Comissão vai varrer os últimos 72 anos da Igreja Católica em Portugal para saber quantos menores foram abusados sexualmente

10 jan, 18:18

Objetivo é perceber quando, como e por quem crianças e adolescentes foram abusados

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A comissão independente para o estudo dos abusos sexuais de crianças na Igreja Católica portuguesa quer "conhecer realidade dos abusos sexuais de crianças e adolescentes" praticados por membros ligados àquela instituição desde 1950 até 2022.

O plano foi apresentado esta segunda-feira em conferência de imprensa, que decorreu na Gulbenkian, em Lisboa.

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"Procuramos esclarecer da melhor forma possível tudo o que possa ter acontecido em Portugal ao longo dos últimos anos, tão complexa e necessária de apurar", começou por explicar Pedro Strecht, coordenador da comissão.

A ação futura desta comissão envolve a recolha e o tratamento de testemunhos de vítimas, assim como perceber quando, como e por quem foram abusadas. "Dar voz ao silêncio" é o mote desta investigação.

"Contem connosco, com trabalho dedicado e sério", sublinhou Pedro Strecht.

 

Entrar às escuras "num terreno desconhecido, silenciado"

A socióloga Ana Nunes de Almeida, também presente no evento, detalhou os objetivos deste estudo: "Queremos conhecer a realidade dos abusos sexuais das crianças e adolescentes (até aos 18 anos) praticados por membros da igreja Católica portuguesa ou por leigos que estão envolvidos nas várias vertentes de atuação (paroquial; educativa; terapeutica)".

Ana Nunes de Almeida explicou ainda que estes objetivos vão ser cumpridos de duas formas. "Ter uma noção dos números e procurar responder quantas crianças foram abusadas entre 1950 e 2022".

A também membro da comissão avançou que, por isso, os arquivos diocesanos vão ser consultados, bem como os arquivos de outras instituições da Igreja.

"Nós sabemos que os números, em matéria de maus-tratos a crianças, dizem pouco. Nós nunca conseguiremos sair da ponta de um iceberg. Só 1/3 está visível, os outros 2/3 estão submersos num mar profundo e, por isso, não queremos ficar só pelos números. Queremos perceber que características tinham e têm esses abusos", disse a socióloga, adiantando que esta pesquisa também tem como objetivo perceber se é possível traçar o perfil de um abusador e das vítimas.

A relação dos portugueses com a Igreja Católica ao longo dos anos, principalmente após o 25 de Abril, será também um dos pontos a ter em conta no momento da investigação.

"Sabe-se muito pouco, quase nada, sobre os abusos contra as crianças na Igreja Católica Portuguesa. Estamos a entrar, quase às escuras, num terreno desconhecido, silenciado, mas não temos dúvidas que, ao começarmos a escavá-lo, vamos ser apanhados de ser apanhados de surpresa por outras pistas de conhecimento e o nosso caminho é ir atrás delas", rematou Ana Nunes de Almeida.

Quem queira apresentar uma denúncia, ou dar o seu testemunhos pode fazê-lo através do preenchimento de um inquérito online no site https://darvozaosilencio.org. Em alternativa, pode também ligar para o número de telefone +351917110000, disponível diariamente entre as 10:00 e as 20:00 horas.

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