25 Abril: nenhuma data que une ou desune deve “cair no esquecimento”. Como vão ser as comemorações dos 50 anos da Revolução?

Agência Lusa , MJC
26 mar, 10:02
Maria Inácia Rezola, comissária das Comemorações oficiais dos 50 anos da Revolução de 25 de Abril de 1974 (Lusa/ António Pedro Santos)

Em entrevista à Lusa, Maria Inácia Rezola, comissária das comemorações do cinquentenário do 25 de Abril, afirma que as comemorações são uma oportunidade para trazer “o debate para a arena política” sobre os “legados de Abril” e revela o que já está a ser preparado

A comissária dos 50 anos do 25 de Abril acredita que o crescimento da extrema-direita em Portugal não afetará o ambiente das comemorações e alerta que as datas da revolução, quer unam ou desunam, não devem “cair no esquecimento”.

Em entrevista à Lusa, Maria Inácia Rezola, comissária das comemorações do cinquentenário do 25 de Abril, defendeu que, em 2025, devem ser evocadas datas como o 11 de Março de 1975, a tentativa de golpe de António de Spínola, ou o 25 de Novembro de 1975, o confronto entre as fações da esquerda radical e do grupo dos “moderados”, que pôs fim ao período revolucionário.

“Marcos fundamentais” como o 28 de Setembro ou as primeiras eleições em 25 de abril de 1975 “têm necessariamente que ser assinaladas”, acrescentou.

“E, mais do que a questão se unem ou não unem, acho que o fundamental é que não caiam no esquecimento e que exista informação”, explicou.

Para Inácia Rezola, historiadora e autora de vários livros sobre o 25 de Abril e a Revolução dos Cravos, é preciso aproveitar e pôr os protagonistas da história a “deixar o seu testemunho” às gerações mais jovens sobre o que foi a ditadura mais antiga da Europa e o que significou a sua queda, em 1974.

É uma forma de evitar, admitiu, que se comemore o 25 de Abril como se fosse “a pré-história” ou se “pareça com as celebrações do 05 de Outubro” de 1910, data da implantação da República, e que “dizem tão pouco aos jovens”.

Pedro Adão e Silva, anterior comissário e atualmente ministro da Cultura, defendeu, em março de 2022, que se celebre “aquilo que une e não o que divide".

Dias depois, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou que o 25 de Novembro de 1975 também cabe nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, embora não já no início, que referiu ser dedicado aos antecedentes da revolução.

À Lusa, Maria Inácia Rezola disse que os portugueses são democratas e que não receia uma influência negativa no ambiente das comemorações com a subida da extrema-direita nas legislativas.

“Penso que não, francamente”, declarou, quando questionada sobre o assunto.

A historiadora olha para “a evolução política portuguesa desde o 25 de Abril” para concluir que os portugueses não questionam a democracia, mas questionam – “e bem” – a qualidade da democracia.

As comemorações são, segundo afirmou, uma oportunidade, “um desafio” para trazer “o debate para a arena política” sobre os “legados de Abril”.

Sobre o lançamento, criticado pela esquerda, do centro interpretativo do Estado Novo, em Santa Comba Dão, onde nasceu o ditador António Salazar, Inácia Rezola prefere esperar para ver o projeto da Universidade de Coimbra, “um centro de investigação particularmente credenciado, por académicos de reconhecido mérito e valor científico”.

E aludiu aos “grande equívocos” de que se trata de um museu sobre Salazar, afirmando que todos os “locais de memória e de história são fundamentais para que não se esqueça o passado e que se construa o futuro”.

Comemorar nas ruas, nas redes sociais, com debates, a ler e ouvir música

A comissão das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril quer levar às ruas, às redes sociais, até ao final de 2023, iniciativas para recordar a data e o seu significado, como um festival de música e debates. À agência Lusa, Maria Inácia Rezola, comissária das comemorações do cinquentenário do 25 de Abril, afirmou que, pela sua experiência dos últimos meses no cargo, vê um “país em ebulição”, que quer celebrar e festejar Abril.

A comissão, disse, já recebeu “mais de 200 propostas de iniciativas” por todo o país. São “propostas com grande dinamismo, grande imaginação”, há uma “vontade de trazer Abril para as ruas, Abril para as casas de todos os portugueses”, afirmou.

Estes são alguns dos destaques do 50.º aniversário do 25 de Abril em 2023

  • Lembrar o que #NãoPodias fazer antes de 1974
    As comemorações em Lisboa vão ser descentralizadas, com um núcleo no Palácio Baldaya, em Benfica. Haverá “uma campanha nas redes sociais, dirigida sobretudo aos mais jovens, intitulada #NãoPodias, tentando alertar e levar a uma reflexão sobre o que é que se podia e o que não se podia fazer antes do 25 de Abril” de 1974, explicou à Lusa Maria Inácia Rezola, historiadora e comissária das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Não se podia beijar na rua, votar livremente, discordar, viajar, reunir, ser europeu ou ter acesso gratuito à saúde são alguns dos #NãoPodias que a comissão vai recordar.
  • Festival 2504, com música e debates
    Em abril, a comissão junta mais um festival, especialmente dedicado aos jovens: vai “dar” música, mas também 'workshops', visitas guiadas à exposição sobre Amílcar Cabral no Palácio Baldaya e várias conferências ao longo dessa semana do 25 de Abril.
  • Recordar Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro 
    A comissão vai evocar de forma original o Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, em abril de 1973, um ano antes da revolução, e que desafiou o Estado Novo, segundo Maria Inácia Rezola. “Enquanto em Lisboa vamos ter duas tardes de reflexão, sobre os temas que foram debatidos em 1973, na Universidade de Aveiro, com escolas do ensino primário, secundário e também estudantes universitários, vamos debater os temas da atualidade que movem os jovens e que os inquietam como questões ambientais, como questões de desigualdade, de exclusão”, descreveu.
  • “Unidos Venceremos”, a 01 de Maio
    No Dia do Trabalhador, em 01 de Maio, marcará a abertura de uma exposição com o título “Unidos Venceremos”, sobre “as greves e os protestos na reta final do regime”. Esta é uma exposição comissariada por Pacheco Pereira, do arquivo Ephemera, e que vai ter um polo em Lisboa e um polo em Barreiro, distrito de Setúbal.
  • Um verão para lembrar os Liberais do regime
    No verão, é a altura de evocar o encontro dos Liberais, em junho 1973, em que “os célebres deputados da ala liberal [Sá Carneiro, Pinto Balsemão, Mota Amaral, Miller Guerra, por exemplo] que tinham deixado a Assembleia Nacional decidiram refletir sobre qual o seu lugar no quadro político e no futuro político do país”.
  • Regresso ao monte de Alcáçovas onde nasceu o MFA
    Até final do ano, será ainda evocada a primeira reunião plenária do movimento dos capitães de 9 de setembro, que juntou 95 capitães, 39 tenentes e dois alferes. É considerada a reunião fundadora do Movimento dos Capitães, mais tarde rebatizado de Movimento das Forças Armadas (MFA). O reencontro será no local onde aconteceu há 50 anos – no Monte do Sobral, em Alcáçovas, a 30 quilómetros de Évora, e que hoje é um empreendimento de turismo rural. Em dezembro, será lembrado outro encontro do movimento, em 1 de dezembro de 1973, “tão decisivo e tão importante em que se começou a perspetivar que o golpe de Estado era a via para acabar com o regime”, como recordou a historiadora. Foi a famosa reunião de Óbidos.
  • Um orçamento de quase um milhão
    O orçamento da comissão de 2023 não chega ao milhão de euros. A sede está num dos claustros do edifício do Quartel do Carmo, em Lisboa, onde se rendeu, em 25 de Abril de 1974, o chefe do Governo, Marcello Caetano, tem uma equipa pequena, de seis pessoas, incluindo a comissária.
  • Linhas de apoio às artes e ao cinema
    A comissão abriu um concurso de candidaturas para financiar projetos artísticos relacionados com os 50 anos da Revolução de Abril. O júri está a avaliar e, nas próximas semanas, serão conhecidas os vencedores. No final do mês será aberto outro concurso no Instituto do Cinema e da Imagem para apoiar a produção de filmes, documentários e produção de cinema.

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