Acontece aos Melhores: como é que uma lavandaria pode atormentar a vida a tanta gente? Estes vizinhos preferiam não saber a resposta

6 jun, 21:09

Vapores, fumos e gases da Washlândia em Sacavém vão parar dentro de casa dos vizinhos. Moradores do prédio estão desesperados e dizem-se abandonados pela Câmara Municipal de Loures. Se tem um problema que também não consegue resolver, conte-nos a sua história para o e-mail aconteceaosmelhores@tvi.pt

No número quarenta e cinco da rua Salvador Allende em Sacavém, Loures, o tema de conversa é quase sempre o mesmo desde que, em 2019, abriu um novo negócio no rés-do-chão do prédio.

No início, nós até comentámos que ia ser bom”, confessa à equipa de reportagem da TVI/CNN Portugal Leila Mileu, uma moradora do primeiro andar.

No entanto, o que parecia ser uma mais-valia tornou-se numa autêntica fonte de prejuízo para as famílias que habitam o prédio. Que o Diga Domingos Pina, marido de Leila, sem conseguir esconder o desespero.

O problema é que todos dizem o mesmo, dizem que não pode funcionar nesta situação, mas ninguém faz nada!”

Assim que abriu a porta à equipa de reportagem da TVI e CNN Portugal, o vizinho do segundo andar do edidício, Celso Rainho, mostrou um vídeo captado a partir da janela da cozinha, que ilustra a consequência da operação da lavandaria. Nele, são percetíveis grandes quantidades de vapor e de fumo vindos do rés-do-chão, que sobem junto à parede do prédio. Uma parte dos vapores mantém-se na rua, outra parte entra para a habitação.

Domingos Pina, do andar de baixo, apressa-se a esclarecer o que realmente está a acontecer.

A lavandaria faz a extração dos gases, eu moro no primeiro andar, os gases saem mesmo debaixo da minha varanda, e depois vão subindo e entrando.”

Os moradores garantem que o ambiente torna-se mais difícil de suportar, porque a lavandaria tem cerca de uma dezena de máquinas a trabalhar, por vezes em simultâneo, e um horário de funcionamento alargado, todos os dias da semana.

Não posso trazer ninguém a casa. O cheiro, o calor, os vapores. Está a tornar-se um grande transtorno”, desabafa Domingos Pina com a equipa de reportagem do Acontece aos Melhores.

Um transtorno chamado Washlândia. A lavandaria ocupa uma loja que atravessa o prédio. Apesar de a entrada de clientes fazer-se pela frente, pela rua principal, os gases, fumos e vapores das máquinas de lavar e de secar são encaminhados por uma conduta até às traseiras da loja. Através de uma grelha, são libertados para a rua, junto à parede exterior do edifício. Sobem, em primeiro lugar, até à janela da cozinha de Domingos e Leila, mas afetam, praticamente da mesma forma, os vizinhos dos andares superiores.

De facto, acontece aos melhores, mas será que o negócio pode mesmo operar desta forma?

Eu direi que, em princípio, não será legal, pela simples razão de que, na verdade, não pode haver um tubo a emitir gases para casa das outras pessoas, ainda que esse tubo esteja no exterior”, considera Paulo Veiga e Moura, advogado especialista em direito administrativo.

Domingos Pina diz que, assim que começou a sentir-se incomodado, tentou falar com o dono da lavandaria. Porém, garante que nunca obteve qualquer resposta.

Ora, na expectativa de conseguir a tão desejada resposta, o Acontece aos Melhores contactou o dono da lavandaria. António Remédios disse que não tinha tempo para uma entrevista, mas aceitou prestar alguns esclarecimentos por telefone, com a premissa de que não vai corrigir o sistema de exaustão da loja, e dando a entender que os moradores querem é lavar roupa suja na praça pública.

Porém, alguns minutos após a conclusão da chamada, o homem acabou por comunicar que não autorizava a divulgação das gravações, precisamente aquelas onde alega que os vizinhos da lavandaria, se querem sossego, têm de se mudar para uma quinta. Para António Remédios, os moradores do edifício têm de viver com os fumos, com os vapores e com os cheiros, e ponto final.

Essas pessoas (os moradores) têm de atuar e, portanto, têm que obrigar o dono da lavandaria a assegurar mecanismos que impeçam que essas propriedades de cima apanhem com todos os fumos e com todos os gases”, aconselha o advogado Paulo Veiga e Moura.

Domingos Pina diz, também, que já teve uma reunião na Câmara Municipal de Loures sobre o incómodo que a lavandaria causa aos moradores do prédio.

Ele lamentou a situação e disse que, no prazo máximo de uma semana, resolvia a situação. Mas já passou dois ou três meses, e não resolveu nada”, lamenta Domingos Pina, sobre a atitude do funcionário da autarquia que o recebeu.

Perante os factos, Paulo Veiga e Moura é assertivo na conclusão que faz sobre o caso.

Atenção, a câmara só existe para prosseguir e salvaguardar os interesses das próprias populações. Se, efetivamente, está em causa a saúde dos habitantes do prédio, aquilo que se espera é que não tenham de ser os habitantes a recorrer à justiça para resolver o problema. Espera-se que vão à entidade competente (autarquia) para fiscalizar e, obviamente, essa entidade atue. Portanto, perante o silêncio, eu direi que a câmara não está necessariamente bem.”

Além disso, Leila Mileu garante que a filha, menor de idade, tem tido cada vez mais problemas respiratórios. A mãe acredita que o agravamento do quadro clínico está relacionado com os gases, fumos e vapores que a lavandaria liberta para o interior da casa desta família. Já a pediatra da criança tem convicções mais fortes, pelo que escreveu um relatório médico onde deixa claro que é muito provável que a degradação do estado de saúde da criança esteja relacionada com a atividade da lavandaria.

Por isso mesmo, o Acontece aos Melhores pediu ajuda a uma empresa especializada em inspeções e verificações para fazer a medição da qualidade do ar interior da casa desta família.

Os resultados indicam que a concentração de dióxido e monóxido de carbono, de compostos orgânicos e de partículas estão dentro dos valores legais. Ainda assim, Rui Dinis, o especialista em qualidade do ar interior da SGS, deixa um alerta.

Nestes casos, em que há muita concentração de humidade, ela acaba por ser depositada nas paredes das casas e desenvolve fungos e bactérias que poderão acabar por afetar a qualidade do ar interior.”

Como de resto já aconteceu. Durante a pandemia, a parede interior da cozinha de Leila e Domingos mais exposta aos vapores da lavandaria ficou coberta de bolor. Portanto, parece ser certo que a lavandaria não pode operar desta forma.

Efetivamente, uma atividade como esta, ou como qualquer outra atividade industrial, não pode, nem deve, ter uma exaustão ao nível do solo. Essa exaustão deve ser sobrelevada até três metros acima da cota do edifício. Só assim é que se promove uma dispersão correta dos poluentes, não afetando a qualidade do ar interior dos ocupantes dos edifícios”, conclui Rui Dinis, o especialista em qualidade do ar interior.

O Acontece aos Melhores fez um pedido de esclarecimento à Câmara Municipal de Loures, a entidade que tem poder para obrigar o dono da lavandaria a instalar um sistema de exaustão que não perturbe a vida do prédio. O executivo liderado pelo socialista Ricardo Leão remeteu-se ao silêncio. Para além de não ter existido qualquer resposta às questões por nós colocadas, a assessora do presidente deixou de atender o telefone à equipa do Acontece aos Melhores. Enquanto isso, os moradores do prédio continuam desesperados e sem saber o que fazer.

Esta é a minha casa, foi a que eu escolhi, é onde eu me sinto bem. Quem está mal é a lavandaria, é a lavandaria que tem de mudar, que tem de fechar, seja o que for”, conclui, com alguma tristeza, Domingos Pina.

Oxalá, as notícias nos próximos tempos sejam mais animadoras para Domingos, para Leila, e para todos os moradores deste prédio, até porque o Acontece aos Melhores vai continuar atento a elas.

Se tem um problema que também não consegue resolver, conte-nos a sua história para o e-mail aconteceaosmelhores@tvi.pt.

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