Empresa que beneficiou do ajuste direto é a mesma que assegura a manutenção desde 2019
O presidente da Carris, Pedro Bogas, esclareceu esta quinta-feira, em conferência de imprensa, os contornos do contrato de manutenção dos elevadores e ascensores da empresa, depois do descarrilamento do Elevador da Glória, que vitimou 16 pessoas. Segundo Pedro Bogas, a manutenção destes equipamentos está externalizada "pelo menos desde 2007" e tem sido assegurada desde 2019 pela empresa Main Maintenance Engineering, o nome comercial da MNTC - Serviços técnicos de engenharia, Lda, empresa com sede no Monte da Caparica e vencedora de concursos públicos em 2019 e 2022.
Este ano, a Carris lançou um novo concurso público com um preço base atualizado de 995 mil euros para 1,2 milhões de euros. No entanto, “não foram apresentadas propostas abaixo do preço base” e as restantes acabaram excluídas, deixando o concurso "deserto".
“Precisamente porque não podíamos ficar sem manutenção dos ascensores e do elevador, celebrámos um ajuste direto com a empresa que já assegurava a manutenção, pelo prazo de cinco meses, que é o tempo de que necessitamos para lançar o novo concurso público”, afirmou Pedro Bogas. "Como é um ajuste direto feito no âmbito dos setores especiais, não é publicado no programa [portal] Base."
O contrato temporário garante a manutenção até ao lançamento de um novo concurso público. “Temos tudo preparado para avançar”, garantiu.
Pedro Bogas explicou que o contrato inclui seis técnicos, enquadrados por três engenheiros da empresa prestadora, sendo que dois deles estão permanentemente nas instalações da Carris, "acompanhados e fiscalizados" por técnicos da própria empresa.
A externalização da manutenção, justificou, deve-se "precisamente" ao facto de estas empresas serem "especializadas e certificadas para assegurar" a manutenção. Muitas vezes, refere, é a própria empresa a fabricar peças em falta, devido à idade dos equipamentos. "Claro que isto é tudo fiscalizado por nós, mas é uma obrigação do prestador."
Pedro Bogas garantiu que as inspeções periódicas e diárias “foram escrupulosamente cumpridas” e que a segurança “continua a ser uma prioridade absoluta da Carris há 152 anos”, tendo a empresa aumentado o investimento em manutenção. Entre 2015 e 2025, os custos mais do que duplicaram, com um crescimento de 25% só entre 2022 e 2025, refere.
Sobre a fiabilidade das inspeções, o presidente disse que a avaliação feita pela Carris indica que foram realizadas corretamente, mas ressalvou que cabe aos peritos e técnicos credenciados determinar as conclusões finais. Recordou ainda que os "elétricos clássicos" sofreram uma profunda remotorização nos anos 90 e que a Carris tem prevista uma nova modernização para o período de 2025-2028 para os 38 elétricos que circulam atualmente.
Quanto às causas do acidente, Pedro Bogas recusou entrar "em especulações", afirmando que a Carris abriu um inquérito interno que contará também com consultores externos, a pedido da Câmara de Lisboa. "Seremos intransigentes no apuramento das causas e responsabilidades deste acidente."