Apesar de, em regra geral, não deixar danos permanentes, o AIT está longe de ser inofensivo: pode mesmo anteceder um Acidente Vascular Cerebral (AVC), por vezes horas ou dias depois
O ministro das Finanças deu entrada esta quarta-feira no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de ter tido um Acidente Isquémico Transitório (AIT), um problema conhecido como "mini AVC" ou "princípio de AVC" em que o trombo desaparece naturalmente.
Desconhecido para a maior parte das pessoas, um Acidente Isquémico Transitório consiste num "bloqueio temporário e de curta duração, habitualmente inferior a cinco minutos, do fluxo sanguíneo para o cérebro ou para a medula espinhal", como explica o site do hospital CUF. Quando provocado por um coágulo, este tende a "dissolver-se por si próprio ou a soltar-se", permitindo que a circulação seja restabelecida.
Apesar de, em regra geral, não deixar danos permanentes, o AIT está longe de ser inofensivo e, como explica a CUF, pode representar um “aviso” sério: pode anteceder um Acidente Vascular Cerebral (AVC), por vezes horas ou dias depois.
Mas quais são os sintomas?
Tal como acontece num AVC, os sintomas de um AIT variam "consoante a área do cérebro afetada". Diferentes regiões cerebrais controlam diferentes funções, como fala, visão ou movimentos, e os sinais refletem essa especificidade.
Entre os sintomas mais comuns estão "o aparecimento súbito de fraqueza, dormência ou paralisia na face, braço ou perna, geralmente apenas de um lado do corpo. Pode ainda surgir dificuldade em falar ou compreender, perda de visão num ou em ambos os olhos, visão dupla, tonturas, perda de equilíbrio ou coordenação e dor de cabeça intensa sem causa aparente".
Habitualmente, os sinais desaparecem em menos de uma hora, embora, em alguns casos, possam prolongar-se até 24 horas. É ainda possível que ocorram episódios repetidos, com sintomas semelhantes ou distintos.
Aqui é visível a distinção para um AVC, que muitas vezes deixa sequelas duradouras e, em alguns casos, até permanentes. Veja-se o caso de Nuno Markl, que foi internado há mais de três meses e ainda está a recuperar funções num dos lados do corpo.
Perante qualquer suspeita, mesmo de um AIT, a CUF deixa um conselho. "É importante procurar imediatamente ajuda e contactar um serviço médico de urgência. A avaliação médica imediata pode ajudar a prevenir um eventual AVC".
E as causas, quais são?
As causas do AIT são idênticas às do AVC isquémico, o tipo mais frequente e conhecido de um AVC. Em ambos os casos, "um coágulo, muitas vezes associado à aterosclerose, isto é, à acumulação de placas nas artérias, bloqueia temporariamente o fornecimento de sangue a uma zona do cérebro". A diferença está na duração do bloqueio e na ausência de lesões permanentes no AIT.
Se acredita que está longe de vir a sofrer um Acidente Isquémico Transitório, convém saber que qualquer pessoa pode passar por esta situação. Ainda assim, há fatores de risco que aumentam significativamente essa probabilidade. Alguns são "modificáveis, como o tabagismo, a hipertensão arterial, o colesterol elevado, o sedentarismo, a má alimentação, o excesso de peso, o consumo excessivo de álcool ou o uso de drogas ilícitas. Doenças cardiovasculares, estenose da carótida, doença arterial periférica, diabetes e níveis elevados de homocisteína também elevam o risco".
Outros fatores não podem ser alterados, "como a idade - o risco aumenta sobretudo após os 55 anos -, a história familiar, o sexo (geralmente, as mulheres apresentam maior risco de AVC), ter tido um AIT prévio ou determinadas doenças, como a anemia falciforme".
Como se trata um AIT? E como me posso prevenir?
Perante um AIT, é "essencial uma avaliação imediata em contexto hospitalar". Esse é o primeiro conselho deixado pela CUF. O diagnóstico pode incluir "exame físico e neurológico, medição da pressão arterial e do colesterol, bem como exames de imagem, como tomografia computorizada (TAC) ou ressonância magnética (RM)". Está também recomendada uma avaliação vascular urgente.
Depois de identificada a causa, o tratamento centra-se na prevenção de um AVC. Pode passar por medicação, nomeadamente "antiagregantes plaquetários ou anticoagulantes", mas também por cirurgia, como a "endarterectomia da carótida", ou por angioplastia com "colocação de stent, em casos específicos".
A prevenção inclui ainda "consultas regulares, abandono do tabaco, alimentação equilibrada, prática de exercício físico, controlo do peso, limitação do consumo de álcool e controlo rigoroso de doenças como a diabetes".
No caso de Joaquim Miranda Sarmento, de 47 anos, o governante deu entrada na urgência central do Hospital de Santa Maria pelas 08:30 desta quarta-feira, 25 de fevereiro, pelo próprio pé. Perante as queixas apresentadas, os profissionais de saúde suspeitaram de um AVC e avançaram com os exames previstos nestas situações, acabando por confirmar que tinha sido "apenas" um AIT.
Segundo apurou a CNN Portugal junto de várias fontes, as análises estavam dentro da normalidade e o TAC não revelou sinais de AVC. Em comunicado, a Unidade Local de Saúde de Santa Maria confirmou que o ministro realizou exames que “descartaram o cenário de um acidente vascular cerebral”, mantendo-se em observação por precaução. A confirmação do diagnóstico chegou horas depois: um Acidente Isquémico Transitório que, por precaução, vai obrigar o ministro das Finanças a passar a noite internado.