Especialistas alertam: o seu filho pode estar a precisar de abraços. Saiba o que fazer

CNN , Madeline Holcombe
19 fev, 14:00
Abraço (Getty Images)

"Abraçar acalma o sistema nervoso. Desempenha, de igual modo, um papel importante na regulação das emoções", diz psicóloga

Se uma criança teve um dia difícil, se se sentiu sozinha ou stressada, a cura para isso parece ser um abraço vindo de alguém que ama. Os especialistas dizem que isto não é só uma sensação. Há provas que mostram que um abraço é importante para o nosso bem-estar, em todas as fases da vida.

"Abraçar acalma o sistema nervoso. Desempenha, de igual modo, um papel importante na regulação das emoções", disse Lisa Damour. A psicóloga clínica, sediada no Ohio, é especializada no desenvolvimento de raparigas adolescentes.

Numa fase de mudanças abruptas e de incerteza, argumenta-se que muitas crianças e adultos precisam, mais do que nunca, de abraços. No entanto, o afeto físico entre as pessoas tem diminuído por causa do distanciamento que a pandemia exige.

"O desafio é que as crianças e, sobretudo, os adolescentes, sentem-se reconfortados através do contacto físico", disse Lisa Damour, autora do livro: "Under Pressure: Confronting the Epidemic of Stress and Anxiety in Girls."

"Lutar, esbarrar nos outros, sentar-se perto de alguém… Tudo isto não só diminuiu por causa da pandemia, como todos estes comportamentos passaram a ser vigiados, de forma a que as crianças mantivessem a distância", disse Damour. "Em vez de se sentirem aliviadas, as crianças foram corrigidas.”

“Sem tantas brincadeiras, desporto e oportunidades de contacto com a comunidade, muitas crianças podem estar a receber o conforto físico de que necessitam da sua família mais próxima”, disse a psicóloga. Contudo, nem todas as famílias têm a mesma opinião sobre a cultura dos abraços. No entanto, devido a todas as preocupações causadas pela pandemia, as famílias podem estar a perder sinais de que os seus filhos precisam de mais carinho e afeto.

A psicóloga clínica disse: “Embora os abraços sejam importantes para o bem-estar de uma criança, também é crucial garantir que os seus filhos entendam que eles têm o poder de decisão sobre o seu corpo.”

Trazer os abraços para a sua casa

Quando o filho da ex-professora Suzanne Barchers era muito novo e começava a fazer birras, a mulher pegava num livro e sentava o filho no seu colo para lerem. Ele podia não saber exatamente o que precisava ou talvez não tivesse palavras para explicar o que sentia, mas o contacto físico com a mãe colmatou as suas necessidades emocionais.

“Com quatro anos, o meu filho parava quando achava que ia fazer uma birra. Então, ele dizia-me: ‘Mãe, acho que preciso de um livro’ “ disse Barchers, autora de livros educacionais para crianças e membro do Conselho Consultivo Educacional da Lingokids.

A cultura de uma família em torno dos abraços, bem como as preferências pessoais de uma criança, têm impacto na melhor forma de trazer mais conforto para a sua casa.

"Algumas crianças sentem-se mais confortáveis quando procuram afeto. Outras estão, de facto, a procurar pessoas que captem as suas pistas e os seus sinais, como quando se sentem angustiadas ou frustradas", disse Sheri Madigan, psicóloga clínica e professora de desenvolvimento infantil na Universidade de Calgary, no Canadá. "Um fator muito importante para que as crianças sintam segurança é, na realidade, terem pessoas que reparem nessas dicas. Uma maneira de estar mais consciente das pistas do seu filho é fazer perguntas.”

Damour disse: "É tão simples como perguntar às crianças mais novas: “Queres um abraço?” Deixe claro que não haverá ressentimentos se a criança disser que não quer. "Para os adolescentes, sobretudo se eles estão a sofrer, eu acho excelente perguntar-lhes se querem um abraço.”

Assim como as crianças diferem na forma como comunicam a sua necessidade de afeto, elas também podem diferir no tipo de afeto que querem. Por isso, os adultos relevantes nas suas vidas podem ir ao encontro das suas necessidades emocionais de forma criativa.

Barchers disse: “Pode ser um bilhetinho de amor na sua lancheira, sentarmo-nos um bocadinho no sofá ou fazermos um forte com um cobertor.”

Os abraços devem ser para eles e não para os outros

Damour disse: “Um dos elementos mais importantes do afeto físico é garantir que seja a criança a manifestar esse afeto. Esta demonstração de carinho tem de existir não apenas porque os pais ou os cuidadores querem.”

"Terá o efeito oposto do que gostaríamos para as crianças. Em vez de o afeto físico ser reconfortante e tranquilizador, pode provocar ansiedade”, disse Damour.

Madigan disse: “É aí que entra a leitura das pistas que uma criança dá. Se vir que o seu filho está nervoso ou chateado, talvez seja o momento de construir o seu vocabulário emocional. Em vez de impor afeto, ofereça-o.”

“Estabeleça contacto visual com a criança e pergunte-lhe como ela está e se pode fazer alguma coisa para ajudar”, disse Madigan.

Barchers disse: “É importante dar autonomia corporal às crianças. Assim, faz-se com que os abraços sejam eficazes e acalmem. No entanto, isto também serve para alertar a criança para algum tipo de afeto inadequado e indesejado que possa ter no futuro.”

"Acho que deve ter-se esta conversa num ambiente confortável. Consoante a idade da criança, um pai deve perguntar-lhe o que a deixa confortável", disse Barchers. "Não queremos assustar as crianças, mas vale a pena ter uma conversa onde perguntamos: “O que é um bom ou um mau abraço?”

Respeitar o corpo dos outros

Se se ensinar às crianças que devem respeitar o seu corpo, falar sobre abraços também pode ajudá-las a ter respeito pelo corpo dos seus colegas.

Antes da pandemia, as crianças corriam, à segunda-feira, no recreio da escola e abraçavam os seus amigos. Talvez algumas famílias se sintam mais confortáveis a abraçar pessoas fora do seu núcleo familiar mais próximo. No entanto, devem estar cientes de que os outros podem ser mais cautelosos em relação a isso ou podem apresentar alguma condição de maior risco.

“Dantes, as expressões faciais poderiam ter indicado que um abraço era bem-vindo. Agora, com o uso da máscara, isso não é tão claro.”, disse Barchers.

No lugar das dicas visuais, Barchers recomenda aos pais e cuidadores que ajudem os seus filhos a desenvolver pistas verbais. Deve ser normal perguntar se não há problema em dar um abraço. Caso haja, oferece-se afeto verbal.

“Como a pandemia ainda perdura, existem obstáculos relativamente ao afeto físico. Por isso, é vital oferecer aos outros maneiras apropriadas de conforto”, disseram os especialistas. Os adultos podem assumir a liderança, de forma a fazer com que as crianças se sintam seguras e amadas.

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