Ângelo foi vítima de abuso sexual em criança. "Durante muitos anos senti uma culpa que não era minha"

23 jan 2025, 07:30
Ângelo Fernandes

ENTREVISTA | Ângelo Fernandes fundou, há oito anos, a Associação Quebrar o Silêncio, um espaço para apoiar homens vítimas de violência sexual. O objetivo, diz é pôr fim a longos períodos de sofrimento em silêncio. Um silêncio de que ele próprio foi vítima durante mais de 20 anos

Ângelo conseguiu “cicatrizar a ferida”. Agora, “a ferida já não está aberta, já não sangra” e já lhe pode tocar. Vítima de abuso sexual na infância, viveu mais de 20 anos em silêncio e acreditar numa culpa que não era sua.

Há oito anos, fundou a Associação Quebrar o Silêncio, que apoia homens vítimas de violência sexual e respetivas famílias. Passados oito anos, ainda há mitos demasiado enraizados que impedem os sobreviventes de procurar ajuda, mas Ângelo não desiste de mostrar a estes homens que “não estão sozinhos”.

Nota: Se foi vítima ou está a ser vítima de alguma forma de violência sexual, se conhece algum sobrevivente de violência sexual, procure ajuda junto da Associação Quebrar o Silêncio

Passados oito anos de fundar a Associação Quebrar o Silêncio, ainda há alguma coisa que o surpreenda no abuso sexual que tem os homens como vítimas ou como sobreviventes?

O que é que me surpreende é que, passados oito anos, continuamos a dizer a mesma coisa que dizíamos no início. Ou seja, quando falamos de sensibilização, quando falamos de formação de profissionais, quando falamos de contato com o público em geral, sempre que dizemos um em cada seis homens é vítima de violência sexual, a reação é de surpresa. As pessoas ficam surpreendidas porque não tinham ideia de que os homens também são vítimas de violência sexual e que os números sejam assim tão elevados.

Nesse nível, parece que pouco ou nada se fez e que ainda há imensa coisa a fazer. Se, por um lado, cada vez chegamos a mais homens de diferentes idades e com diferentes experiências de abuso (e isso para nós é fantástico, porque estamos a conquistar cada vez mais os homens que precisam da nossa ajuda), por outro lado, ainda falta fazer imenso.

Parece que estamos sempre a repetir a mesma mensagem e a receber sempre a mesma reação de surpresa e de espanto por parte das pessoas. Entristece-me, de alguma forma, que muitos dos mitos ainda não os tenhamos conseguido desfazer.

Entristece-o, de alguma forma, que, ao fim de oito anos de trabalho, ainda haja essa resistência e ainda haja julgamento? Que ainda haja esses mitos?

Não me entristece, mas deixa-me preocupado. Porque esses comentários e essas posições, em último caso, vão sempre aumentar o período de silêncio dos sobreviventes. Vão sempre contribuir para o silêncio.

Quando um homem foi abusado por uma mulher e os comentários são ‘quem me dera a mim’, ‘uma violação das boas’, ‘só eu é que não tenho esta sorte’, ou quando dizem os homens só são abusados porque querem, ou que é impossível um homem ser abusado, as pessoas estão a descredibilizar, estão a minimizar, estão a fazer destes homens motivo de troça e estão a dizer, mesmo que indiretamente, às vítimas ‘tu comigo não podes contar’, ‘se tu falares, a tua história de abuso vai ser recebida com descrença e vais ser escrutinado’, ‘as pessoas não vão acreditar em ti’, ‘vais ser motivo de gozo e de troça’. O que eu peço para as pessoas é que tenham empatia, porque nunca sabem com quem estão a falar.

O que é que o levou a fundar a Quebrar o Silêncio?

Eu próprio fui abusado sexualmente na infância e, tal como muitos homens que nos procuram, julgava que tinha sido o único caso, que era o único perdido, sozinho, isolado. Até que percebi que não era o de todo.

A minha história, apesar de ser minha, reflete imensas outras histórias de homens e rapazes que foram abusados. E quis fundar a Associação Quebrar o Silêncio para que estes homens tivessem o apoio e a ajuda que precisam para ultrapassar o impacto do abuso sexual nas suas vidas e conseguirem retomar o controlo das próprias vidas.

Tem tido algum peso na sua vida assumir publicamente essa história?

Não conto a minha história para ser um exemplo. Não me dou como exemplo. Ou seja, aquilo que eu fiz faz parte da minha narrativa pessoal. Nenhum sobrevivente que procura Quebrar o Silêncio tem de dar o nome, a cara ou o testemunho. Todo homem sobrevivente tem o direito a manter a sua história reservada só para ele ou para as pessoas próximas com quem a decida partilhar.

Darem a cara é uma decisão das vítimas. Não é um dever nem uma obrigação.

Seria pedir-lhe muito que voltasse à infância e me contasse a sua história?

A minha história é a minha história, mas é também a história de muitos homens, de muitos rapazes e de muitos meninos. O abusador era alguém próximo da minha família, alguém que se aproximou, que conquistou a confiança da família, uma pessoa de confiança de toda a comunidade. Adquiriu ali um estatuto de confiança e conseguia angariar meninos. Conseguia, no fundo, seduzi-los.

Não havia ninguém que desconfiasse deste homem. Ele aproximar-se de mim, como se aproximou de outros meninos, era algo natural e normal.

Ele abusou de mim durante quase um ano. Dava-me sempre a entender que tudo aquilo que me fazia era natural e que não havia maldade nenhuma.

Quando é que percebeu que não era normal?

Foi um dia em que ele me tinha levado para a cama dele e alguém bateu à porta da casa dele. A expressão dele foi de pânico. Ele ficou aterrorizado. Nesse dia, apesar de só ter 10 anos, percebi que se alguém que diz que tudo é natural, que não tem maldade nenhuma, que está tudo bem, não tinha motivo para aquela postura, para ficar assim assustado, para mostrar aquele pânico.

Li o medo e a insegurança e o pânico dele e percebi que aquilo não era correto e fugi. E nunca mais me aproximei sequer daquela zona do bairro, porque alguma coisa já não batia certo. Dó mais tarde é que vim mesmo a perceber o que é que era. Mas passaram-se vinte e tal anos.

Não pediu ajuda nessa altura?

Não, não pedi ajuda. Também não sabia... O que é que podia dizer? Que aquela pessoa me pareceu assustada? Ou seja, não via nada que eu... Lembro-me de ter uma conversa com a minha mãe que hoje, com o conhecimento que tenho, percebo que estava a tentar palpar terreno, tentar perceber sensibilidades. Lembro-me de lhe perguntar o que é que ela achava daquela pessoa e de a minha mãe dizer que era um grande amigo, que era uma boa pessoa.

Eu procurava, era que ela dissesse ‘cuidado com essa pessoa, tu não te aproximas dessa pessoa, essa pessoa é perigosa’. Mas quando os teus pais, sem saberem, claro, te garantem que ela é boa pessoa, então és tu que estás mal, é a criança que não entende a situação, é a criança que se calhar está a deturpar, é a criança que se calhar fez alguma coisa de errado. E quando a criança acredita que fez alguma coisa de errado, ela não vai falar com medo da punição e do castigo.

Foi isso que lhe doeu mais na gestão da sua sobrevivência?

Acho que o pior que aconteceu comigo e acontece com muitos homens é quando a criança é levada a acreditar que ela é que tem culpa, que foi ela que desencadeou tudo o que aconteceu, que ela precipitou o próprio crime, o próprio abuso e que foi ela que quis, que foi ela que gostou.

Eu acreditei, durante muitos anos, que eu é que o tinha subvertido. Eu, com 10 anos, tinha subvertido um homem de 30 tal anos, inocente, casto e imaculado. Durante muitos anos, carreguei uma culpa que não era minha. Isto acontece a muitos homens, acharem que foram eles que fizeram alguma coisa mal.

Aos 10 anos, eu tinha feito um mal imenso àquele homem que era inocente, não é?

Quase 30 anos depois, o abuso de que foi vítima ainda impacta o seu dia-a-dia?

Costumo dar este exemplo, porque acho que ajuda as pessoas a compreenderem: Isto é como se tivesse uma cicatriz. Quando olho para a cicatriz, quando toco na cicatriz, eu posso me recordar daquilo que aconteceu, daquilo que provocou a cicatriz, mas a ferida já não dói. A ferida já não está aberta e já não sangra.

Caso contrário, eu não conseguia falar consigo sobre esta história. Noutras alturas, falar sobre isto trazia-me ansiedade, trazia-me mal-estar, trazia-me nojo, culpa, repulsa. Hoje, falo desta história com facilidade, com tranquilidade, porque olho para a cicatriz, toco nela e já não dói.

Que impacto teve o abuso na sua vida adulta?

Mesmo que socialmente uma pessoa seja muito sociável e vá a festas, tenha muitos amigos, há sempre aquela parte que diz ‘calma, cuidado’, quando alguém se aproxima, quando alguém demonstra atenção ao feto. Porque, no passado, o cérebro dizia, atenção, que a pessoa que demonstrou atenção genuína e afeto, não era genuína e maltratou, porque qualquer pessoa pode fazer isto.

Assim que eu tinha uma relação com alguém e havia uma proximidade, eu acabava a relação porque tinha medo da proximidade. Achava eu simplesmente que não tinha encontrado a pessoa certa ou que tinha dificuldades e não era feito para relações.

Claro que isto é evitamento. É evitar o lado emocional, para evitar lidar com estas questões.

Que mensagem gostaria de deixar a um sobrevivente que ainda não procurou ajuda?

Antes de mais, que não está sozinho. Nós costumamos sempre recordar que um em cada seis homens é vítima de violência sexual, portanto não está sozinho. Se tem alguma dúvida, alguma questão que quer esclarecer ou que esteja confusa, contacte-nos, fale connosco, nós ajudamos a esclarecer.

Não tem de iniciar apoio psicológico se não quiser, mas podemos marcar uma sessão de esclarecimento, perceber se essa experiência tem ou não tem impacto na sua vida.

Em último dos casos, pode perceber que não é essa experiência que está a afetar. E está tudo bem. Já riscou, digamos assim, essa suspeita. Em todo o caso, fale connosco, não está sozinho.

A associação também é muito procurada por famílias de sobreviventes que procuram ajuda. Que mensagem deixaria a estas famílias?

Que é preciso respeitar o tempo do homem sobrevivente. Isto é para nós a mensagem se calhar principal, respeitar o tempo.

Às vezes as famílias, as esposas, as mães, os companheiros sentem, naturalmente, o desejo de ajudar, de querer retirar a dor àquela pessoa. Mas aquela pessoa tem de controlar o tempo. Porque quando alguém é vítima de violência sexual, é-lhe retirado o poder e o controle. Portanto, quando partilha essa história, que é um ato de coragem, é importante que esse poder e esse controle seja do sobrevivente.

 

País

Mais País