Rui foi vítima de extorsão sexual e pagou mais de 6 mil euros. "Cada vez que enviava dinheiro a chantagem não parava, apenas aumentava"

4 fev, 00:01
Solidão (Pexels)

A associação Quebrar o Silêncio recebeu, no último ano, um aumento do número de pedidos de ajuda por extorsão sexual. De um pedido em 2024, passou para 51 em 2025

Rui (nome fictício), de 45 anos, tinha acabado de se separar e estava a atravessar uma fase difícil. A separação tinha sido “complicada”, o divórcio não estava a ser mais fácil. Voltou a usar aplicações de encontros e foi lá que conheceu uma mulher que pensou ser uma lufada de ar fresco na sua vida.

“Era alguém que parecia interessada em ouvir-me e em perceber o que eu estava a passar. Falámos sobre a minha vida, o trabalho e os filhos”, começa por contar num depoimento por escrito à CNN Portugal.

Mas depressa essa sensação de conforto se tornou num pesadelo. A conversa começou a tornar-se “mais íntima” e acabaram por trocar “algumas fotos e vídeos”. Rui acreditava mesmo que aquela mulher que parecia compreendê-lo como ninguém “era uma pessoa de confiança”.

“Mal enviei os ficheiros, recebi uma mensagem completamente diferente. Mandaram-me uma montagem das minhas fotos, onde não se via a minha cara, mas coladas à imagem do meu perfil para que as pessoas percebessem que era eu. Ameaçavam enviá-las para a minha ex-mulher e para colegas de trabalho se eu não pagasse. Tive medo de que isso prejudicasse o meu divórcio e acabei por pagar 150 euros”, recorda Rui.

Mas os extorsionistas não ficaram por aqui. Quando receberam os primeiros 150 euros, pediram mais e criaram um grupo de conversa no Instagram com amigos de Rui nas redes sociais. “Voltei a pagar mais 250 euros e, em menos de uma semana, já tinha enviado um total de 3 mil euros”, contabiliza.

De um para 51

O relato de Rui não é muito diferente dos das outras vítimas que pediram ajuda à associação Quebrar o Silêncio, que apoia homens vítimas de abusos sexuais. O número de vítimas de extorsão sexual que pediram ajuda aumentou drasticamente. De um pedido, em 2024, passaram a ser 51, em 2025. Um aumento que se ficou a dever, em grande parte, à sensibilização para o crime que a Quebrar o Silêncio fez ao longo de 2024. Na maioria dos casos, o exemplo de Rui repete-se. São homens fragilizados, solitários que se deixam enredar por supostas mulheres que conhecem nas redes sociais ou em aplicações de encontros. Na maioria dos casos também os supostos extorsionistas nem sequer são mulheres. “Criam perfis falsos. Fazem-se passar por uma mulher atraente e enviam mensagens para centenas de homens. Se 500 responderem, investem nestes 500, se 250 trocarem mensagens íntimas, atacam esses 250. Não são ataques personalizados, mas sim aleatórios”, explica Ângelo Fernandes, fundador da Quebrar o Silêncio.

“Os extorsionistas começam por estabelecer uma conversa sexualizada, passam-se por uma mulher que está carente, que precisa de um homem… normalmente são mesmo os extorsionistas que partilham primeiro as imagens, que roubam de perfis de outras mulheres nas redes sociais ou que criam, com recurso a inteligência artificial. Assim que as imagens entram, revelam-se e passam à extorsão e às ameaças”, acrescenta Ângelo Fernandes.

As ameaças adquirem contornos de tortura. Criam os tais grupos nas redes sociais, com amigos da vítima, “a mãe, a tia, o chefe”, e começam uma contagem decrescente: “10… minutos depois, 9 e por aí fora até a vítima enviar o dinheiro pedido”. “Tudo isto pode acontecer no espaço de uma hora. Temos o caso de um homem que na hora de almoço, em 45 minutos, viu a vida virada do avesso. Almoçou sozinho e foi para o carro navegar nas redes sociais. Menos de uma hora depois, estava a transferir dinheiro aos extorsionistas”, exemplifica.  

“A maioria são homens casados ou que sentem que têm muito a perder. Em todos os casos, assim que pagam, a pressão começa a escalar. O primeiro pagamento só intensifica a pressão. Temos casos de homens que pagaram milhares de euros. Quando nos contactaram, estavam em pânico”, acrescenta.

À Quebrar o Silêncio, revela ainda Ângelo Fernandes, chegam casos em que os sobreviventes começam por pagar 50 euros ou 100 euros, “para depois serem vítimas de uma escalada na violência exercida e nas ameaças para extorquir valores cada vez maiores”. “Há casos em que os pagamentos chegaram a rondar os 20 mil euros”, diz ainda o responsável.

“Eu nem fazia ideia que era crime”

Rui não fugiu ao padrão. “Desesperado”, ia pagando o que os extorsionistas iam pedindo, “mas cada vez que enviava dinheiro a chantagem não parava, apenas aumentava”.

“Eu nem fazia ideia de que aquilo fosse crime ou que se chamava extorsão sexual. Só queria que tudo acabasse, porque tinha medo de perder o contacto com os meus filhos e de ser humilhado. Sentia-me ridículo por ter caído neste esquema e nem sei o que me passou pela cabeça para enviar um vídeo em que se via a minha cara”, recorda.

Foi quando pediu ajuda à Quebrar o Silêncio que Rui ficou a saber que estava perante o crime de extorsão sexual. “Explicaram-me que eu não tinha de lidar com aquilo sozinho, mas nessa altura já tinha enviado mais dinheiro. No total, paguei mais de 6 mil euros”, lamenta.

Rui foi aconselhado pela associação a recolher todas as provas possíveis e a fazer prints de todas as conversas antes de bloquear o perfil usado pelos extorsionistas e o denunciar à plataforma utilizada. A Quebrar o Silêncio aconselha também as vítimas a apresentarem queixa às autoridades, mas nem todos o fazem. Querem simplesmente “acabar com aquilo” e pôr o assunto para trás das costas. Temem que a situação se torne pública e a vergonha fala mais alto do que a vontade de fazer justiça.

“Querem uma medida SOS. Muitos nem nos voltam a contactar. Querem é desaparecer com o problema e não querem sequer apoio psicológico”, explica Ângelo Fernandes.

A situação é de tal ordem que a associação criou já uma lista de conselhos práticos para vítimas ou potenciais vítimas:
 

 

O que fazer em caso de extorsão sexual?
 

Não ceda à chantagem
Não envie dinheiro nem mais imagens ou vídeos. Ceder pode encorajar o criminoso a continuar.

Guarde todas as provas
Faça capturas de ecrã das mensagens, perfis e transações (se aplicável). Guarde links e e-mails.

Interrompa o contacto
Não tente negociar ou dialogar. Bloqueie a pessoa em todas as plataformas.

Denuncie o crime 
Denuncie à Polícia Judiciária através do portal da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e Criminalidade Tecnológica (UNC3T) ou presencialmente. Pondere contactar associações de apoio como a Quebrar o Silêncio ou a Associação Não Partilhes. ​Se a chantagem ocorreu nas redes sociais, denuncie a conta aos administradores da plataforma.

 

Quem cai nestes esquemas também nem sempre são homens adultos. Na verdade, a Quebrar o Silêncio recebeu também pedidos de ajuda de jovens. Se nos adultos os extorsionistas usam sobretudo o Facebook, adaptam a forma de atuar e recorrem mais ao Instagram e até ao Tik Tok.

A nível de investigação criminal, é, muitas vezes, difícil seguir com o caso, porque mudam de telemóvel e de computador com frequência. Os estragos emocionais nas vítimas são irreparáveis: o pânico, a vergonha e a autoculpabilização passam a ser companheiros de vida.

Aumento dos pedidos de ajuda

A Quebrar o Silêncio conta já com nove anos de existência. De ano para ano, aumenta o número de vítimas e sobreviventes de crimes sexuais que pedem ajuda à associação. Em 2025, registou 283 pedidos de ajuda, o número mais elevado desde a sua fundação, em 2017. Desses pedidos, 154 correspondem a homens sobreviventes de violência sexual.

A média de idades dos homens apoiados é de 38 anos, com idades entre os 14 e os 70 anos. “Embora maioritariamente masculina, a violência sexual não é praticada exclusivamente por homens. Em 2025, sempre que foi possível identificar o sexo do abusador, os dados da Quebrar o Silêncio indicam que 65% foram homens e 35% mulheres, contabiliza a associação, num comunicado enviado às redações.

Ao todo, a partir dos pedidos de ajuda, a Quebrar o Silêncio conseguiu identificar, em 2025, 165 crimes, dos quais 74 foram de abuso sexual de crianças, adolescentes e menores dependentes, 67 de importunação sexual, 13 de violação e violação na forma tentada, seis de perseguição, coação sexual ou assédio sexual e cinco de violência doméstica.

 

Caso esteja a ser vítima de crimes de índole sexual ou conhece alguém nessa situação, procure ajuda, junto da Quebrar o Silêncio, através dos seguintes contactos: telemóvel - 910 846 589, e-mail - apoio@quebrarosilencio.pt ou use o formulário na página da associação.

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