O que foi agora classificado não foi a música de José Afonso, mas os fonogramas que correspondem à interpretação desta canção no I Encontro da Canção Portuguesa, a 29 de março, e, depois, o excerto do programa "Limite", na Rádio Renascença, que deu o sinal para o arranque das movimentações militares na madrugada de 25 de Abril de 1974
O Governo classificou como tesouros nacionais dois fonogramas relativos à senha que deu início à revolução do 25 de Abril de 1974, segundo decreto publicado esta segunda-feira em Diário da República.
Os dois fonogramas são um conjunto de três bobinas, sendo a primeira “correspondente à gravação do programa Limite, da Rádio Renascença, que na madrugada de 25 de abril de 1974 deu início às movimentações militares que culminaram no golpe de estado que pôs fim à ditadura”.
As duas seguintes contêm “a gravação do Primeiro Encontro da Canção Portuguesa, realizado a 29 de março de 1974, no Coliseu dos Recreios, cuja importância reside em contextualizar a escolha de ‘Grândola, Vila Morena’, de José Afonso, como senha da Revolução”.
Como é o que o "Grândola" se tornou a canção de Abril?
A homenagem de José Afonso à vila alentejana de Grândola
A ligação de José Afonso à vila alentejana de Grândola começou a 17 de maio de 1964, quando o músico ali atuou a convite da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, conhecida como "Música Velha". "Era uma coletividade com uma grande atividade e que sempre teve, do ponto de vista democrático, grande importância no concelho. Além da banda, tinha uma biblioteca muito importante, com alguns livros proibidos, e também tinha clubes de teatro. Por isso era frequentada por muitos jovens", recordou à CNN Portugal António Figueira Mendes, que na altura era um jovem de esquerda, envolvido no Partido Comunista, tendo chegado a passar algumas temporadas na prisão.
Cerca de 200 pessoas juntaram-se naquele domingo no Cine-Teatro Grandolense para ouvir Zeca cantar. Foi aqui que, como se explica no site do Observatório da Canção de Protesto, interpretou pela primeira vez "Cantar Alentejano", que evoca o assassinato de Catarina Eufémia, dez anos antes, numa letra de António Vicente Campinas. "Havia sempre pides disfarçados e nós sabíamos disso, mas correu tudo bem", contou António Figueira Mendes.
Correu tudo tão bem que, poucos dias depois, José Afonso escreveu uma carta de agradecimento com um poema com três estrofes dedicado aos sócios da "Música Velha" - estas estrofes estão na génese da canção "Grândola, Vila Morena" que, após várias alterações, viria a ser fixada no album "Cantigas do Maio", editado no final de 1971.
Para a gravação de “Cantigas do Maio”, José Mário Branco, que era o diretor musical do disco, reservou durante por duas semanas o Strawberry Studio, situado num castelo do século XVIII, a 30 quilómetros de Paris. A José Afonso e José Mário Branco juntaram-se ainda Francisco Fanhais e Carlos Correia.
Foi de José Mário Branco a ideia de dar à canção a estrutura do cante alentejano e de gravar o tema só com vozes, com um início que lembra o passo arrastado dos cantores dos grupos tradicionais, marcando o ritmo. No momento da gravação, "o Zé Mário, que tinha estado no Alentejo com o Giacometti, disse logo que aquilo era uma moda alentejana e que devíamos fazê-lo só com vozes e como se fôssemos um grupo de trabalhadores a cantar pela rua ao final do dia do trabalho", recordou José Fanhais à CNN Portugal. "Ainda experimentámos fazer os passos no estúdio mas não ficava bem, até que ele encontrou aquela gravilha no exterior e fomos tentar. O Bóris [o músico Carlos Correia] não estava nesse ensaio, mas estava no dia da gravação."
"Não podíamos imaginar, naquela altura, que a canção iria ganhar um simbolismo tão importante", disse o músico José Fanhais. "Aqueles passos ficaram logo associados à Grândola, são inconfundíveis. Basta ouvir aquilo e já sabemos o que aí vem."
O tema escapou aos ouvidos desatentos dos censores que, aparentemente, não entenderam as referências ao povo que mais ordena. Zeca percebeu que o público reagia bem ao "Grândola", mas nunca imaginou o que estava para acontecer.
O Encontro da Canção: toda a gente no palco a cantar
Em 29 de Março de 1974, realizou-se no Coliseu de Lisboa, o I Encontro da Canção Portuguesa, a pretexto da entrega de prémios da Casa da Imprensa relativos a 1972. O espetáculo esteve quase para não acontecer, a polícia estava no local e a Censura proibiu mais de trinta canções. Mas o Coliseu estava lotado - cerca de cinco mil pessoas tinham comprado o bilhete por 20 escudos (e até por 50 escudos no mercado negro) - e as autoridades não quiseram causar uma revolta. O ambiente era claramente de festa e de resistência. Joaquim Furtado apresentou os prémios. Ao longo da noite, passaram pelo palco músicos como Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, Carlos Paredes, Manuel Freire, José Jorge Letria, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Vitorino e o poeta José Carlos Ary dos Santos, entre outros. José Afonso só cantou nesse espectáculo duas canções: a "Grândola, Vila Morena" e "Milho Verde.
No final, já perto das duas manhã, sobem todos ao palco para uma última atuação. "Então, vamos outra vez cantar o 'Grândola'", disse Zeca Afonso, que teria preferido cantar no fecho o "Venham mais cinco" ou "O que faz falta", por terem refrões mais politizados. Mas, não sendo possivel, optou por cantar o "Grândola", uma das poucas canções que havia escapado à censura, acompanhado por todos os cantores em palco e secundado a plenos pulmões por milhares de vozes em uníssono.
António Figueira Mendes estava lá, com a mulher, e lembra a emoção de estar entre "cinco mil pessoas a cantar em conjunto". "Havia já uma apropriação da canção pelo povo", diz. "O fruto estava a ficar maduro, estava quase a cair. Tudo aconteceu porque era o momento de acontecer."
O espetáculo foi gravado, com meios técnicos muito rudimentares, pelos técnicos de som José Videira e Manuel Tomás, e foi transmitido em três noites consecutivas no programa "Limite" da Rádio Renascença. Essa é a gravação que agora foi considerada tesouro nacional.
A senha da Revolução foi escolhida num momento de aperto junto ao elevador de Santa Justa
Por esses dias de março, estava já a ser preparada, no maior segredo, a Revolução de 25 de Abril. O comandante Carlos de Almada Contreiras tinha na altura 32 anos e já uma longa carreira na Marinha que o levou até ao Centro de Comunicações da Armada, localizado no Terreiro do Paço. E tinha "um problema para resolver", contou à CNN Portugal.
"Depois do que tinha acontecido a 16 de março [o falhado "levantamento das Caldas"] percebeu-se a importância de, numa futura operação, dar um sinal que confirmasse em cima da hora que as ordens de operação que tinham sido atribuídas às unidades dias antes eram para ser executadas. Foi-me comunicada pelo Otelo [Saraiva de Carvalho] a necessidade de arranjar uma maneira de dar um sinal para todo o país. Isso era essencial. Era uma questão de ordem militar."
Inspirado num livro que estava a ler naquele momento sobre o golpe de Pinochet no Chile, Carlos Contreiras percebeu que a solução poderia passar por usar uma rádio com cobertura nacional para transmitir uma ou mais músicas pré-combinadas. "Copiei a ideia", admite. Através de Álvaro Guerra, jornalista do República, fez um primeiro contacto com a Emissora Nacional, mas percebeu que não seria viável. Lembraram-se depois da Renascença, que também tinha cobertura nacional, e que a partir da meia-noite tinha o programa "Limite, apresentado por Leite Vasconcelos e conhecido por ter "alguma abertura".
"Encontrei-me com o Álvaro Guerra debaixo do Elevador de Santa Justa, na rua do Carmo, e disse-lhe que a canção escolhida era o 'Venham mais Cinco', do Zeca Afonso. Ele foi à rádio, que ficava ali perto, no Chiado, e eu fiquei à espera. Quando volta, diz-me que o 'Venham mais Cinco' não podia ser porque estava proibido e foi aí que escolhi o 'Grandola'", conta o comandante. "Para nós tinha algum significado que fosse uma música do Zeca Afonso. E como sou alentejano lembrei-me do 'Grândola'. Mas, pensando agora, devia ter escolhido uma música completamente inócua, que não chamasse a atenção. Militarmente não foi uma boa decisão. Depois, correu tudo bem e ninguém se lembrou, mas devia ter levado um puxão de orelhas."
"No dia 22 de abril transmitimos aos nossos camaradas que estavam em contacto com as unidades militares que deviam sintonizar a Rádio Renascença às 00:20 do dia 25 onde iria passar o 'Grândola, Vila Morena, antecedida da primeira estrofe dita pelo locutor. As ordens foram entregues em mão, em folhas escritas à máquina e policopiadas, que foram distribuídas de norte a sul do país." A transmissão da senha no programa "Limite" é o segundo fonograma que foi agora considerado tesouro nacional.
Depois da senha transmitida, operação arrancou pelas 3:00 da madrugada e, nesse dia, terminou o regime ditatorial que tinha vigorado durante 48 anos em Portugal.
A importância de preservar dois momentos da história de Portugal
A proposta de classificação foi apresentada em 29 de novembro de 2023 à Direção-Geral do Património (Ministério da Cultura), pela Direção-Regional de Cultura do Alentejo e pela Câmara Municipal de Grândola, no âmbito das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril. A ideia surgiu, precisamente, durante as reuniões em que se planeavam estas comemorações. "Sentimos que tínhamos esta responsabilidade de fazer alguma coisa para preservar esta memória", explicou António Figueira Mendes, mentor da iniciativa de registar os documentos sonoros como património nacional e que era na altura presidente da Câmara de Grândola. "Não é só uma canção, a 'Grândola' está indelevelmente ligada à nossa terra." Esta foi a primeira proposta de classificação de património fonográfico em Portugal.
O processo de classificação foi aberto no final de junho de 2024 e a proposta de classificação veio a ser publicada em julho de 2025 em Diário da República, culminando hoje com o decreto que classifica uma série de bens como tesouros nacionais, incluindo as bobinas.
Em julho do ano passado, o presidente da Museus e Monumentos de Portugal, Alexandre Pais, tornava público que, “com fundamento em parecer da Secção dos Museus, da Conservação e Restauro e do Património Cultural Móvel, de 5 de maio de 2025, [era] intenção” da empresa pública propor à ministra da Cultura, Juventude e Desporto, a classificação como bens móveis de interesse nacional da designada “Senha da Liberdade”.
A primeira bobina, propriedade da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, tem a gravação do programa "Limite" e inclui a leitura da primeira quadra da canção “Grândola, Vila Morena”, a própria canção, efeitos sonoros a acompanhar a leitura, por Leite Vasconcelos, dos poemas “Geografia” e “Revolução Solar”, de Carlos Albino, incluindo ainda a canção “Coro da Primavera”, de José Afonso.
O segundo conjunto – propriedade da RTP - inclui duas bobinas com gravações do Primeiro Encontro da Canção Portuguesa, de 29 de março de 1974, que aconteceu no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
“Os bens propostos são um conjunto de gravações originais e são portadores de memórias coletivas relacionadas com o 25 de Abril de 1974, representando e testemunhando factos nacionais relevantes, constituindo bens culturais móveis integrantes do património fonográfico à luz da Lei de Bases do Património Cultural”, pode ler-se no despacho sobre este assunto, datado de dezembro de 2023.
Ambos os conjuntos foram doados por Manuel Tomaz, responsável pelas gravações e coautor do programa “Limite”, segundo a informação disponível no despacho.
O que estava em causa não era a classificação da canção de Zeca Afonso, mas apenas destes dois registos. "Foram dois momentos muitos importantes", explicou na altura à CNN Portugal Ana Paula Amendoeira, diretora Regional da Cultura do Alentejo. "O Encontro da Canção foi um momento simbólico e emotivo, a Pide estava presente e, apesar disso, é possível perceber como a canção foi acolhida pelas pessoas, é uma prova do grande envolvimento com aquele tema. Também foi isso que levou a que fosse escolhido, pouco depois, como senha da Revolução."
"Os registos já estão digitalizados, mas interessa-nos salvaguardar a gravação original", sublinhava. "Queremos preservar a autenticidade e integridade dos registos. É inegável a sua importância histórica e cultural porque estão associados a um momento determinante na história da democracia portuguesa."