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Investigador universitário doutorado. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, polarização e impactos nos direitos fundamentais

O PS fica de fora, a IL entra, e afinal o 25 de Novembro é de quem?

26 set 2025, 12:34

O Partido Socialista recusa-se a integrar a comissão do 25 de novembro e fará a sua própria comemoração, ao considerar que está a ser ignorado o papel de Mário Soares e do “Grupo dos Nove” num exercício de reescrita da história. Não é apenas mais uma página no capítulo das disputas pela memória, pode bem ser uma tentativa do PS de traçar o seu caminho como alternativa

Desde a mudança de paradigma político com a emergência da direita radical, que entra em cena em Portugal através do Chega, verifica-se um redesenho da memória política e uma disputa pela hegemonia cultural, que arrasta o centro-direita para as pontas, ao tentar responder ao eleitorado de ressentidos que cresce à sua direita.

Essa realidade é terreno fértil para revisitações dos acontecimentos políticos, particularmente quando a iliteracia política, a baixa escolaridade e um saudosismo congénito, abrem sulcos para disputar a memória de mudanças de regime, especialmente quando se trata de mudanças relativamente pacíficas, como foi o 25 de abril.

É nesse trilho que os partidos políticos estão a disputar a data do 25 de novembro. O Chega há muito que pretende fazer da efeméride um marco do derrube da esquerda e uma vitória da direita, sendo acompanhado por vozes dentro do CDS e algumas no PSD.

O problema é que essa narrativa é, apenas, parcialmente verdadeira e absolutamente politizada.

Em primeiro lugar, o 25 de novembro é resultado de um período conturbado da política portuguesa, conhecido como PREC (Processo Revolucionário Em Curso), em que, efetivamente, setores radicais disputavam a transição do regime, com um crescimento acelerado de uma esquerda radical de orientação soviético-comunista, que pretendia fazer passar o país de um regime autoritário de direita para um autoritário de esquerda.

Em segundo lugar, o 25 de novembro não foi uma vitória da direita, mas uma vitória das forças democráticas que fizeram o regime atual, o mesmo que o Chega quer derrubar e que declara, abertamente, significar 50 anos de corrupção.

Por fim, o 25 de novembro teve duas intervenções essenciais: o “Grupo dos Nove”, isto é, o conjunto de militares moderados que, desde o verão de 1975, traçaram a linha de contenção à deriva revolucionária e cuja influência foi decisiva para o desfecho do 25 de Novembro, e Mário Soares, cujo marco de ação e paternidade democrática foi o Comício na Fonte Luminosa, acontecimento prévio que consolidou o papel de Soares e que foi uma afirmação democrática contra a deriva revolucionária.

São essas intervenções que pontuam o 25 de novembro e a conquista da democracia liberal, constitucional e de direito em Portugal, e que o PS considera estarem a ser esquecidas para efeitos de reescrita da história.

Sucede, todavia, embora os socialistas possam reclamar maior protagonismo de Mário Soares, a verdade é que as críticas parecem orientar-se mais por um horizonte de ação política para o futuro do que para o passado.

Senão vejamos: (i) o diploma pretende “reconhecer a diversidade de protagonistas e contributos”, o que não significa negar o papel de Mário Soares, mas antes introduzir uma variedade de atores (ainda que exista margem para um redesenho ideológico que faça emergir figuras secundárias e secundarize figuras centrais); (ii) a crítica de que a comissão “separa o 25 de Novembro do 25 de Abril” é contrariada pelo próprio texto: exige articulação entre programas das comissões de ambas as datas.

Assim, e considerando que na apresentação do projeto da comissão Mário Soares foi mencionado pelo Ministro da Defesa, Nuno Melo, como uma das figuras a reconhecer nas celebrações, não há certezas de que uma reescrita da história esteja em curso. Mais: a presença do PS na comissão seria o garante de que não haveria margem para negar ou secundarizar a memória de Mário Soares.

O que nos diz, afinal, é que os socialistas podem estar a aproveitar para criar uma contraofensiva a um evento que, levando em conta as declarações e posicionamentos dos partidos de direita nos últimos dois anos, se apresenta, potencialmente, como congregador das direitas, a fim de agitar a sua perda de intenção de votos.

Ou seja, ao apresentar uma comemoração independente, o Partido Socialista parece mais focado em construir-se como uma alternativa política a um amplo bloco de direita, que incluiria a AD, o Chega e a IL, do que nas comemorações propriamente ditas. Resta saber se pretende incluir os partidos à sua esquerda nessas comemorações, o que, a meu ver, seria um erro político, agudizando a polarização político-social e contribuindo para a politização de uma data que, na verdade, confirmou o projeto democrático iniciado a 25 de abril.

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