António José Seguro assinalou o 25 de Abril com um apelo à defesa da democracia, alertando para os riscos à liberdade e defendendo transparência política e justiça social
António José Seguro fez, este sábado, o seu primeiro discurso de 25 de Abril enquanto Presidente da República e destacou o valor “inestimável” da liberdade conquistada com a Revolução dos Cravos, sublinhando que esta é “tão natural como a nossa vida, tão natural como o ar que respiramos”.
Perante os deputados, Seguro afirmou que o ambiente vivido no Parlamento reflete o espírito de Abril: “O que ouvimos hoje nesta Assembleia é Abril. Todos podem escolher livremente os seus representantes. Esta é a liberdade que o 25 de Abril nos deu.” O chefe de Estado recordou ainda que há poucos momentos comparáveis na história nacional e reiterou o agradecimento aos capitães de Abril.
"O ponto de partida, o 25 de Abril de 1974, é de valor inquestionável. Reúne um apoio esmagador, intergeracional e, de tão virtuoso, que o assumimos como natural. Tão natural como o ar que respiramos. Nunca é demais a evocação e o agradecimento aos Capitães de Abril, a quem dirijo hoje uma saudação emocionada e um reconhecimento que nunca poderá ser suficiente: deram-nos mais do que o fim da ditadura. Deram-nos a liberdade de sermos nós próprios, de escolhermos o nosso caminho".
No entanto, o Presidente alertou que a liberdade exige vigilância e responsabilidade. “A liberdade implica garantir que a tecnologia serve o ser humano e não o contrário”, afirmou, acrescentando que os cidadãos “têm o direito de saber”, defendendo maior transparência, nomeadamente nos donativos políticos.
"A liberdade também exige responsabilidade e instituições íntegras. Não há verdadeira liberdade sem transparência no exercício dos cargos públicos. Os cidadãos têm o direito de saber como são tomadas as decisões que afetam as suas vidas. A transparência nos donativos políticos é essencial para garantir uma democracia saudável e justa. Quando o financiamento é claro e acessível, os cidadãos conseguem compreender quem apoia quem e com que interesses. Tornar públicos os donativos não é uma questão administrativa, é um compromisso com a ética e respeito pelos portugueses. Porque onde há opacidade, cresce a suspeita; onde há clareza, fortalece-se a legitimidade", afirmou, considerando que a divulgação desses donativos é essencial para a ética e respeito pelos portugueses.
Seguro abordou ainda questões sociais, mostrando “muita dificuldade em compreender” a persistência de desigualdades salariais entre homens e mulheres.
E depois, dirigiu-se aos jovens, lembrando os os desafios e alertando que “o presente está a hipotecar o futuro”. Entre as preocupações destacadas estiveram as alterações climáticas - “o clima não espera pelo calendário político” - e a crise na habitação.
"A liberdade de hoje, em particular dos mais jovens, é também a liberdade de ter uma habitação digna, sem a qual o projeto de vida das novas gerações fica suspenso. Temos hoje jovens que trabalham e aos 30 anos ainda vivem na casa dos pais por impossibilidade de adquirirem ou arredarem uma habitação. Isto não é apenas um problema de mercado. É um direito que o Estado tem de salvaguardar. É uma exigência de liberdade. Temos hoje jovens licenciados, com mestrados e doutoramentos, cujas competências são valorizadas no mundo inteiro e em Portugal ganham salários que não chegam para terem uma vida minimamente confortável. Quando o talento não é recompensado em Portugal, não é só uma injustiça económica, é uma perda irreparável para o país. Nenhum país se constrói assim. E nenhum Presidente pode aceitar isso em silêncio. Eu não o aceito. Tudo devemos fazer para que os jovens encontrem em Portugal o lugar onde querem construir as suas vidas. Se Portugal deu novos mundos ao mundo, hoje temos a obrigação de dar novos mundos aos portugueses – aqui em Portugal".
Dirigindo-se diretamente às novas gerações, Seguro disse não querer impor uma visão do 25 de Abril, mas reforçou a importância de compreender as conquistas alcançadas. “Caros jovens... foi Abril”, declarou.
"Eu não venho pedir-vos que amem o 25 de Abril. Não tenho esse direito. Ninguém ama por decreto ou procuração aquilo que não viveu. Quero apenas dizer-vos de um modo simples: Quando deixaste de ser obrigado a combater, ir para a guerra – foi Abril. Quando conduzes um carro e não precisaste de autorização do teu marido ou da família – foi Abril. Quando és mulher e viajas sem ter de pedir autorização ao teu companheiro – foi Abril. Quando optas por uma carreira de magistrada ou diplomata e és mulher – foi Abril. Quando a tua mãe e o teu pai foram à urgência e não lhes pediram que pagasse antes de ser tratada – foi Abril. Quando a tua liberdade apela a propor, participar ou assinar uma petição – foi Abril. Quando leste ou partilhaste uma notícia crítica do poder e ninguém bateu à tua porta – foi Abril. Quando votaste, ou decidiste não votar, sem medo de represálias – foi Abril. Abril está nos gestos. Faz parte da tua vida, porque tens liberdade".
O discurso terminou com um aviso sobre os riscos para a democracia, com Seguro a lembrar que "a liberdade não desaparece de uma só vez. É aos poucos". E deixou um apelo claro - "estejam atentos, não se calem, falem mais alto" - porque para o Presidente, a liberdade perde-se quando o silêncio se instala “por conveniência ou por indiferença”.
"Quando virem um direito fundamental a ser anulado, denunciem alto o que viram. Quando a intolerância esmaga a cidadania, espalhem o alerta – porque rapidamente a noite se apodera do dia. Quando ouvirem a palavra liberdade a ser usada para a restringir – defendam-na. Quando sentirem que o insulto substitui o diálogo – continuem a dialogar. Quando sentirem que a vossa voz não conta, não se calem – falem mais alto. Abril não precisa de guardiões solenes. Precisa de cidadãos atentos, livres e com capacidade crítica".
Na reta final, António José Seguro fez um apelo direto à vigilância democrática: “Não sejam espectadores da democracia. Sejam protagonistas.” E reforçou: “Ou defendemos a democracia com coragem, ou arriscamo-nos a perdê-la em silêncio.”
Concluindo com uma nota pessoal, recordou que tinha 12 anos no 25 de Abril e que foi compreendendo o seu significado ao longo da vida. “Sou Presidente porque esse dia existiu”, afirmou, garantindo que exercerá funções “de forma que valha a pena ter acontecido”.