacidade produtiva, investimento e integração logística global. Um acordo bem desenhado não significaria dependência, mas sim interdependência inteligente.

Num momento em que o centro da economia mundial se desloca rapidamente para a Ásia, a União Europeia enfrenta uma escolha decisiva. Pode fechar-se e aceitar um papel secundário no crescimento global, ou pode usar acordos comerciais como instrumentos estratégicos para continuar relevante. O entendimento com a Índia foi um passo firme. Um eventual acordo com a China poderá ser o passo verdadeiramente transformador.

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