Maioria acha que o 25 de Novembro devia ser apenas "mais uma data" histórica, mas ninguém quer tanto que seja feriado como os eleitores do Chega

25 nov, 08:00
Soldado barricado no Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS)

SONDAGEM || São 32 perguntas sobre o 25 de Novembro e o período que o antecedeu: em média, os eleitores acertam em pouco mais de metade. Sabem que se tratou de um golpe militar falhado que fechou o PREC (que para uns quantos foi, afinal, um “Programa de Recuperação do Estado Colonial”), reconhecem quase sempre Cunhal e Soares, mas baralham-se mais em Spínola, nas siglas e nos cargos. No fim, a data aparece sobretudo como marco da consolidação democrática, guardado como “data histórica” por larga maioria

Cinquenta anos depois do 25 de Novembro de 1975, uma sondagem da Pitagórica para a TVI e CNN Portugal mostra que os eleitores portugueses continuam a ler essa data como momento de consolidação da democracia, mas preferem que fique sobretudo no plano da memória histórica.

De cada 100 inquiridos, 64 dizem que, na sua opinião pessoal, o 25 de Novembro devia ser “apenas uma data histórica”, 23 gostariam de o ver transformado em feriado nacional, oito já o consideram “um tema ultrapassado” e 5% não têm resposta. Entre os que mais defendem o feriado está o eleitorado do Chega: 36 em cada 100 votantes desse partido querem o 25 de Novembro no calendário dos feriados, mais do que no PS (17%), na AD (25%) ou entre os que se colocam fora destas forças (12%).

O estudo, aplicado por telefone entre 5 e 14 de novembro, junto de 1000 eleitores recenseados em Portugal, com margem de erro máxima de 3,16 pontos percentuais, faz um retrato mais amplo: 58% de respostas certas num conjunto de 32 perguntas sobre o 25 de Novembro e o período que o antecede, o que corresponde a uma nota “positiva, mas sem distinção”, segundo o próprio sumário executivo.

Os autores sublinham que homens, eleitores com 55 ou mais anos, classes sociais mais altas (A/B e C1), moradores na Grande Lisboa e votantes do PS são os segmentos que obtêm melhor desempenho, todos acima dos 60% de acertos. O único grupo claramente abaixo da linha de água é o dos 35 aos 44 anos, com 47% de respostas certas.

Quando se pergunta o que está hoje em causa no 25 de Novembro, a resposta dominante é a da consolidação democrática: 77% dos inquiridos dizem que é isso que se assinala na data, contra 10% que a confundem com o fim da Guerra Colonial e apenas 2% que falam em “restauração da ditadura”. Os restantes 11% não sabem ou não respondem. É uma leitura que encaixa na descrição histórica do dia: uma tentativa de golpe militar na Grande Lisboa, protagonizada sobretudo por paraquedistas da Base-Escola de Tancos, que na madrugada de 25 de novembro ocuparam bases aéreas como Tancos, Monte Real, Montijo e o comando de Monsanto, e que foram travados pelos comandos da Amadora, chefiados por Jaime Neves, sob orientação do Presidente Costa Gomes e do Conselho da Revolução.

A crónica do dia ajuda a perceber o que está por trás de algumas perguntas. Na manhã de 25 de Novembro de 1975, o Regimento de Artilharia de Lisboa posicionou-se nos acessos à autoestrada do Norte e ao aeroporto, a Escola Prática de Administração Militar tomou a RTP, o Copcon mantinha o controlo de boa parte dos meios militares na capital e, a partir da Emissora Nacional, surgiam apelos a reforços. O Presidente da República chamou a Belém os membros do Conselho da Revolução e os comandos militares, retirou a Otelo Saraiva de Carvalho o comando operacional do continente e avisou que recorreria à força para travar o levantamento.

Ao fim da tarde, os comandos entraram em Monsanto, os paraquedistas renderam-se, seguiram-se operações contra os restantes quartéis revoltosos, foi decretado o estado de sítio na Região Militar de Lisboa e o golpe terminou com três mortos e cerca de uma centena de oficiais da ala militar mais à esquerda detidos. O que se seguiu foi a estabilização: o VI Governo Provisório, chefiado por Pinheiro de Azevedo, retomou funções, o chamado Grupo dos Nove afirmou-se no Conselho da Revolução e Ramalho Eanes passou a ter um papel central, antes de chegar à chefia do Estado.

Na sondagem, os inquiridos são confrontados com essa cronologia de forma fragmentada. Dois terços (67%) escolhem a frase que apresenta o 25 de Novembro como o momento em que “a democracia se consolidou e permitiu eleições livres”, 13% preferem a ideia de que “travou a revolução e desvirtuou o espírito do 25 de Abril” e 11% consideram-no “apenas um episódio militar sem grande impacto político”. Os restantes 9% não tomam posição. A leitura da consolidação democrática é maioritária em todos os quadrantes partidários: entre os eleitores da AD chega aos 75%, desce para 71% no Chega, fica nos 63% no PS e cai para 56% entre os que votaram noutros partidos ou não revelam voto.

Quando a questão é a importância histórica do 25 de Novembro, o país volta a um registo de meio-termo. Só 36% o classificam como “muito importante” para a história de Portugal. A maioria, 51%, responde que foi “importante, mas pouco conhecido”, 9% dizem que é “pouco ou nada importante” e 4% não sabem. Nas gerações mais velhas, com 65 anos ou mais, a fatia dos que falam em “muito importante” sobe para 51%, enquanto entre os 25 e os 44 anos há mais entrevistados a colocarem-se no “importante, mas pouco conhecido”.

O 25 de Novembro foi antes do 25 de Abril e pôs fim ao Programa de Recuperação do Estado Colonial (mas só para uns quantos)

Se se desce ao detalhe factual, o retrato alterna entre zonas de segurança e falhas evidentes. À pergunta mais básica — “qual destas datas aconteceu primeiro, o 25 de Abril ou o 25 de Novembro?” — 85% dos inquiridos acertam: a revolução de 1974 vem antes; 12% invertem a ordem e 3% não respondem.

Já quando se trata de identificar os protagonistas militares e políticos, as certezas distribuem-se de forma desigual. Otelo Saraiva de Carvalho e Salgueiro Maia, ambos ligados ao Movimento das Forças Armadas (MFA) que derrubou a ditadura, são corretamente enquadrados como membros desse movimento por 84% e 85% dos inquiridos, respetivamente, enquanto Melo Antunes, uma das figuras do chamado Grupo dos Nove, só é corretamente situado por 41%.

O caso de António de Spínola, general que apoiou o 25 de Abril mas nunca integrou o MFA e que esteve associado à criação do MDLP, um movimento clandestino de extrema-direita responsável por várias dezenas de atentados à bomba na segunda metade de 1975, é o que mais baralha os entrevistados. Na pergunta sobre quem fazia ou não parte do MFA, apenas 32% respondem corretamente no caso de Spínola, sendo que a maioria acaba por o associar erradamente ao movimento.

Mais à frente, quando a sondagem pergunta “quem foi o general António de Spínola nesse período”, 61% acertam ao descrevê-lo como “um general que apoiou o 25 de Abril, mas não fazia parte do MFA”; os restantes dividem-se entre promovê-lo a “Capitão de Abril”, aproximá-lo do PCP ou admitir que não sabem. O conhecimento sobre a sua tentativa de regressar ao poder, em 1975, através de um golpe militar falhado, também não é esmagador: 43% respondem corretamente, 57% não.

Há nomes que resistem melhor à erosão do tempo. Álvaro Cunhal, secretário-geral do PCP na altura do PREC, é identificado como líder comunista por 88% dos inquiridos. Mário Soares, que liderava o PS e ganhou as eleições para a Assembleia Constituinte, surge com 85% de respostas certas. Já Francisco Sá Carneiro, fundador do PPD, hoje PSD, e figura de referência da direita democrática, aparece com 80% de acerto quando se pergunta quem liderava o partido. No CDS, fundado por Diogo Freitas do Amaral, o grau de reconhecimento baixa para 65%.

Quando se passa para as chefias do Estado e do Governo no próprio 25 de Novembro — Costa Gomes na Presidência da República, Pinheiro de Azevedo como primeiro-ministro —, o conhecimento torna-se mais frágil: 51% acertam no nome do Presidente, 20% no do chefe do Governo.

A sigla PREC, que designa o Processo Revolucionário em Curso, o período de grande agitação política e social que se seguiu ao 25 de Abril, só é desenvolvida corretamente por 47% dos inquiridos. Quase um quinto associa-a a um “Plano de Reorganização Económica e Cívica” e 8% a um “Programa de Recuperação do Estado Colonial”, sendo que 27% não avançam nenhuma resposta.

Já quando se deixa de perguntar pela sigla e se pergunta pelo conteúdo, o retrato é outro: 83% descrevem o PREC como “um tempo de forte agitação social, com ocupações, nacionalizações e divisões políticas”, a síntese usada pelos historiadores para falar de greves sucessivas, da Reforma Agrária no Sul, de nacionalizações em série, da disputa de influência entre um PCP forte nos sindicatos e uma direita radical que respondia com atentados.

“O 25 de Novembro devia ser o quê?”

Na parte final do questionário, os entrevistados são desafiados a ligar o que sabem, ou julgam saber, sobre o 25 de Novembro às questões de calendário e de memória. Do ponto de vista factual, a maioria sabe que a data não é feriado nacional: 86% respondem que não, 4% dizem que sim, 5% pensam que “já foi e deixou de ser” e 5% não sabem. Entre os eleitores do Chega, 9% acreditam que é feriado, a taxa mais alta entre os grandes eleitorados, embora continue claramente minoritária face aos 80% desse grupo que acertam.

Quando a pergunta deixa o plano factual e entra no plano da preferência — “na sua opinião pessoal, o 25 de Novembro devia ser o quê?” — é aí que se nota a diferença: é também entre os votantes do Chega que a vontade de ver o 25 de Novembro elevado a feriado é mais forte, com 36% de respostas, contra 25% na AD, 17% no PS e 12% no campo dos “outros partidos/nenhum”.

No balanço, o “teste” de história recente deixa uma fotografia com duas camadas. De um lado, há um conhecimento razoável da linha do tempo — 25 de Abril antes do 25 de Novembro —, das figuras mais visíveis do MFA, dos líderes partidários dos anos 70 e da leitura do 25 de Novembro como momento em que a democracia se consolidou e abriu caminho a eleições livres. Do outro, há siglas que se confundem, cargos institucionais pouco claros, dificuldade em ligar nomes como Spínola, Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Melo Antunes ou o próprio Pinheiro de Azevedo ao lugar que tiveram no PREC e na crise de 1975.

E, por cima de tudo isso, a forma como a data é guardada: para a maioria dos eleitores, o 25 de Novembro deve continuar sobretudo como “mais uma” grande data histórica do país, mas é no eleitorado que mais frequentemente reivindica essa memória em público — o do Chega — que surge a vontade mais expressiva de a transformar em feriado.

Cinquenta anos depois daquela madrugada de 1975, em que paraquedistas ocuparam bases aéreas e comandos saíram da Amadora para recuperar quartéis na Grande Lisboa, o 25 de Novembro aparece nesta sondagem repartido por três planos: o do conhecimento factual, o das leituras políticas e o do lugar no calendário. A cronologia essencial — um golpe militar falhado que fecha o PREC e permite a estabilização das instituições — é maioritariamente reconhecida, mas a distribuição das respostas mostra que a memória desse processo já não é homogénea entre gerações, regiões e eleitorados.

Ficha Técnica

Sondagem realizada pela Pitagórica para a TVI e CNN Portugal com o objetivo de avaliar a opinião dos portugueses sobre temas relacionados com as eleições presidenciais de 2026. O trabalho de campo decorreu entre os dias 05 e 14 de novembro de 2025.

A amostra foi recolhida de forma aleatória junto de eleitores recenseados em Portugal e foi devidamente estratificada por género, idade e região. Foram realizadas 1906 tentativas de contacto, para alcançarmos 1000 entrevistas efetivas, pelo que a taxa de resposta foi de 52,47%. As 1000 entrevistas telefónicas recolhidas correspondem a uma margem de erro máxima de +/- 3,16% para um nível de confiança de 95,5%.

A distribuição de indecisos é feita de forma proporcional.

A direção técnica do estudo é da responsabilidade de Rita Marques da Silva. A ficha técnica completa, bem como todos os resultados, foram depositados junto da ERC - Entidade Reguladora da Comunicação Social que os disponibilizará para consulta online.

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