A data “25 de abril” está associada à conquista da liberdade. Da liberdade política e social. No entanto, para além desta dimensão mais histórica, esta data pode (e deve) também ser um convite a refletir sobre uma forma de liberdade mais íntima e profunda: a liberdade de ser. De ser quem queremos, como queremos!
Desde cedo, somos expostos a expetativas sobre quem devemos ser, como nos devemos comportar e pensar e, inclusive, até sobre o que devemos sentir. E neste contexto a liberdade pode tornar-se uma ilusão. Porque mesmo sem regimes ditatoriais, podemos continuar presos tanto a uma “censura externa” (sociedade em geral e aqueles que nos rodeiam), como a uma “censura interna” (caraterizada por padrões internos rígidos, exigências e medos).
Vivemos numa sociedade que, muitas vezes, valoriza o “ter” em detrimento do “ser”. Ter sucesso, ter reconhecimento, ter bens, ter controlo, ter respostas. E, uma vez mais, deixamos de ser livres. Livres para ser, porque primeiramente temos de ter. E o Ser implica algo mais profundo. Implica aceitar a complexidade da experiência humana: ser com pensamentos e ser com sentimentos. Durante muito tempo, fomos ensinados a controlar, esconder ou evitar certas emoções (principalmente alguns grupos específicos de pessoas), como se algumas fossem aceitáveis e outras não. No entanto, todas as emoções têm um lugar e uma função. Permitir-se sentir é um ato de liberdade. Permitir-se Ser, Ser o que se quiser com sensações e emoções, talvez seja a liberdade no seu expoente máximo.
Trata-se da capacidade de expressarmos e de dar assim forma ao que somos. Expressar-se, expressarmo-nos, sobretudo através do que sentimos, é afirmar a nossa própria existência.
Falar de liberdade no 25 de Abril pode, assim, ser também falar de autenticidade. Quantas vezes nos censuramos a nós próprios? Quantas vezes evitamos ser genuínos por medo de rejeição, da crítica ou da incompreensão?
A liberdade de ser exige coragem. Coragem para reconhecer emoções, para aceitar imperfeições, para abandonar papéis que já não fazem sentido. Exige também um contexto que a permita — relações onde haja espaço para existir sem máscaras, sem exigências constantes de desempenho.
Ser livre é poder existir com autenticidade, com espaço para sentir, para mudar e para crescer. É reconhecer que o valor de uma pessoa não está no que possui ou demonstra, mas naquilo que é.
Talvez, hoje, a maior homenagem ao 25 de Abril seja esta: lembrar que somos seres humanos, e não “teres” humanos. E que a liberdade mais profunda é, precisamente, a liberdade de ser, sem censuras externas, mas sobretudo, sem censuras internas.