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Metade das vítimas de abusos sexuais na Igreja portuguesa não é católica e outra parte tornou-se católica praticante ao longo da vida

13 fev 2023, 18:08
Igreja, religião, padres, missa, celebração, crucifixo. Foto: AP Photo/Thibault Camus

Maior parte dos abusos ocorreu entre os anos 60 e os anos 90. Em cerca de metade dos casos, o agressor já era conhecido das vítimas - o que “favorece não só a aproximação inicial como a continuidade do abuso”

São na sua maioria homens (57,2%) - embora haja uma grande quantidade de mulheres também (42,2%) - e têm hoje entre 65 e 89 anos. A maior parte licenciou-se e está empregada em trabalhos intelectuais ou científicos. Muitos são casados, têm filhos e são católicos. É este o retrato atual das vítimas de abusos sexuais dentro da Igreja Católica elaborado pela Comissão Independente, que estudou mais de 500 testemunhos e identificou pelo menos 4.815 vítimas.

Os dados são do relatório final desta Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica, liderada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht, que indica que a maior parte das vítimas tinha entre os 10 e os 14 anos de idade quando foi abusada pela primeira vez.

A maior parte destes abusos ocorreu entre 1961 e 1990, com cerca de 100 casos por cada década. No entanto, o relatório afirma que ao longo do período analisado, que começou em 1945 e terminou em 2022, só houve um ano em que não foram reportadas denúncias de abusos sexuais - em 1949.

Entre 1991 e 2000, a Comissão registou um decréscimo para cerca de metade dos valores das décadas anteriores (10,9% e 50 casos) e durante a primeira década do século XXI registaram-se 4,9% das primeiras situações de abusos - o equivalente a 25 casos. O valor depois aumentou entre 2011 e 2020 para 31 testemunhos de abusos sexuais. 

A Comissão Independente, no seu relatório, alerta para o intervalo entre o momento em que o abuso ocorre e o momento em que ele é revelado - em média corresponde a mais de 10 anos. “Tendo este período de desfasamento em conta, a tendência para o decréscimo dos abusos a partir do século XXI tem de ser lida com muita prudência”, salienta o documento.

No total, mais de metade das crianças que foi vítima (54,9%) vivia à data com os pais em núcleos familiares com irmãos e familiares próximos, sendo que a segunda situação mais comum é a das crianças que quando foram alvo de abusos sexuais estavam a viver numa instituição - o que aconteceu a cerca de uma em cada cinco vítimas e assumiu uma preponderância maior até aos anos 90.

A grande maioria das vítimas (88,1%) encontrava-se também a estudar quando enfrentou a primeira situação de abuso. A maior parte frequentava o primeiro ciclo (29,6%) e o segundo ciclo (28,9%), sendo que as raparigas sofreram mais vezes abusos no primeiro ciclo e os rapazes enquanto frequentavam o segundo e o terceiro ciclo.

Em dois terços dos casos, as vítimas provêm de contextos familiares em que os pais estão ou estiveram sempre casados, um “modelo clássico de família”. Mas um em cada cinco casos (20,7%) de abusos ocorreu em contextos em que os pais não vivem ou viveram sempre juntos, “o que representa uma percentagem significativa, se nos lembrarmos que os números deste estudo se referem a um arco temporal longo, remontando a épocas em que o divórcio era uma realidade quase incipiente a nível nacional”, afirma o relatório.

Do número de vítimas que já tinha revelado a sua situação de abuso, a maioria fê-lo a familiares (51,7%), a amigos ou colegas (22,6%) e em 10,2% das situações a denúncia foi feita a um padre. Só em 5,3% dos casos a situação foi partilhada com outros membros do clero. “Tal como estes dados apontam, a Igreja Católica, como instituição, parece não ter sido encarada pela vítima como um lugar seguro ou confiável para se abordar o tema”, afirma o relatório da Comissão independente.

É também revelado pelo relatório que existiram episódios de abuso em 129 dos 208 concelhos do país, com a maior parte das situações a ocorrer em Lisboa, onde foram reportados 120 casos, seguida do Porto, com 64, e de Braga, com 55 casos.

Hoje, muitos anos após os abusos, o relatório revela que a generalidade das pessoas que foram abusadas quando eram crianças têm hoje papéis ativos na sociedade, com profissões reconhecidas, plenamente integradas no mundo do trabalho e com bons capitais escolares. É, afirma o trabalho, um resultado que desconstrói uma ideia falsamente comum: "A ideia de que as vítimas seriam hoje exclusivamente pessoas pertencentes a universos de precariedade, pobreza e exploração social e económica". Pelo contrário: "Muitos estão no meio de nós".

De facto, no que diz respeito às profissões desempenhadas pelas vítimas, o grupo profissional mais representado é o dos “especialistas das atividades intelectuais e científicas” (uma área onde trabalham 32% das vítimas), seguido de “trabalhadores dos serviços pessoais de proteção e segurança e vendedores”, com 7,8%, e de técnicos e profissionais de nível intermédio, com 5,9%.

A maioria identifica-se também como católica (53% dos casos), sendo que metade destes são praticantes. Um pouco mais de um terço das vítimas afirma não ser católico. Já relativamente à escolaridade, a maior parte acabou pelo menos a tirar uma licenciatura (32,4%), sendo que 12,9% terminaram o mestrado e 3,1% concluíram um doutoramento. “Em termos globais, a amostra tem um padrão de escolaridade muito acima da média da população portuguesa”, sublinha.

Homens, padres, conhecidos das vítimas. O perfil dos abusadores 

Já sobre os abusadores, o relatório indica que são quase na sua totalidade do sexo masculino, com apenas 1,6% dos casos de abusos a serem perpetrados por mulheres. Quase metade (48,3%) tinha entre 31 e 50 anos à data do abuso e em 77% dos casos os alegados agressores eram padres, um valor mais expressivo do que em França, onde a percentagem de padres abusadores era de 53%. O segundo estatuto mais comum é o de professor em colégio religioso (9,6%) e em 4,5% das situações surgem casos em que as pessoas agressoras eram membros de ordens religiosas diversas, como abades, madres, frades e freiras.

Nos casos em que as vítimas são do género feminino é maior a prevalência de abusadores com idades entre os 61 e os 70 anos ou com mais de 70 anos (12% quando as vítimas são raparigas, face a 5,8% quando são do género masculino). Já nos caso em que as vítimas são rapazes, os abusadores tendem a ter idades até aos 40 anos (47,7% quando as vítimas são rapazes, face a 33,9% no caso das raparigas).

Os resultados revelados pelo relatório também indicam que em 46,7% dos casos o agressor já era conhecido da vítima, o que, indica o documento, “favorece não só a aproximação inicial como a continuidade do abuso”. Ainda assim, em 44,3% dos casos não havia qualquer relação anterior entre o agressor e vítima, “a não ser a ditada pela prática ou contexto religioso”, o que levou os investigadores da Comissão a evidenciar a “incapacidade de defesa posterior da criança perante o que a surpreendeu e de forma aparentemente inesperada”.

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