Estudo revela que abelhões conseguem resolver puzzles sem treino prévio
Há mais de 100 anos, o psicólogo alemão Wolfgang Köhler realizou uma experiência famosa que mudou a forma como os cientistas entendem a inteligência animal e o poder da intuição — ou resolução espontânea de problemas.
Köhler criou aquilo que descreveu como um recreio para um grupo de chimpanzés, com uma banana suspensa fora do alcance e vários objetos — caixas, varas e paus — espalhados pelo espaço. Os objetos ofereciam oportunidades de exploração e a comida apresentava um desafio que os animais precisavam de resolver. Depois de tentarem em vão alcançar a banana, os chimpanzés começaram rapidamente a reorganizar os objetos. Acabaram por empilhar as caixas e apanhar facilmente a recompensa.
A experiência demonstrou que os chimpanzés eram capazes de raciocínio institivo. Embora a maioria dos animais consiga resolver problemas básicos, o raciocínio institivo é um nível acima porque implica compreender relações de causa e efeito sem depender de tentativa e erro, imitação de outros ou conhecimentos prévios. Os cientistas observaram esta capacidade cognitiva apenas num pequeno grupo de espécies: grandes primatas, elefantes e algumas aves. Existe um debate científico em curso sobre se mais espécies — invertebrados como polvos e certas aranhas — devem também integrar o grupo dos solucionadores espontâneos de problemas.
Agora, um estudo publicado esta semana na revista Science sugere que os abelhões possuem intuição. Numa experiência de laboratório, os insetos conseguiram fazer rolar uma pequena bola de espuma por baixo de uma flor azul artificial, subir para cima da bola e usá-la para alcançar a flor, obtendo uma recompensa açucarada. “Mostrámos pela primeira vez que os abelhões conseguem resolver espontaneamente uma tarefa completamente nova de manipulação de objetos, sem treino prévio nem tentativa e erro”, afirma o autor principal do estudo, Akshaye Bhambore, investigador de doutoramento na Universidade de Oulu, na Finlândia.
Estudos anteriores já tinham demonstrado que os abelhões conseguem usar comportamentos aprendidos socialmente e raciocínio lógico para resolver puzzles. Nesta nova experiência, porém, os investigadores expuseram os insetos aos diferentes elementos da tarefa, mas nunca lhes ensinaram diretamente a solução.
O resultado sugere que um cérebro minúsculo de inseto pode suportar comportamentos surpreendentemente flexíveis, segundo James Nieh, professor no departamento de ecologia, comportamento e evolução da Universidade da Califórnia em San Diego, que não participou no estudo. “As abelhas normalmente não movem objetos para criar plataformas, por isso este não é um comportamento natural dos abelhões”, observa. “Mas a experiência mostra que conseguem memorizar a localização de um objetivo escondido e manipular um objeto em relação a esse objetivo.”
Natalie Hempel de Ibarra, professora associada de neuroetologia na Universidade de Exeter, em Inglaterra, também não envolvida na investigação, afirma que este estudo mostra como os insetos conseguem aprender e alterar o comportamento de formas que os cientistas estão apenas a começar a compreender. Esta flexibilidade poderá influenciar a forma como abelhas e outros polinizadores interagem com flores, ajudando-os a lidar com desafios à medida que os ambientes e as paisagens mudam, acrescenta.
Fazer a bola rolar
Os investigadores construíram uma arena circular com cerca de 10 centímetros de diâmetro e 3,2 centímetros de altura, onde os abelhões podiam caminhar, mas não voar. No centro, colocaram uma flor azul artificial com uma solução açucarada e deixaram os insetos explorá-la. Colocaram também uma pequena bola de espuma para familiarizar os abelhões com o objeto e demonstrar que não representava ameaça.
Num segundo cenário, surgiu um novo desafio: a bola cobria a flor azul e os insetos conseguiram empurrá-la para obter acesso à recompensa. Num terceiro e último cenário — concebido para testar a intuição — os investigadores moveram a flor do chão para o teto, imediatamente acima de uma de quatro cavidades adaptadas ao tamanho da bola. A maioria dos abelhões que tinha sido exposta aos dois primeiros cenários — 75% deles — conseguiu fazer rolar a bola até à cavidade correta e subir para cima dela para alcançar a flor.
Os investigadores apresentaram também o terceiro cenário a dois grupos adicionais de abelhões: um que apenas tinha sido exposto à flor, mas não à bola, e outro completamente novo tanto para a flor como para a bola. Nenhum destes grupos conseguiu resolver o puzzle.
“Queríamos perceber quanta informação prévia precisavam para resolver a tarefa”, explica Olli Loukola, coautor do estudo, ecologista comportamental e investigador sénior da Universidade de Oulu. “Precisamos de eliminar a neofobia, ou medo de objetos novos, dando-lhes a bola e mostrando que é segura. E também precisam da motivação, ou da associação entre a recompensa e a cor azul da flor, porque sem isso o azul não significa nada. Mas estas duas coisas juntas dão-lhes informação suficiente para resolver espontaneamente o verdadeiro problema, que é usar a bola como escada para alcançar a flor azul.”
Para excluir a possibilidade de os abelhões resolverem o problema movendo a bola aleatoriamente ou reagindo apenas ao estímulo visual da flor azul, os investigadores repetiram a experiência em condições mais exigentes. Criaram um cenário em que a flor não era visível a partir da posição inicial da bola. Ainda assim, os abelhões expostos aos dois primeiros cenários conseguiram resolver o problema e alcançar a flor.
Loukola afirma que os abelhões demonstraram um “verdadeiro comportamento orientado para objetivos” ao usarem a bola como escada, ao contrário do segundo cenário, em que apenas precisavam de empurrar a bola para fora da flor. “Nessa tarefa mais simples, as abelhas não precisavam de compreender nada e ainda assim conseguiam aprender a resolvê-la.”
No terceiro cenário, porém, compreender o objetivo era essencial. “Elas sabiam que, se não conseguiam alcançar a flor no teto, havia uma bola que podiam mover para se tornarem maiores. Portanto, precisavam de compreender de certa forma a física da tarefa e ter um objetivo em mente”, explica.
No entanto, acrescenta, isso não significa que os abelhões possuam raciocínio ou consciência semelhantes aos humanos. O estudo também evita classificar o comportamento como “uso de ferramentas”, uma definição frequentemente debatida no estudo do comportamento animal.
Mesmo assim, Loukola considera o resultado particularmente significativo porque os abelhões eram “verdadeiramente ingénuos”, ou seja, nada na experiência de vida deles os poderia ter preparado para resolver o problema apresentado. “Podemos ter a certeza de que nenhum dos abelhões teve qualquer experiência anterior com estas tarefas, por isso sabemos que isto não é um comportamento inato.”
Aprender e mudar
O desempenho dos abelhões é ainda mais impressionante do que o dos chimpanzés de Köhler, já que em algumas experiências não conseguiam sequer ver o objetivo quando começaram a mover a bola, segundo Lars Chittka, professor de ecologia sensorial e comportamental na Queen Mary University de Londres, que também não participou no estudo.
“É um pouco como entrar numa sala, perceber que há algo no teto que precisa de ser tratado — talvez mudar uma lâmpada — perceber que precisamos de uma cadeira ou escada para alcançar o local, ir buscar esse equipamento a outra divisão e regressar ao sítio certo”, descreve.
“Tudo isto exige realmente alguma compreensão da tarefa, manter na memória onde está o objetivo e agir de forma apropriada.”
Chittka acrescenta que os resultados devem levar os cientistas a repensar quanta inteligência pode caber num pequeno sistema nervoso e lembra que os seres humanos, enquanto seres pensantes, estão rodeados de muitos outros seres também pensantes, “por mais radicalmente diferentes que possam ser as suas formas de pensar”.
