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O impacto invisível de testemunhar violência: o que fazer após um trauma

CNN , Sarah Dewberry
7 jun, 11:00
As autoridades responderam a um incidente de fúria ao volante na Autoestrada Interestadual 495, perto de Washington, DC, a 1 de março, que causou a morte de uma mulher e de um cão. WJLA
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Testemunhar violência ou acontecimentos traumáticos pode ter consequências psicológicas duradouras. Especialistas em trauma explicam que falar sobre a experiência, escrever sobre o sucedido, procurar apoio terapêutico e praticar técnicas de autocuidado são passos fundamentais para reduzir o risco de stress pós-traumático e promover a recuperação emocional

Os automóveis travaram bruscamente na Autoestrada Interestadual 495, perto de Washington, DC, depois de um homem ter esfaqueado quatro pessoas num ataque que provocou a morte de uma mulher e de um cão na via rápida.

O momento caótico ocorreu no condado de Fairfax, a 1 de março, pouco depois das 13:00, quando um agente da Polícia Estadual da Virgínia respondeu a uma chamada relacionada com um episódio de fúria ao volante após um acidente rodoviário, conforme a CNN noticiou.

No local, o agente deparou-se com um suspeito do sexo masculino empunhando uma faca e acabou por disparar sobre ele em legítima defesa, revelaram as autoridades em comunicado.

“Um agente saiu da viatura e disparou imediatamente sobre ele — pelo que vi, pelo menos duas ou três vezes”, contou à CNN uma testemunha ocular que pediu para não ser identificada por motivos de privacidade. “Nessa altura comecei a gritar e desliguei a chamada com o meu primo. Liguei para o 911 enquanto tentava perceber o que estava a ver.”

Testemunhar diretamente um acontecimento violento e horrível pode parecer algo raro. No entanto, um estudo de junho de 2025 concluiu que 64% dos adultos nos Estados Unidos tiveram algum tipo de exposição presencial à violência armada. O relatório revelou também que os adultos negros e hispânicos enfrentam riscos significativamente mais elevados do que os adultos brancos.

Além disso, 70% dos adultos norte-americanos já experienciaram pelo menos um acontecimento traumático ao longo da vida, segundo o Conselho Nacional para o Bem-estar Mental.

O que a condutora viu deixou-a profundamente abalada.

“Estava aterrorizada com a possibilidade de haver outra pessoa envolvida ou de se tratar de uma operação maior do que apenas uma pessoa perturbada”, afirmou a mãe de dois filhos, acrescentando que não conseguia apagar da memória a imagem do corpo inerte do suspeito.

Segundo os especialistas, experienciar violência ou outros acontecimentos perturbadores pode deixar marcas profundas e é fundamental tomar medidas para processar o trauma o mais rapidamente possível.

Como processar o trauma desde já

A terapeuta especializada em trauma Shari Botwin, sediada em Filadélfia, aconselha as pessoas a falar e a escrever sobre a experiência imediatamente após um acontecimento traumático, uma vez que isso permite iniciar o processo de assimilação do sucedido.

“Assim que alguém experiencia ou testemunha um trauma, é extremamente importante falar sobre isso”, afirmou Botwin, que trabalha em prática privada há 30 anos e é autora do livro Stolen Childhoods: Thriving After Abuse.

“Conte a história e conte-a todos os dias. Conte a três pessoas aquilo que viu e, quando acordar no dia seguinte, pense noutras pessoas a quem possa contá-la.”

Botwin acrescenta que é crucial descrever aquilo que se viu, ouviu, cheirou e sentiu.

Como nem todos têm acesso a um terapeuta, recomenda que a experiência seja partilhada com o companheiro, um melhor amigo ou um familiar de confiança.

Durante o primeiro mês após o acontecimento, manter um diário pode desempenhar um papel importante na superação do sofrimento psicológico. A recomendação é escrever durante 15 minutos por dia palavras, pensamentos ou sentimentos relacionados com o sucedido.

“Ao fazer isso, está a reduzir o risco de consequências mais duradouras, que muitas vezes podem traduzir-se em perturbação de stress pós-traumático”, explicou Botwin.

A mulher que testemunhou o esfaqueamento mortal contou que a empresa onde trabalha lhe concedeu oito semanas de licença remunerada para lidar com o impacto do incidente.

“Estou em terapia, mas continuo a ter momentos que para a maioria das pessoas seriam banais e que me fazem estremecer. Nessas alturas tento tratar-me com compaixão”, afirmou, acrescentando que costuma parar para respirar profundamente.

Outros métodos de tratamento

Práticas como cuidados básicos consigo próprio, alimentação nutritiva, sono suficiente, exercício físico e manutenção de ligações sociais também podem ajudar as pessoas a recuperar de experiências traumáticas, segundo Ricky Greenwald, psicólogo clínico e fundador do Trauma Institute e do Child Trauma Institute, em Northampton, Massachusetts.

Greenwald e Botwin concordam que recorrer a terapia é igualmente importante.

“Num mundo ideal, o que eu diria às pessoas é: façam um acompanhamento psicológico de curta duração, encontrem-se com um terapeuta oito a dez vezes”, afirmou Botwin.

“Quando estamos a processar, a falar e a dar nome à experiência, é menos provável que tenhamos flashbacks, que nos tornemos hipervigilantes ou que entremos constantemente no modo de luta ou fuga.”

Botwin explicou que esta resposta ocorre quando o corpo identifica qualquer perigo ou fator de stress associado a traumas anteriores. No momento em que o cérebro deteta uma ameaça, desencadeia uma reação fisiológica que pode manifestar-se através do bloqueio, do isolamento emocional ou da fuga.

“Qualquer coisa pode desencadear esta resposta, porque se trata de um mecanismo de sobrevivência que utilizamos para sobreviver”, explicou.

O problema, acrescenta, é que, mesmo depois de o acontecimento terminar, as pessoas podem continuar a reagir a estímulos ou recordações que provocam exatamente a mesma resposta.

“O segredo é ganhar consciência dos momentos em que o corpo entra no modo de defesa ou fuga e ter um conjunto de técnicas de estabilização e ferramentas que permitam trazer novamente o corpo e a mente para o presente”, afirmou.

Os terapeutas aconselham as pessoas que testemunharam violência a começarem a processar a experiência imediatamente após o incidente. Nadija Pavlovic/iStockphoto/Getty Images

Uma das terapias mais eficazes recomendadas por Greenwald é a EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing, ou Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares), considerada atualmente uma das principais abordagens terapêuticas para o trauma e utilizada desde o final da década de 1980.

Segundo a Associação Americana de Psicologia, esta terapia trabalha diretamente sobre a memória traumática para que esta seja armazenada de forma diferente no cérebro, reduzindo ou até eliminando os sintomas associados ao trauma.

“Quando nos concentramos nos pensamentos traumáticos que parecem repetir-se incessantemente, o que acontece é que, na terapia EMDR, o terapeuta ajuda-nos a falar sobre essa imagem, esse pensamento, esse sentimento e, com o tempo, a resposta emocional vai-se acalmando”, explicou Botwin.

Outras terapias reconhecidas para o tratamento do trauma incluem a terapia de processamento cognitivo, a exposição prolongada e a terapia cognitivo-comportamental focada no trauma. No entanto, Greenwald considera que estes tratamentos tendem a ser mais lentos e exigentes do que a EMDR.

A testemunha ocular afirmou que um dos aspetos menos falados do processo de recuperação é a solidão.

“As pessoas sentem-se desconfortáveis ao ouvir aquilo que testemunhei”, contou, acrescentando que é importante aceitar que muitas pessoas enfrentam desafios relacionados com a saúde mental.

Agora, sempre que vê notícias sobre acontecimentos horríveis, pensa nos transeuntes e nas testemunhas. Depois de ter ficado presa no carro durante horas, a descarga de adrenalina foi tão intensa que os seus efeitos se fizeram sentir durante semanas.

A testemunha revelou ainda que revive a experiência todos os dias e que tem sido difícil evitar carros da polícia, ambulâncias, veículos dos bombeiros com luzes e sirenes ou helicópteros, porque todos esses elementos lhe recordam aquele dia.

Passos fundamentais para a recuperação

Embora o trauma seja inevitável, Botwin sublinha que o percurso de recuperação é diferente para cada pessoa.

“Temos a tendência, enquanto seres humanos, para minimizar o trauma porque não queremos acreditar que nos possa afetar”, afirmou.

“Mas a realidade é que, se é um ser humano, tem consciência e se importa com aquilo que acontece aos outros, não controla a forma como isso o afeta. Ninguém consegue controlar totalmente a forma como reage ao trauma.”

Botwin destaca que, embora não exista uma cura definitiva para a perturbação de stress pós-traumático nem para as respostas traumáticas, a chave para as gerir passa por enfrentar o trauma, evitar estratégias destrutivas de adaptação, processar os sentimentos e praticar a autocompaixão.

Como obter ajuda: Em Portugal, contacte o Serviço de Saúde Mental do Hospital da sua região – Adultos, Infância e Adolescência. A linha SNS24 (808 242424 e www.sns24.gov.pt) e o 112 também estão disponíveis. Entre em contacto através das Linhas de Crise e da Linha de Aconselhamento Psicológico. 

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