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"Se aquilo abrisse, era o fim". Manuel tinha 23 anos quando tirou Marcello Caetano do Largo do Carmo na "Bula"

25 abr, 08:00
Manuel Correia da Silva

No interior de uma chaimite fechada a ferros, cercada por uma multidão em fúria, a História portuguesa fez-se em "silêncio absoluto". De um lado, o homem que governara um país em ditadura; do outro um furriel de 23 anos, anónimo até então, com a ordem clara de garantir que ninguém faria justiça pelas próprias mãos. Entre gritos de "morte" e punhos a bater no metal, decidiu‑se o destino de um regime e abriu‑se o caminho para a liberdade. Esta é a memória viva de quem esteve no centro do 25 de Abril - onde o medo e a coragem caminharam lado a lado para mudar Portugal para sempre

Já passava das sete da tarde de 25 de abril de 1974 quando Marcello Caetano desceu os degraus do Quartel do Carmo e entrou na chaimite MG-48-04 "Bula", que o esperava com o motor ligado, cercada por milhares de pessoas. A viatura era comandada por Manuel Correia da Silva, então furriel miliciano de apenas 23 anos. Do homem que, horas antes, governava o país, ouviu apenas três palavras:

 "É a vida". 

Já dentro da viatura, fechadas as escotilhas, sentou-se ao lado do chefe do Governo deposto, que recorda de gravata desapertada, visivelmente cansado, mas sem sinais de pânico. "Vinha com um ar de muito cansaço, mas com a pose de um verdadeiro estadista. Sabia que já não podia fazer mais nada", descreve à CNN Portugal.

Uma multidão a gritar "morte, morte, morte"

À sua volta, também dentro da "Bula", o ambiente era, no entanto, outro. Ruí Patrício e Moreira Baptista, até então ministros dos Negócios Estrangeiros e do Interior, estavam "completamente aterrados, aos soluços de tanto chorar", enquanto do exterior chegavam gritos incessantes - "Morte ao fascismo! Morte ao Marcello Caetano! Morte aos ministros!". "Uma viatura daquelas, com toneladas, abanava toda. Eram milhares de pessoas a empurrar. Se aquilo abrisse, era o fim, o povo fazia justiça pelas próprias mãos", afirma.

Correia da Silva lembra-se "como se fosse hoje" do barulho de punhos, pés e de objetos a bater na chaimite. Apesar da robustez e da segurança garantida pelas escotilhas - que uma vez fechadas, a viatura não podia ser aberta por fora - o medo era inevitável para quem seguia detido: "Imagine aquelas milhares de pessoas todas a gritar 'morte, morte, morte'. Aquilo batia medo, claro que batia medo. Quem ia assim preso não era para menos não estar com receio de ser linchado".

O momento em que a chaimite "Bula" se prepara para sair do Quartel do Carmo. Fotografia de Alfredo Cunha publicada no livro "Os Rapazes dos Tanques", editado pela Porto Editora (Cortesia Porto Editora)

As ordens, dadas diretamente por Salgueiro Maia, eram claras: "Chamou-me ainda na rampa e disse-me: 'Neste momento, a ordem é para total segurança dos membros do governo deposto. Não se abre a porta a ninguém até serem entregues no posto de comando'". E foi isso que o furriel cumpriu, limitando a sua interação a uma tentativa de tranquilizar os ocupantes - "disse-lhes que não havia perigo nenhum" - enquanto, no exterior, a tensão não cedia. Durante mais de uma hora, a chaimite permaneceu imobilizada no Largo do Carmo, incapaz de avançar perante uma multidão que não arredava pé. "Para sair foi um pandemónio. Eram aos milhares ali a gritar", lembra.

A situação só começou a desbloquear com a intervenção do advogado e oposicionista Francisco Sousa Tavares, que, ajudado pelo próprio militar a subir a uma guarita metálica da GNR, fez um apelo decisivo à calma. "Estas mãos que estão aqui seguraram nas pernas dele e ajudaram-no a subir. Ele tinha o dom da palavra e fez uma intervenção fantástica. Disse que aqueles homens não dormiam há dias, que estavam sem comer, e pediu uma grande manifestação pacífica."

O momento do apelo de Francisco Sousa Tavares no Largo do Carmo (Foto: Carlos Gil/ Casa Comum)

A partir desse momento, abriu-se lentamente espaço para a viatura sair em direção à Pontinha, onde funcionava o posto de comando do Movimento dos Capitães. Depois de uma viagem feita em silêncio, os detidos foram entregues ao comandante, "que estava na entrada depois da porta das armas", enquanto se confirmava que António de Spínola assumiria a transição do poder.

Dias antes, porém, Correia da Silva não tinha como imaginar a dimensão histórica do que estava prestes a acontecer. No entanto, desde a Intentona das Caldas - o golpe falhado a 16 de março do mesmo ano contra o Governo, que resultou na prisão de dezenas de oficiais - que o ambiente no país tornara-se "pesado", uma "paz podre" que deixava antever o que viria, refere.

Na semana anterior, o furriel foi abordado por um oficial, que à época funcionava como elo de ligação entre os capitães do movimento e os restantes militares do quadro. "Disse-nos que tínhamos de preparar clandestinamente as viaturas para sair na noite de 24 para 25 de abril. Tinham de estar municiadas e preparadas". No início, tudo parecia um exercício noturno normal, como tantos outros. Mas rapidamente perceberam que não se tratava disso. "Nós sabíamos mais ou menos. Percebemos que alguma coisa estava para arrancar", afirma.

O furriel miliciano era responsável pelas chaimites na Escola Prática de Cavalaria de Santarém (Cortesia Manuel Correia da Silva)

Naquela noite, Correia da Silva permaneceu no quartel à espera das senhas. Primeiro, "E Depois do Adeus", de Paulo de Carvalho, que marcaria o início da preparação; depois "Grândola Vila Morena", de Zeca Afonso, que seria o sinal definitivo para avançar. Mas nem tudo correu como o esperado. "A senha devia ter passado por volta da meia-noite, meia-noite e cinco, mas só foi para o ar à meia-noite e vinte e dois". Os minutos de atraso pareceram uma eternidade: "Foi muito difícil passar aqueles vinte minutos, foram como anos porque estávamos com medo que aquilo borregasse", admite.

Quando a música finalmente soou no rádio do quartel, Salgueiro Maia reuniu os homens na parada e fez um discurso que ficaria para sempre gravado na memória dos que o ouviram: "Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!"

Dos 244 homens, nenhum ficou para trás. "Não houve um único que não quisesse ir", lembra Correia da Silva.

A coluna partiu da Escola Prática de Cavalaria de Santarém rumo a Lisboa ainda de madrugada. A chaimite em que seguia - a "Bula" - transportava dez militares: sete atiradores, o condutor, o apontador e o comandante - o próprio Correia da Silva. "Íamos todos num silêncio absoluto porque, claro, havia receio que fosse outro 16 de Março."

Ninguém sabia ao certo o que os esperava à chegada a Lisboa. Existia a consciência clara de que poderiam ser travados pelo caminho ou enfrentar forças fiéis ao regime. "Mas a primeira paragem que fizemos, até dá vontade de rir. Quando chegámos ao Campo Grande, estava o sinal vermelho e o condutor do jipe de comando, onde ia o Salgueiro Maia com o Tenente Assunção, parou. Íamos logo a seguir à viatura do comando, e então, só ouvimos o Maia aos berros: 'Opá, é para andar. Onde é que numa revolução se para num sinal vermelho?'", recorda 52 anos depois o furriel miliciano.

Correia da Silva destaca a forma como Salgueiro Maia lidava com os subordinados: "Era um homem impecável no trato com as pessoas. E era um militar a sério, um operacional do melhor que tínhamos em Santarém." (Cortesia Manuel Correia da Silva)

Seguiram Campo Grande abaixo até ao Terreiro do Paço, um dos pontos estratégicos definidos desde o início. "A nossa missão, era tomar os ministérios, a Rádio Marconi e o Banco de Portugal". À chegada, a cidade começava a acordar e milhares de pessoas enchiam já as ruas, ignorando os avisos da rádio. "Era gente ali a chegar que não imagina. A rádio começou a transmitir que as pessoas ficassem em casa, mas as pessoas vieram todas para a rua", lembra.

Pouco depois, a tensão atingiu o ponto máximo quando quatro carros de combate avançaram na direção das forças de Santarém, com ordens diretas de Marcello Caetano para esmagar a revolta e fragatas da Marinha aproximavam-se do Terreiro do Paço. "Quando vimos aqueles 'bichos' a avançar, percebemos que a situação podia acabar ali. Foi terrível. As munições deles tinham mais de um metro. As nossas, das chaimites, eram muito mais pequenas. Se alguém tivesse disparado, aquilo tinha sido um massacre", afirma.

Foi então que ocorreu o momento em que Correia da Silva considera que "se ganhou o 25 de Abril": o cabo José Alves Costa recusou cumprir a ordem do brigadeiro Junqueira dos Reis de abrir fogo, mesmo tendo uma pistola apontada à cabeça, e trancou-se dentro da viatura. "Quando vimos que não dispararam e ainda passaram para o nosso lado, percebemos que o 25 de Abril estava ganho", conta Correia da Silva. Mais tarde, o próprio Salgueiro Maia escreveria nas suas memórias que esse momento foi a "insubordinação mais bela do 25 de Abril".

O momento em que a fragata F-743 deixou de constituir ameaça para as tropas de Santarém. Fotografia de Alfredo Cunha publicada no livro "Os Rapazes dos Tanques", editado pela Porto Editora (Cortesia Porto Editora)

"Subimos todos para as viaturas e começámos a fazer o V de vitória porque, de facto, foi aí que se evitou o que poderia ter sido uma matança com milhares de vítimas no Terreiro do Paço", afirma.

Com a ameaça neutralizada, consolidou-se o controlo do Terreiro do Paço e a chaimite "Bula" recebeu ordens para seguir para o Largo do Carmo, onde o governo se refugiara. A subida pela Baixa de Lisboa "foi uma loucura", recorda, com pessoas a juntarem-se por todo o lado, até chegarem a um Carmo completamente tomado por milhares de manifestantes. "As pessoas iam-se juntando por todo o lado. Eu nunca tinha visto tanta gente junta".

No entanto, durante horas, a situação manteve-se num impasse, com negociações prolongadas e uma multidão cada vez mais impaciente. A certa altura, Correia da Silva recebeu ordens para disparar rajadas de intimidação com a metralhadora HK21 da "Bula" contra a fachada do Quartel - "para mostrar que não estávamos ali a brincar" - deixando marcas que permaneceriam visíveis durante décadas.

Após longas horas de negociações, Marcello Caetano acabou por aceitar entregar o poder, mas apenas a um general. Com a chegada de Spínola, foi dada ordem para a chaimite entrar de marcha-atrás no Quartel e preparar a retirada dos detidos em segurança. "Depois eu saí fora e abri a porta do lado esquerdo", descreve.

A "Bula" a entrar no Quartel do Carmo. Fotografia de Alfredo Cunha publicada no livro "Os Rapazes dos Tanques", editado pela Porto Editora (Cortesia Porto Editora)

O que se seguiu ficou gravado na memória de Correia da Silva como um choque quase físico. "Eu fiquei como se fosse um cubo de gelo. Parece que não tinha reação ao ver um homem daqueles, que antes tinha o país todo nas mãos, a ser preso mais os ministros".

"O 25 de Abril foi o dia mais feliz da minha vida"

Mais de cinquenta anos depois, o antigo furriel miliciano não tem dúvidas: "o 25 de Abril foi o dia mais feliz da minha vida". "Foi o dia em que o nosso povo recebeu aquilo que lhe tinha sido negado durante 48 anos: a liberdade". Para Correia da Silva, a Revolução não foi apenas o fim de um regime autoritário: "Foi o fim da censura, das prisões políticas, do medo constante e de uma guerra que marcou gerações inteiras."

Manuel Correia da Silva e Celeste Caeiro - a mulher que distribuiu os cravos pelos militares no 25 de Abril - voltaram a reencontrar-se 50 anos depois (Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP)

Sempre que fala desses dias, sublinha o papel essencial da população. Na sua memória, a Revolução não se fez apenas com militares e ordens, mas sobretudo com pessoas comuns que saíram à rua e decidiram apoiar quem arriscava tudo. "O povo de Lisboa foi o verdadeiro herói do 25 de Abril. As tropas que podiam vir contra nós acabavam por desistir porque o povo rodeava as viaturas".

Com orgulho, recorda ter estado presente em todos os momentos decisivos da Revolução - Santarém, Terreiro do Paço, Largo do Carmo e Pontinha. "Estive em todos os sítios onde se deram os principais acontecimentos. Tive essa felicidade e estou aqui vivo para contar." E conclui: "A liberdade é o bem supremo de qualquer ser humano. E eu tive a felicidade de ajudar a conquistá‑la."

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