«É barulhento, como o Palmeiras»: os maiores jornalistas do Brasil falam de Abel

4 nov, 09:26
Abel Ferreira

Quatro nomes grandes do comentário desportivo falaram com o Maisfutebol e não deixaram dúvidas: o português é hoje o melhor treinador no país, por isso é um forte candidato à seleção canarinha. Podem nem todos os adeptos gostar dele, mas os palmeirenses adoram-no e o futebol brasileiro deve-lhe um agradecimento.

Abel Ferreira tornou-se um fenómeno no Brasil. O treinador português conquistou esta quarta-feira o título de campeão e completou o expositor lá de casa com o troféu que lhe faltava. Antes disso já tinha ganhado duas Copas Libertadores, uma Copa do Brasil, um Recopa Sul-Americana e um campeonato paulista.

São de facto muitos títulos, e sobretudo títulos importantes, para um jovem treinador que na quarta-feira, precisamente, completou dois anos desde que chegou ao Brasil.

Ora por isso, e a caminhada de Abel no futebol brasileiro não tem sido sempre em linha reta, o Maisfutebol foi tentar perceber o que o Brasil pensa do treinador português. Para isso procurou alguns dos maiores jornalistas desportivos do país, para dois dedos de conversa.

Paulo Vinicius Coelho, mais conhecido pelas iniciais de PVC, considerado o comentador desportivo mais influente, lembra que é difícil haver unanimidade sobre qualquer tema no Brasil.

«Mas há uma coisa mais ou menos consensual: o Abel Ferreira é reconhecido como o melhor treinador de um clube em atividade no Brasil», garante.

«Ele é adorado no Palmeiras. Há até um senhor que leva sempre um cartaz: ‘Abel Ferreira para presidente’. Ele tem uma admiração enorme, um carinho enorme e merecido dos adeptos. A verdade é que o Abel virou o jogo: evoluiu muito, tem uma grande variedade tática e fez um trabalho notável num clube que estava muito desestruturado.»

André Kfouri, filho do mítico Juca Kfouri, vai até mais longe.

«Eu acho até que, para além das conquistas e da forma como desenvolveu a equipa do Palmeiras, e ela é muito melhor hoje do que era quando ele chegou, para além de tudo isso o futebol brasileiro deve um agradecimento ao Abel: um agradecimento pelas declarações, muitas vezes polémicas, que ele fez e nas quais ele apontou os defeitos, reclamou dos problemas e se mostrou indignado pela forma como o futebol é dirigido aqui no Brasil.»

Danilo Lavieri, colunista do UOL Esportes, adianta que o português conseguiu em apenas dois anos subir ao primeiro lugar do pódio no coração dos adeptos.

«É visto por muitos como o melhor da história do Palmeiras, ultrapassando inclusivamente o Luiz Felipe Scolari. O Abel já empatou em números de títulos com o Scolari, mas num período muito menor e com uma identificação absurdamente grande com os adeptos do Palmeiras. O palmeirense está em êxtase com ele.»

Mauro Beting tem dificuldade em eleger o melhor treinador da história do Palmeiras, preferindo colocar Abel num lote de quatro melhores, mas adianta que sim, a identificação do português com os adeptos do Verdão tem sido uma coisa louvável.

«Eu até costumo dizer que o Abel é um palmeirense de Penafiel: mesmo antes de vir para o Palmeiras, ele já era palmeirense e não o sabia. Ele tem todas as características do clube. É muito exigente, reclama da arbitragem, gosta de ser contra tudo e contra todos», sublinha.

«O palmeirense é assim também, muito barulhento. É uma coisa estrutural. Tem muita aquela narrativa da família italiana e a família italiana é naturalmente ruidosa. Os brasileiros de outros clubes não gostam disso e não suportam essa identificação do Abel com o Palmeiras.»

Mas no fundo todos lhe reconhecem valor. Um valor diferente do que tinha, por exemplo, Jorge Jesus, mas ainda assim um valor inquestionável.

Paulo Vinicius Coelho, comentador da Globo, da Sportv, da CBN e colunista da Folha de São Paulo:

«Num Brasil em que o presidente da República é eleito com 51 por cento dos votos, e o presidente em exercício perde com 49 por cento, percebemos que não somos um país de uma opinião só. Mas há uma coisa mais ou menos consensual: o Abel é reconhecido como o melhor treinador de um clube no Brasil. Os brasileiros têm a tradição de olhar para o selecionador sempre como o melhor. Mas o melhor treinador num clube é reconhecidamente o Abel e isso é que faz dele um candidato a sucessor do Tite na seleção.

O Abel chegou a ser acusado de arrogante, recebeu um ataque que me pareceu desproporcionado quando criticou o Gabriel Verón, que agora está no FC Porto, e até foi acusado de ter um comportamento colonizador, mas a verdade é que ele tinha razão. Acho que se expressou mal, falou de educação quando queria dizer profissionalismo, mas no fundo tinha razão. O comportamento do Verón não foi profissional: a dois dias de um jogo decisivo com o rival São Paulo, ser apanhado a beber álcool pelo gargalo não é profissional.

Depois houve quem referisse que o Abel estava a ser vítima de xenofobia. Mas também acho que não é xenofobia: xenofobia sofreu o meu pai que chegou ao Brasil com dez anos e teve de perder o sotaque lisboeta para não ser gozado na rua. Isso, sim, é xenofobia.

A verdade é que o treinador português evoluiu muito, está muito bem preparado e tem contribuído de uma forma gigantesca para mostrar que é possível juntar conhecimento teórico com experiência prática. Por isso desde Co Adriaanse, em 2006, nenhum estrangeiro foi campeão em Portugal. Pode ser este ano o Roger Schmidt, vamos ver, mas o certo é que há dezasseis anos não há campeões estrangeiros em Portugal, porque o português está muito bem preparado. O Abel, por exemplo, é muito bem formado do ponto de vista teórico.

Mas existe uma reserva de mercado. O treinador brasileiro não gosta quando ele critica o Cuca. Ele deu uma entrevista a dizer que o Cuca devia jogar mais por dentro e o Brasil não aceitou isso. Nós não entendemos que o português seja mais direto. Eu conto uma história que vivi num restaurante em Lisboa. Estava com a minha esposa, ela chamou o empregado e perguntou se o ananás estava doce. Aí o empregado respondeu: ‘Não sei, não comi’. Isso seria impossível no Brasil. O empregado ia para trás e voltava com uma resposta.

Mas isso não quer dizer que o português seja rude ou mal-educado. Ele só é mais literal. O Luís Castro passou o mesmo no Botafogo. Quando ele disse que não estava preocupado com manter o lugar dele, toda a gente achou que estava a desconsiderar o Botafogo. Mas não, foi só uma forma de afastar uma pergunta que lhe faziam sempre. Por isso acho muito bom que finalmente estejamos a ter, Portugal e o Brasil, uma capacidade de intercambiar conhecimentos e experiência. Pessoas inteligentes olham nos olhos e resolvem os problemas. E a verdade é que o Abel resolveu muitos problemas do Palmeiras.»

André Kfouri, comentador da ESPN:

«Como treinador, a imagem que o Abel tem no Brasil é de um treinador extremamente trabalhador, obcecado pelos detalhes no dia a dia, muito competente, decisivo até, no aspeto tático e estratégico do jogo e um fiel defensor das suas convicções e da sua maneira de entender o futebol. Ele acabou por ter um impacto diferente do que teve Jorge Jesus, mas essencialmente pelas sensações provocadas pelo futebol de cada uma das equipas.

O brasileiro relaciona-se melhor com equipas que joguem um futebol estruturado e com jogadores tecnicamente dotados. O Flamengo de Jorge Jesus jogou bonito e sobrou de mais em relação às outras equipas do ponto de vista técnico. O Palmeiras do Abel demorou a provocar essas sensações. No início era muito competitivo, mas apenas isso. Só durante este ano de 2022 o Abel conseguiu fazer a equipa dar um passo à frente, gostar mais da bola e ser superior aos adversários através da posse. Mas isso não significa nada em relação aos méritos. Cada treinador tem total legitimidade para estabelecer a sua forma preferida de jogar.

Algumas declarações dele foram mal recebidas, mas infelizmente mal recebidas até de uma maneira propositada. A presença de um treinador estrangeiro ganhando tanto e recebendo tantos elogios incomoda uma parte dos adeptos e, sobretudo, dos treinadores brasileiros, que não consegue lidar com a oportunidade que o Abel recebeu ainda no início da carreira e à qual respondeu levando o Palmeiras a tantos títulos. Às vezes é até uma questão de inveja.

Essas declarações mal recebidas tocaram na vida quotidiana dos brasileiros, na forma como o jogador brasileiro é desenvolvido e talvez as pessoas não tenham compreendido o que ele quis dizer. Eu compreendi e posso garantir que não percebi em nenhuma declaração, nem sequer nas mais polémicas, uma intenção do Abel em ser desrespeitoso com o Brasil ou com o futebol brasileiro. Eu acho até que, para além das conquistas e da forma como desenvolveu a equipa do Palmeiras, e ela é muito melhor hoje do que era quando ele chegou, para além de tudo isso o futebol brasileiro deve um agradecimento ao Abel justamente pelas declarações nas quais ele apontou os defeitos, reclamou dos problemas e se mostrou indignado pela forma como o futebol é dirigido aqui no Brasil. O facto de ele ter aceitado trabalhar no Brasil não o torna um cúmplice dos problemas do futebol brasileiro. Muito gente, infelizmente, tem dificuldades em compreender isso. Ele aceitou trabalhar aqui, era uma boa oferta, era uma oportunidade que queria viver, deu muito certo até agora, mas isso não significa que ele não possa apontar todas as coisas que considera erradas.»

Mauro Beting, comentador da TNT Sports, do SBT e da rádio Joven Pan:

«Confesso que pouco conhecia da obra do Abel como treinador e não era a minha primeira opção para o Palmeiras. Não era também a primeira opção do Palmeiras. Mas falando com pessoas em Portugal percebi que podia ser uma aposta interessante. Após a apresentação, e a primeira conferência de imprensa, fiquei muito bem impressionado. Agora conseguiu esse título fantástico, muito merecido, e desde ontem já se especula que ele é o maior e melhor treinador da história do Palmeiras. Eu ainda não acho que seja o maior, mas está entre os quatro maiores, juntamente com o Vanderlei Luxemburgo, o Scolari e o Oswaldo Brandão.

A verdade é que no Brasil há muita gente que o critica por tudo e por nada. Eu até brinco que ele vai ser responsabilizado pela crise da Independência, pelo extrativismo progressista e pela guerra na Ucrânia. Acho que o Abel às vezes não se expressa bem, é verdade, mas também há uma má vontade contra o Abel por ser o treinador do Palmeiras. Até porque o palmeirense é muito barulhento. É uma coisa estrutural. O palmeirense tem muita aquela narrativa da família italiana e a família italiana é naturalmente ruidosa. Os brasileiros de outros clubes não gostam disso, não suportam isso e não suportam essa identificação do Abel com o clube.

Eu até costumo dizer que o Abel Ferreira é um palmeirense de Penafiel: mesmo antes de vir para o Palmeiras, ele já era palmeirense e não o sabia. Porque ele tem todas as características do clube. É muito exigente, é barulhento, reclama da arbitragem, gosta de ser contra tudo e contra todos. Isso chateia muita gente. E depois, claro, há o facto de ele ser estrangeiro. Lamentavelmente no Brasil existe muita xenofobia. Da imprensa, e até dos colegas treinadores brasileiros, há muita má vontade contra o Abel e sobretudo contra os treinadores portugueses.

Ele é muito rude às vezes, bate muito forte, mas essa é uma característica dos portugueses, que são muito diretos na forma como falam. Eu digo que é uma característica porque não considero uma virtude, nem um defeito. Só que muita gente não compreende, ou não aceita, isso. Em contrapartida no Palmeiras ele é adorado. Há até um senhor que leva sempre um cartaz: 'Abel Ferreira para presidente'. Ele tem uma admiração enorme, um carinho enorme e merecido dos adeptos. Ele virou o jogo: evoluiu muito, tem uma grande variedade tática e fez um trabalho notável num clube que estava muito desestruturado. O Abel está muito na linha do Scolari, no sentido que ele orienta os jogadores, orienta os adeptos e orienta até a comunicação social. É inteligente e sabe levar as coisas para onde lhe interessa.»

Danilo Lavieri, colunista do UOL Esportes:

«O Abel, especialmente depois do título de ontem, é visto por muitos brasileiros como o melhor treinador em atividade no Brasil. Há algum tempo foi comparado ao Jorge Jesus, mas o Jesus ficou apenas uma temporada e não conseguiu tanto sucesso como o Abel ao longo destes anos. Por isso é apontado por muitos como um candidato à seleção brasileira.

Para os palmeirenses, então, ele é um ídolo. É visto por muitos como o melhor da história do Palmeiras, ultrapassando inclusivamente o Luiz Felipe Scolari. O Abel já empatou em números de títulos com o Scolari, mas num período muito menor e com uma identificação absurdamente grande com os adeptos do Palmeiras. O palmeirense está em êxtase com ele. Já o brasileiro, em geral, não se cansa de o elogiar. Há algumas críticas em relação a algumas conferências de imprensa dele, algumas vezes em que é mais rude, mas tirando isso, no quesito campo e bola, é considerado por quase toda a gente o maior treinador em atividade no Brasil.

Sobretudo quando ele falou sobre o facto de os jogadores brasileiros terem de evoluir muito fora de campo, tocando na questão da edução e tudo o mais, isso influenciou um pouco a imagem do Abel no Brasil. Houve jornalistas e adeptos em geral que consideraram a declaração preconceituosa e eurocentrista, como se na Europa isso não existisse. A minha opinião é que foi sobretudo uma questão de não se ter expressado bem, porque eu entendi o que ele quis dizer: que os jogadores brasileiros têm muitos problemas fora de campo, muitos surgem como grandes promessas e não conseguem vingar devido a um problema estrutural de formação no país. Mas a declaração caiu mal junto de algumas pessoas. Inclusivamente foi chamado de colonizador por alguns jornalistas e processou dois por causa disso.»

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