Fez uma resolução para 2023? Estes especialistas ajudam os outros mudar de vida (e têm dicas para não deitar tudo a perder)

1 jan, 10:00

Ano novo, vida nova. Mas os desejos e resoluções mais comuns são os de sempre. Por esta altura, há mais portugueses a correr para os especialistas, para conseguirem a ajuda que lhes permite levar a mudança a bom porto. Mas porque falham? Quem tem as soluções, tem a resposta

Passou o tempo de balanços, de reflexão, de fechar ciclos. E de perceber o que ainda há para fazer e para mudar. Mas, afinal, porque é que todos os anos fazemos o mesmo? Porque é que prometemos que, no ano que aí vem, é que vai ser?

“Precisamos de marcadores. O ser humano alimenta-se do simbólico. E nada melhor que a transição do ano para abrir um novo ciclo”, explica a psicóloga Catarina Lucas. Mas, quando janeiro vai avançado, muito do que se desejou fica pelo caminho.

Pergunta-chave: porque falhamos no que (aparentemente) mais queremos? “Somos muito ambiciosos, traçamos objetivos que são um bocadinho irrealista. Objetivos que toda a gente traça, mas pouco ajustados a nós. Ao longo do ano, vamos sentido essa frustração, porque uma data de coisas não foi alcançada. Muitas delas não chegaram sequer a ser iniciadas”, completa.

Por esta altura, os especialistas recebem uma ‘avalanche’ de potenciais clientes, sedentos de mudança. Seja qual for a área de atuação, a cada virada de ano, o cenário repete-se. Mas, mesmo com ajuda, nem todos chegam a bom porto.

Por isso, se quer deixar de fumar, encontrar um novo emprego, fazer mais exercício físico, entregar-se a um novo amor ou aprender a tocar um instrumento, veio ao sítio certo. O resto – que é como quem diz, o compromisso e a motivação – fica do seu lado.

Deixar de fumar: é provável que falhe, mas há soluções

Há uma coisa que deve fixar antes de iniciar o processo: “para um fumador, em média, há cinco ou seis recaídas ao longo da vida”. Por isso, mesmo que falhe à primeira, ainda pode chegar ao objetivo. “Não culpamos essa pessoa. Estamos aqui para ajudar. Há tratamentos e possibilidade de auxílio”, garante o pneumologista António Bugalho.

À medida que o ano se aproxima do fim, este médico tem mais pacientes nas consultas de cessação tabágica. “Faz parte das resoluções de ano novo”. Querem saber como vai ser o processo, buscando sempre “o máximo de eficácia com o mínimo de esforço”. “E nós explicamos que a pessoa, primeiro, tem de estar claramente motivada. A motivação é uma coisa que se constrói”, remata.

Deixar de fumar logo no primeiro dia de 2023 pode não ser a melhor ideia. “Há festa, há consumo de bebidas alcoólicas. Faz com que o dia 1 de janeiro se transforme no dia mais difícil para deixar de fumar. Às vezes é mais sensato adiar”, reconhece António Bugalho.

Mas não pode adiar para sempre. “Uma das estratégias que utilizamos para deixar de fumar é combinar um dia. Esse dia deve ser comunicado a amigos, colegas de trabalho, familiares. É como se fosse um contrato, um compromisso para consigo próprio, em que os outros também nos ajudam”.

Há quem queira deixar o tabaco sem a ajuda da medicação, mas as probabilidades de sucesso são baixas para quem fuma mais de dez cigarros por dia. Mas, mesmo com fármacos, não há milagres. “A dependência física em relação à nicotina pode demorar semanas a meses. A dependência psicológica pode durar uma vida”. A mudança está, literalmente, nas suas mãos.

Novo emprego: é tudo uma questão de ter a “mente aberta”

Há resoluções de ano novo mais fáceis de cumprir do que outras. Em 2023, mudar de emprego é uma delas. “Não vai ser de todo difícil, porque nos últimos quatro anos estivemos quase em pleno emprego. Há uma necessidade muito grande de talento na nossa economia e nas nossas empresas”, diz Ricardo Pires, presidente executivo da Talenter.

Nesta empresa de recrutamento, janeiro é sinónimo de trabalho. “No início de cada ano, o volume de candidaturas acaba sempre por duplicar. Eu diria quase triplicar”. São trabalhadores à procura de uma mudança na vida profissional – ou mesmo de a começar. Para os recrutadores, a tarefa acaba por ficar facilitada, porque há mais opções para encaixar na perfeição nos perfis que as empresas procuraram.

A formação e o currículo bem cuidado importam, mas ter “mente aberta” pode fazer toda a diferença na hora de avaliar as propostas. Porque as vagas que há disponíveis nem sempre correspondem às tarefas que já desempenhou. “Há uma necessidade enorme de pessoas na parte das tecnologias da informação. Mas também sofremos muito da falta de recursos humanos no setor primário, na construção civil ou na hotelaria”.

Bem, e o salário, que muitas vezes não é atrativo nestas áreas? “As empresas vão ter de acompanhar a subida, sob pena de não existirem recursos suficientes para aquilo que a economia precisa”. Sem ele, nada feito.

Ir ao ginásio: com compromisso e sem resultados rápidos

Há mudanças que pesam mais do que outras. Se a sua resolução de 2023 for ir ao ginásio, vai perceber bem a frase anterior. É que um Natal de excessos faz soltar a culpa de um ano sedentário.

“É recorrente. No final do ano e início do ano novo, sente-se um aumento da procura”, confirma o ‘personal trainer’ Marcelo Graça. Mas, se os ginásios tendem a estar cheios no início de janeiro, a meio do mês já não deverá ser tão complicado usar as máquinas ou ter vaga na aula de grupo.

“Existe uma quebra, sim. Mas sinto que, de ano para ano, há uma maior tomada de consciência da importância do exercício físico”. Contudo, como Marcelo Graça dá treinos personalizados, adaptados às capacidades de cada cliente, a sensação de acompanhamento permanente contribuiu para a sensação. Sozinhos no ginásio, sem orientação ou experiência prévia, é mais difícil levar este barco a bom porto.

E tem tudo a ver com o compromisso. Quem vem à procura de resultados rápidos, preocupado com a parte estética e não com a saúde, mais facilmente desiste. “Porque não têm a motivação certa para ter uma boa adesão ao programa de treino. É uma das bases da pirâmide, essa adesão ao treino. E a consistência. Só assim é que vai ter resultados”, resume o especialista. A mudança tem de ser de dentro para fora. E não o contrário.

Encontrar um novo amor (ou terminar o que já morreu)

Há mudanças que, por muito que as deseje, dependem sempre de um outro. Encontrar o amor é uma delas. “É um objetivo um bocadinho difícil, porque exige reciprocidade. E nós temos menor controlo sobre isso. O importante, mais do que tentarmos a qualquer preço encontrar alguém, é tentarmos estabelecer relações saudáveis”, aponta a psicóloga Catarina Lucas, especializada na área da terapia familiar.

Mas há uma parte que depende exclusivamente de si: a abertura para se dedicar a um relacionamento. Por vezes, pode exigir apoio especializado. “Esse estar aberto pode implicar um trabalho de preparação e alguma proatividade. Até o carteiro nos bate poucas vezes à porta”.

Mas, no início de cada ano, há também quem feche relações. “Esta transição é crítica. Há aqueles que decidem terminar as suas relações. Precisamos desses marcos simbólicos. E dezembro não é o mês ideal para tomar esta decisão, porque é um mês de família, particularmente difícil para quem tem filhos”. Também estas famílias procuram ajuda, para fechar este ciclo, no sofá dos psicólogos.

Chamar a música dá trabalho

Há sonhos que a vida, cheia de rotinas, vai adiando. Mas nunca é tarde para regressar a eles. E, por isso, na mudança de ano, há também maior azáfama nas escolas de música. “Temos mais inscrições nesta altura do ano. Faz parte das chamadas resoluções de ano novo. E aqui não é exceção”, confirma João Mota Oliveira, diretor da Academia de Música de Telheiras.

O piano e a guitarra são sempre os instrumentos mais procurados. Mas conhecer os seus meandros, as suas potencialidades, pode revelar-se um verdadeiro quebra-cabeças. “É algo que exige bastante trabalho, dedicação, método e disciplina. E regularidade no treino em casa. E quando as pessoas vêm para cá com essa consciência, de que é necessário fazer esse trabalho para poder evoluir, tudo bem, as coisas acabam por acontecer. Os resultados acontecem. Agora, quando as pessoas vêm para cá e não têm essa consciência, passados um mês, dois meses, e não conseguem ver resultados, acabam por desistir”, confessa o professor, conhecido como o compositor da canção “Chamar a Música”, que (quase) todo o país sabe cantar.

Se o tempo importa, a idade não é uma barreira na hora de aprender um instrumento. João Mota Oliveira tem um lema, que serve para a música mas também para qualquer mudança que queira levar em frente em 2023: “Insistir, persistir e nunca desistir”.

Relacionados

País

Mais País

Patrocinados